A fé move montanhas (de dinheiro, é claro).
Com o pretexto da salvação a qualquer custo, nem que seja por uns míseros trocados, a gente pode ver de tudo na TVs e rádios hoje em dia. De pastor pregando com os trajes do Superman, passando por igreja evangélica que celebra seus cultos e os intermedeia (nos intervalos) com lutas de vale-tudo dentro do templo, ou até o habitual e clássico chororô dos fiéis em auto-flagelação pedindo a intervenção do Senhor. Se você ver isso com uma visão desencanada dá pra se mijar de tanto rir ao assistir tais programas.

Mas o assunto destas mal batucadas linhas não diz respeito as igreja evangélicas e sim a mais antiga multinacional do mundo: a Igreja Católica. Como boa empresa que se preze, ela encontrou um nicho de mercado a ser explorado por inteiro. Uma oportunidade única e um nicho de mercado que ela ainda não havia se apropriado adequadamente.
As primeiras tentativas mercadológicas foram tímidas, muito restritas à própria comunidade católica ou você vai querer me dizer que já tinha ouvido falar dos grandes sucessos do Padre Zezinho?
Isso começou a se modificar na segunda metade dos anos 90 com o surgimento do feliz, saltitante e onipresente Padre Marcelo que nos brindou com versos surreais e com uma dança que mais parecia uma aeróbica divina.
Ele era presença constante nos programas dominicais da TV. Era um total contra-senso ver rebolativas e voluptuosas dançarinas dos programas em trajes minúsculos fazendo parte daquela "micareta-pudica-celeste" do padre orelhudo.
A ordem era se purificar e louvar o Senhor, mesmo que para isso fosse necessário lavar os pecados de nossa alma numa banheira cheia de sabonetes.
Acho que nem preciso dizer que o Padre Marcelo vendeu muitos discos. Fez fortuna, dou seu cachê para obras da Igreja.

Depois dele, claro, vieram outros padres metidos a cantores. O talento destes era algo tão evidente quanto o os dotes vocais do MC Créu. E dá-lhe padre Antônio Maria, aquele barbudinho que anda com a imagem de uma santa a tiracolo e só faz casamento de celebridades como Ronaldinho e Cicarelli (mas a Igreja não é contra se separar e casar novamente?), padre Zeca, aquele que dizia, "Deus é dez!!!" (e que inspirou o nome da música do Gangrena Gasosa e que dá título a este texto) e até umas freiras cantando rap divino no programa da Hebe.
Mas já houve música advinda de "inspiração" divina de altíssima qualidade. É impossível não se emocionar ao ouvir artistas que compuseram ou gravaram boa parte de sua obra para Deus (seja lá qual o credo que você, leitor, tenha) gente como Vivaldi, Bach, Haendel, as cantoras gospel do sul dos EUA que influenciaram e muito o rock and roll, o próprio Elvis Presley em certo momento da carreira, Sinéad O´Connor, etc.
Bem, tudo isso é passado. Falemos de presente. Como poderemos notar, as coisas não mudaram tanto assim...
Hoje temos o axé evangélico - seja lá que diabos (ops) isso signifique - com uma feliz e sorridente moçoila pregando as vantagens de se entrar pro rebanho divino ao som de um ritmo reconhecidamente "profano" que movimentas promíscuas micaretas Brasil afora.
Mas quem mais chama a atenção e vende discos, sem sombra de dúvida, é o onipresente padre Fábio de Melo. Imagino que seja impossível alguém não conhecê-lo a essa altura do campeonato, mas para aqueles que não o conhecem, tentem imaginar como seria o cantor brega-romântico Fábio Jr se este cantasse louvores ao Senhor. O padre Fábio de Melo dificilmente é visto de batina ou em trajes "sacrossantos", preferindo um visual à la "metrossexual peão caipira", com corte de cabelo meio moderno, braços torneados em academia e pose de vendedor-galã da loja de departamentos Marisa.
O padreco em questão é figurinha carimbada nos programas de maior audiência da TV "secular" (uso aqui um termo preconceituoso pelo qual a Igreja se refere a quem não faz parte dela) e nos das TVs católicas (Rede Vida, Canção Nova, Século 21) onde celebra missas, profere palestras, sermões e o caralho a quatro.

Nem é preciso dizer que ele arrebata multidões acéfalas por onde passa e desperta a libido de algumas loucas beatas galinholas dispostas a perder a virgindade aos 40 anos.
Sua música traz arranjos dignos de tecladista de churrascaria, com uma interpretação pretensiosa e entendiante. Posso imaginar no inferno a cena onde satanás se atira ao chão e rola de tanto de rir, "Tudo está correndo como o planejado. Com esse rapaz, Jesus vai querer voltar rapidinho para Terra pra evitar o fim do mundo".
Com um pouquinho de dinheiro e fé (lembrem-se, só a fé nos salvará) pode-se comprar CDs, DVDs, livros, pôsteres e se bobearmos conseguimos até salvação divina com um autógrafo. Mas ao final o que sobra disso tudo?
Muito pouco.
Primeiro porque brasileiro não tem o menor senso crítico do que venha ser música de verdade e segundo porque ele é tudo que as gravadoras mais queriam pra se investir: alguém que fosse bom moço, não entendesse nada de música e que propagasse a idéia ultrapassada de que CD pirata é algo ruim e que Jesus não vai aceitar no céu quem venha a baixar música ilegamente na web ou comprar CD do camelô.
A Igreja Católica na parada de sucesso explica em parte o porque esse país é tão atrasado em vários aspectos. Digamos que é uma "contra-reforma musical". Muda-se pra continuar na mesma.
O padre Fábio de Melo é apenas uma marionete. Logo o povo cansa. Já aconteceu com o padre Marcelo. Depois vem outro. É a vida. Infelizmente.
E pensar que esse povo chato fica querendo nos livrar do diabo... Se isso for o paraíso, putz, eu prefiro a minha "Highway to Hell".
Por Marcelo Almeida



