Enquanto as gravadoras se enredam cada vez mais na teia global da web e projetam na pirataria toda sua frustração diante da implacável vassoura do tempo, que varre para o lixo tudo o que deixa de ser útil para a cultura humana; os artistas populares brasileiros já possuem praticamente pronto, testado e aprovado, seu novo modelo de produção, distibuição e consumo de música.
A Musica Original Brasileira está em risco. Desta vez, não é a alta cultura querendo silenciar os bailes funk no Rio, as festas de aparelhagem em Belém ou a festa do peão boiadeiro de Barretos. Trata-se da gripe suína. Como a grande maioria dos artistas da MOB não ganham a vida vendendo discos, mas trabalhando e fazendo shows, os preocupantes cancelamentos podem acabar mudando o rumo da evolução da cultura brasileira. Se bobear, o carnaval de 2010 pode estar comprometido.
Semana passada postei no meu blog uma longa entrevista que Chimbinha deu para a revista Trip. Desde o ano passado que a Rolling Stone cogitava uma matéria com a banda Calypso, contando como eles atingiram o topo sem depender de gravadoras ou da mídia. Pelo visto, a Trip continua afiada e fazendo jus ao mote "A Trip deu antes". Mas não é visionarismo editorial o assunto desse texto, e sim uma declaração de Chimbinha sobre o tecnobrega.
Alguém precisa descobrir o que há na água consumida em Campo Grande. É impressionante a quantidade de novos talentos que a cidade tem apresentado aos amantes da boa música popular. Uns alegam a posição geográfica privilegiada que facilita turnês no Sul e Sudeste, outros apontam a influência do Grupo Tradição sobre a criançada e agora os adolescentes. Há ainda os que dizem que o mérito é do povo, que dá valor aos talentos locais.
DA antropofagia cultural brasileira nunca deu trégua. Dois grandes momentos costumam ser exaltados quando se discute o tem:a a Semana de Arte Moderna de 1922 e o Tropicalismo de 1968. No entanto, essa antropofagia é praticada o tempo todo, seja com os Aviões do Forró transformando "Umbrella" da Rihanna em "Se Não Valorizar" ou com o Tchê Garotos inserindo reggae na sua Vanera.
O eterno embate entre a cultura popular e a cultura de elite atinge no funk níveis dramáticos, escancarando a hipocrisia, a censura e, mais do que tudo, o preconceito. Bailes funk são proibidos sempre que possível, tanto que o acerto prévio para sua realização é feito na Secretaria de Segurança Pública, nunca na de Cultura.
Samba quadrado. É assim que os cariocas sempre definiram o samba tocado pelos paulistas. O destino, no entanto, devolveu a ironia da única forma que realmente importa: com a música. Enquanto o samba carioca continua sendo tocado da mesma forma que há duas décadas atrás, os paulistas o fizeram evoluir ao acrescentar novas influências, como o reggae e o axé, e criaram o que alguns chamam de "neopagode" ou "pagode universitário".
A música popular do sul do país enfrenta um grave problema de rotulagem. De um lado temos o sertanejo universitário, que alguns consagrados rejeitam e que os novatos abraçam.
O Zombie Walker é um evento em que, em vários locais do mundo, um bando de malucos defininem uma data e saem desfilando pelas ruas vestidos de zumbi. A música popular brasileira poderia fazer o mesmo: definir uma data em que seus mortos vivos pudessem desfilar suas declarações disparatadas. Dessa forma, conseguiriam um destaque maior na mídia. Raimundo Fagner e Alceu Valença, respectivamente, tiveram a genial idéia de falar mal de um dos ritmos mais contagiantes e genuinamente brasileiros, o axé.
Na edição do mês de maio da revista Rolling Stone, o crítico José Flávio Junior disse que o primeiro disco ao vivo de um artista sempre convida a uma reflexão de sua carreira, exceto, segundo ele, se for dos Inimigos da HP ou das duplas sertanejas que estreiam ao vivo. Essa afirmação é o maior exemplo da mentalidade tacanha e da cegueira de nossa crítica cultural. O que este nobre cidadão não sabe é que, em se tratando dos tempos atuais, o oposto é verdadeiro.