Às vezes pode ser bem chato a procura por nomes novos e relevantes no pop mundial. Com a quantidade assustadora de blogs e veículos digitais loucos para responder pelo próximo hype, é gente demais atrás de alguma coisa que se mexa e faça pose, desde que seja nova. E nesse meio tem gente inflando muita draga que não resiste a dois singles. Felizmente o trio norte-americano Gliss está fora da corrente da mediocridade hypada por motivos errados.
"Devotion Implosion" sai no próximo dia 7 de abril pela Cordless Recordings - mas já está há algumas semanas circulando pela web. O terceiro registro do Gliss revela a carteira de membro da gangue barulhenta de Raveonettes, Black Rebel Motorcycle Club, A Place to Bury Strangers, crias diretas de mestres do ruído guitarreiro, Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, todos devotos do Velvet Underground. Para quem os distorcedores são elementos fundamentais para a composição. Ou para quem apitos ensurdecedores de microfonia e o ronco de amplificadores no limite da combustão são suficientes para lotar uma van de equipamentos e cair na estrada.

É o que faz o rock valer a pena. E o trio formado por Martin Klingman, Victoria Cecilia e David Reiss parece saber bem disso. Eles arremessam a guitarra na nossa cara já em "Morning Light", a primeira do disco. Impossível não lembrar de "Chain Gang of Love", do Raveonettes. "Lovers in the Bathroom" lança mão do "menos é mais". Economiza nas guitarras mas ainda enfia ruídos entre versos e o refrão, deixando claro que a intenção do trio é maltratar ouvidos despreparados. "Sad Eyes" é o deboche barulhento do Gliss, que decide fazer menção rápida à New Wave festeira do B'52. "Love Songs" embrulha Mazzy Star e Portishead num pacote armado pelos fuzz e tremolos de William Reid.
Que bom que ainda há gente a fim de fazer sangrar guitarras e deixar marcas pelo talento, e não pelo topete desgrenhado ou pelo jeans rasgado nos fundilhos. Depois de dividir o palco com Raveonettes, Black Rebel Motorcycle Club e Smashing Pumpkins, a banda sai em excursão pelos Estados Unidos com ingressos valendo, em média, desejados US$ 5 (aprendam, promotores!). Se o mundo fosse justo ‘Devotion Implosion', ainda que levemente irregular, deveria levar o Gliss às capas das principais revistas de música do globo (e a uns dois ou três concertos pelo Brasil). Graças aos céus a internet tem também o poder de desfazer injustiças.
por Filipe Albuquerque, do disco eterno

