

O Blog da Soninha é o espaço onde a jornalista e ex-vereadora Soninha Francine mostra como política pode ser um assunto presente no cotidiano de todo mundo.
Como eu disse, adorava trabalhar na MTV e poder falar de temas que para mim sempre foram muito importantes - meio ambiente, cidadania. política, etc. Informações transmitidas pela TV chegam às pessoas de maneira mais impactante do que as recebidas em uma sala de aula (infelizmente é assim, fazer o que?). Quando eu dizia, em um programa, que São Paulo produzia 15 mil toneladas de resíduos por dia e que a gente ia acabar soterrado debaixo de tanto lixo, a galera prestava atenção e se interessava. Eu recebia muitos emails perguntando: "Nossa, tem razão, quero separar meus recicláveis. Como eu faço? Para onde eu mando?".
Ótimo o interesse e as perguntas. Naquela época, em que muito menos gente tinha computador com acesso à internet, cheguei a receber 80 mensagens em um dia com pedidos de informações sobre coleta seletiva.
Aí a satisfação virava frustração. Pesquisando, eu descobria que alguns lugares podiam contar com empresas de reciclagem. Outros, com cooperativas de catadores. Havia um site (ainda há - http://www.cempre.org.br) que ajudava a identificar maneiras de destinar cada tipo de material conforme o endereço do interessado. Mas em alguns lugares, não havia como!
Então não adiantava informar, despertar interesse e consciência sobre o sério problema da destinação de resíduos se as pessoas não tivessem o que fazer com seu papel, plástico, vidro e alumínio depois de usar e separar... Por mais que alguns tivessem boa vontade e outros já tivessem descobrido o valor econômico do "lixo", estava claro que precisava haver uma ação do Estado - para começar, das prefeituras.
O jeito, como sempre, era protestar, reivindicar, pressionar. Ótimo, eu podia fazer isso. Mas chegou uma hora em que cansei de ficar desse lado. Não me bastava mais fazer campanha, passeata, debate, abaixo assinado... Eu queria estar do lado que tem o poder de realmente interferir, decidir, fazer acontecer.
E foi assim que eu ressuscitei a ideia de entrar para a política.
(Continua no próximo capítulo).

Eu já contei muitas vezes em entrevistas qual foi a relação entre meu trabalho na MTV e a entrada na política pra valer, mas aqui mesmo eu acho que ainda não falei...
Sempre gostei de política; sempre fui militante - no colégio, na rua, na igreja. Pensei em ser política quando era adolescente, mas desisti (um dia explico por que). Em todo caso, não desiti de FAZER política na minha vida pessoal e profissional, e a MTV fazia parte disso.
No começo, eu era redatora de textos para os VJs. Quando um deles ia anunciar um clipe do Midnight Oil, por exemplo, eu aproveitava para escrever algo ligado ao meio ambiente (porque eles mesmos eram grandes militantes da causa). Depois eu mesma virei VJ e fazia sempre algum comentário sobre os temas que me interessam mais - política & cidadania etc. Era ótimo poder militar em defesa das minhas causas entre uma música e outra (e, mais tarde, no Barraco MTV, programa de debates que eu co-dirigi e depois apresentei).
Eu falava bastante sobre reciclagem - incentivada, aliás, por uma palestra que uma bióloga fez para os funcionários da MTV. São Paulo, já naquele época, produzia 15 mil toneladas de resíduos ("lixo") POR DIA. Era muito importante entender que, além do impacto ambiental de se obter matérias primas na natureza (árvores para fazer papel, minério para alumínio, petróleo para o plástico etc.) , enquanto muitos materiais são reaproveitáveis ou recicláveis, DESCARTAR tudo isso também era um problema seríssimo. Onde colocar tanta coisa?
Na palestra, ela mostrou slides (naquela época não existia Powerpoint...) com fotos de um jornal de 1950 e um pedaço de queijo petrificados. Eles tinham sido encontrados enterrados no lixão de Nova Iorque - tão "sufocados" pela matéria inorgânica que faltava oxigênio para o trabalho dos microorganismos encarregados da decomposição...
Fiquei super impressionada. Já estava acostumada a separar os recicláveis, mas fiquei ainda mais aflita, mais apressada. E passei a falar mais no assunto na TV.
Tá, e o que isso tem a ver com a minha entrada na política? Tudo. No próximo capítulo eu explico.

Tudo.
Roqueiros existem de tudo quanto é tipo: conservadores e progressistas, machistas e feministas, beligerantes e pacifistas, carnívoros e vegetarianos, capitalistas e comunistas, solidários e egoístas, engajados e alienados, religiosos e materialistas... Mas o rock, de maneira geral, com seu jeito contestador, agressivo, tem uma ligação muito forte com a política e questões sociais. Então, em respeito ao meu tema principal aqui (política) e em homenagem ao Dia do Rock (13/07), vou relembrar três músicas fortemente ligadas à defesa de alguma causa.
U2 - Sunday Bloody Sunday
A letra descreve o horror de um "Domingo Sangrento" em que tropas britânicas dispararam contra manifestantes civis na Irlanda do Norte - vários morreram no confronto. (A wikipedia - que eu adoro - tem um verbete especialmente para essa música: http://en.wikipedia.org/wiki/Sunday_Bloody_Sunday_(song))
Midnight Oil - Beds Are Burning
A banda australiana sempre foi militante das causas ambientais; o vocalista, Peter Garret, disputou uma vaga no Senado australiano anos atrás e agora é Ministro do Meio Ambiente, Patrimônio e Artes. No começo dos anos 90 eles já cantavam: "How do we sleep while our beds are burning?" ("Como dormimos enquanto nossas camas estão queimando?"). Mais sobre eles em http://www.midnightoil.com/ e www.petergarrett.com.au/
Clash - London Calling
O Clash também não fez uma ou duas músicas mas sim uma carreira de protestos. "London Calling" era faixa título de um álbum e foi influenciada pelo acidente nuclear na usina Three Mile Island, na Pensilvania. A letra discute ainda problemas como o aumento no desemprego, conflitos raciais e uso de drogas na Grã-Bretanha. Outra faixa, "Spanish Bombs", fala da Guerra Civil Espanhola. Mais sobre o álbum? http://en.wikipedia.org/wiki/London_Calling
Três é muito pouco, né? Depois eu relembro mais algumas (e vocês podem mandar também suas sugestões). E sugiro a leitura de uma página muito interessante da Wikipedia dedicada exclusivamente a canções de protesto: http://en.wikipedia.org/wiki/Protest_song.
Ler, ouvir, refletir, se informar, se engajar e se divertir - quem disse que não dá pra fazer isso tudo ao mesmo tempo?

Menina, como o tempo voa! Parece que foi ontem que eu escrevi que ia mandar um post novo "amanhã"!
Nesta semana, dei uma canseira em duas alunas de jornalismo de Taubaté. Elas combinaram de vir até a Subprefeitura Lapa (onde eu trabalho) gravar uma entrevista sobre "jovens e política". Chegariam às 11:00 e sairiam às 11:30, porque ao meio-dia eu precisaria estar na Câmara Municipal para participar da reunião da Comissão de Orçamento e Finanças. Mas elas se perderam e se prenderam no trânsito e chegaram aqui às 11:40 - resultado, me pegaram subindo na moto.
O pessoal daqui conversou com elas ("preferem esperar ela voltar ou encontrá-la na própria Câmara?") e acabaram indo atrás da mim.
A reunião de Finanças terminaria às 13:00, mas - adivinhe - acabou sendo prorrogada e terminou às 13:30. Finalmente reencontrei as meninas e gravamos a entrevista.
Disse a elas o que já declarei mil vezes: que acho uma bobagem essa história de que "o jovem de antigamente era mais engajado; o jovem de hoje é mais apático". "Antigamente" havia jovens "apáticos" e hoje há milhões de jovens engajados em diversas causas, militando de inúmeras maneiras. Em saraus literários na periferia ou no Fórum Mundial; em Conselhos de Juventude ou grupos de rap; em blogs ou Pastorais.
O problema é que jovens e adultos - e há muitos "alienados" entre estes últimos - não encaram a política como espaço e ferramenta para exercitar seu engajamento, seu inconformismo, seu idealismo. E a política ainda é o "lugar" com mais poder de transformar o mundo. Se ocupada por picaretas, pode causar muito dano; se exercida por pessoas inteligentes, sensatas, apaixonadas e justas, pode trazer imenso benefício.
Como atrair, então, para a vida política (a política institucional, partidária ou não), os idealistas?
Em primeiríssimo lugar, com uma conduta atraente... Deixando de transformar a política em um jogo de tabuleiro, em que o mais importante é conquistar território, usando qualquer método, leal ou desleal, para derrotar o adversário. Deixando de dividir o mundo toscamente em "bons" (os meus aliados) e "maus" (meus adversários ou oponentes); de mudar o discurso conforme o lado para onde sopra o vento. De prometer o impossível. De esquecer o bem coletivo e jogar no "quanto pior melhor", ou "pirão pouco, primeiro o meu".
Em segundo lugar, traduzindo a política para as pessoas. Não adianta querer que elas se interessem por um mundo hermético, misterioso, com rituais chatos e incompreensíveis e linguajar estéril. Não custa muito falar português...
Terceiro, criando formas de aproximação e participação. Pela internet, em conselhos gestores, conselhos temáticos, audiências públicas. Derrubando o abismo - que é imaginário - entre as "pessoas comuns" e os "políticos".
Mas quantas vezes os abismos imaginários são os mais difíceis de destruir?
No próximo post, eu conto a história da parede do gabinete. Deu o maior trabalho para derrubar, e não é porque era muito sólida!
É por isso que eu sempre digo:
A gente tem mais liberdade e poder do que usa.

Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
(Fernando Pessoa)
Algumas raras, raríssimas vezes na minha vida, eu tenho o prazer de não cumprir um dever. Durmo até mais tarde, dou cano na terapia (justo na terapia!). Depois me sinto culpada...
Adoro o ócio, o lazer. Deitar na rede, deitar no chão, ler qualquer bobagem. Andar à toa, zapear, assistir programa ruim (por pouco tempo, que não tenho muita paciência). Ler, escrever, desenhar, jogar Sudoku e paciência Spider. Brincar com o gato e o cachorro. Montar quebracabeças de mil peças. Tirar fotos, ver fotos, organizar fotos. Esvaziar ereorganizar gavetas, pelo prazer de rever toda a bagunça mais do que de acabar com ela. Ouvir música olhando pro teto.
Gostar de não fazer “nada” prova para mim mesma que não sou workaholic. Não, não sou viciada em trabalho, gosto de não trabalhar.
Mas prazer em não cumprir um dever, dificilmente eu tenho...
E por isso ando aflita, doida, desesperada porque faz um mês que eu disse “semana que vem eu volto” (ao Blog da MTV) e só estou voltando HOJE!!!!!!!!
Tem umas três pessoas desesperadas do meu lado há dias: “Escreveu pra MTV? Escreveu pra MTV?”. Só aumentando minha aflição.
Pronto, escrevi. Ufa. Daqui a um tempo – quem sabe amanhã mesmo?? – eu volto.
