Café Gelado é o blog do Nenê Altro, vocalista do Dance of Days, no Portal MTV. Aqui será o diário on-line de uma das figuras mais imporantes e polêmicas do hardcore nacional.
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“Eu podia dizer um monte de coisas bonitas,
que rimem bem
e que mesmo que não façam sentido pudessem vender.
É, eu podia ser só um cara bonzinho
e bem arrumado,
com as roupas limpas e que fique bem em sua parede.
Mas sou só alguém como você,
que gosta de falar e abraçar os amigos.
E me vale bem mais saber
que tudo isso aqui tem valor pra você
e que eu também fui fã igual
quando pegava meus LPs
e colocava na vitrola pra me sentir em casa.
Era só eu, meu 7 Seconds
e sempre no final eu não me sentia só
e me sentia bem.
Eu não tenho emprego
e sou coberto de tatuagens.
Eu passo o dia vivendo às margens.
SOU PEÇA COM DEFEITO.
Pois não consigo ser
esse mocinho bem comportado.
Eu encho a cara, arrumo encrenca
e faço tudo errado.
E mesmo não sendo o que você apresentaria a seus pais,
eu queria dizer
que gostaria de te levar naquela rua onde cresci,
onde eu andava de bike
e onde dei o meu primeiro beijo.
E dizer que passei a vida inteira tentando mostrar
que o que não dá pra colocar em palavras
é toda a vida de um garoto e uma guitarra
que ainda não sabe tocar.”
Dance of Days - “O Melhor Dançarino de São Paulo”
http://tramavirtual.uol.com.br/mp3PlayerW.jsp?id_musica=237020

Sempre fui uma pessoa difícil. Bem difícil, aliás. Acho que todas minhas relações mais próximas com amigos tem prazo de validade determinado. Principalmente com os que não me amam. Os amigos que só “gostam um pouquinho” acabam sempre cansando e indo embora rapidinho da minha vida... Ninguém agüenta muito. Já até meio que me acostumei com isso.
Eu vivi 36 anos no limite. Nunca fui de meio termo. Genioso, impulsivo, sempre preferi fazer o que tive vontade do que me arrepender de não ter feito. Então, nada diferente a se esperar olhando no espelho do que dezenas de cicatrizes no corpo e na alma por brigas inúteis, noitadas extremas, shows intensos cheios de sangue de verdade (não tipo essas bandas “do mal” que compram sangue de mentira na Porto Geral) no palco.
Hoje estou numa fase mais calma. Mas nem por isso me sinto estável. Eu estou, mas sei que não sou. Ontem meu editor veio aqui em casa pegar uns documentos e ficamos jogando conversa fora por um tempo. Falamos sobre todas as fases que ele acompanhou de minha vida, demos umas risadas... Ele, inclusive, escreveu um prefácio pra essa nova edição de meu livro. Acho que não deve bater muito bem também...
Enfim, o Felipe (meu editor) me contou que uma vez um dos amigos dele, sócio de um dos selos que lança as bandas do meio independente para o mainstream, que estava interessado naquela época pós-Valsa no Dance of Days, me viu em um desses coquetéis (aos quais não sou mais chamado faz um bom tempo hahaha) bêbado, causando horrores, e desistiu de assinar com a banda. Achou que eu ia ser “muito difícil” de se lidar. E ia mesmo.
Comentei com ele que foi um entre tantos outros. É meu amigo inclusive (não tenho ressentimentos). Mas houve um certo momento crucial em minha vida em que eu tive que olhar pra tudo que tinha vivido e pensar. E realmente, pensei, e decidi que não trocaria minha sensação de plenitude de hoje por nada nesse mundo. Nem por me ver livre das dificuldades que por vezes o circuito independente oferece.
Vivi uma vida intensa. E ainda vivo. Que se foda. Desde minha fase de militância política anarquista, até na época 90´s do hardcore São Paulo Personal Choice, sempre fui o extremo do extremo. As vezes fui um cu de pessoa, mas sempre fiz o que achava que tinha que fazer. E não seria diferente agora que estou mais vivido...
Estou com o Dance of Days faz uns 13 anos, e fazemos o que gostamos de fazer: música hardcore punk, e temos o privilégio de VIVER desse trabalho, de forma independente, NUM PAÍS COMO O NOSSO que mais nega oportunidades aos artistas do que estende as mãos pra incentivar qualquer forma de cultura. Mas sempre gravei meus próprios discos, fiz shows inesquecíveis, nunca esperei nada dos outros.

Então nunca fui de fazer média. Se algum produtor ou gravadora quisesse fazer alguma parceria com a gente teria que, principalmente, me aceitar da maneira que sou. Nunca fui arrogante, trato todo mundo que vem falar comigo ou que vem oferecer alguma proposta de trabalho, bem, mas sempre deixei isso claro. E aceitar também a banda e essa postura que me deixa (e deixa todos os outros da banda também) confortável, de liberdade artística, de espírito Dischord Records. E é claro que isso nunca aconteceu. Isso não vende discos. Ninguém quer investir uma grana num projeto ao qual não teria controle. Nem eu faria isso. E eu entendo. Mas também agradeço.
Agradeço pois faço música pra acalmar MEU espírito. Sempre foi esse o prisma. Sou uma alma atormentada que precisa extravasar de tempos em tempos. Faço música pra ME agradar acima de qualquer coisa e não pra satisfazer nem mesmo aos fãs da banda. Nunca vou fazer isso. Se alguns não gostam dos discos e músicas novas eu quero é que se foda. Eu gosto e é o que me importa. É a minha vida e não vivo pelos outros. E se não sou capaz de fazer isso por quem gosta de mim, por quem gosta de meu trabalho, imagine por um contrato. Com certeza não conseguiria colocar o que sinto pra fora e enlouqueceria.
Não sou milionário, mas vivo bem e tenho uma sensação de riqueza em shows como o de Sábado passado no Outs que é impossível de descrever. Tenho a liberdade de descer do palco e conversar com os fãs da banda, de tomar umas cervejas com a galera. E, acima de tudo, tenho consciência de que seria mesmo um problema se tivesse que me adaptar. Não me visto bem, não me preocupo com minha imagem, não meço as palavras... Velho demais... Difícil demais... Bom, vocês sabem.
Mas estou em paz com meu espírito, pois sou o que sou e sei que sou mesmo assim. Muita gente fala que vive um rock´n´roll isso, que é alcoólatra aquilo e eu nunca vi bêbado na balada. Nunca. E olha que EU VOU MESMO pra balada. Não estou dizendo que isso (beber) seja algum tipo de mérito, e não é, mas digo que nunca vi. Muita gente fala também que briga pra caralho, faz cara de mau aqui e ali mas eu pelo menos também nunca vi (e também não acho brigar mérito de nada). Nem nunca ouvi falar.
Tudo é marketing. Detesto brigar, odeio violência (inclusive já fazem anos que tenho autocontrole), detesto dar vexame quando exagero, mas eu não preciso de assessoria de imprensa pra fazer pose de mau, de beberrão, pra adaptar minha imagem aos clichês batidíssimos do rock´n´roll. Quem me conhece sabe. E quem não conhece sabe também.
Ainda bebo. Ainda amo uma putaria. Ainda sou uma pessoa impulsiva. Mas, voltando ao Felipe, meu editor, comentei com ele que desde o incidente de Belo Horizonte alguns anos atrás eu meio que dei um basta e tentei me controlar. Porque me fez mal, não curti nem um pouco e sei admitir isso. E que me controlar mais fez muito bem pra mim, mas que nem por isso havia me tornado uma pessoa de espírito diferente.
E ele me respondeu que, na opinião dele, eu tive culhão pra viver o rock da maneira que muitos conhecidos dele acham legal nas histórias do “Mate-me Por Favor” mas não tem coragem de arriscar a estabilidade na vida, de beijar o céu, a sarjeta e seguir adiante... E que é por isso que vai continuar a lançar meus livros e distribuir meus discos. Entrei em casa, abri uma cervejinha, escrevi até umas três da manhã...
Essa é minha vida. Sempre fui uma pessoa difícil. Bem difícil, aliás. E quando eu digo pra todo mundo que VALE A PENA o povo acha que é tipo...

Bom, pra quem acha que é mentira (sempre tem um né, faz parte): felipe@idealshop.com.br (email do meu editor hahaha)
Pra quem quer encomendar meu livro, AINDA ESSA SEMANA já estará disponível: contato@idealshop.com.br (email da Editora)
Pra quem quer assistir a nossos shows vejam a agenda: http://www.fotolog.com/danceofdays
E pra quem quer tomar uma breja e jogar conversa fora conheçam a minha balada: http://www.fotolog.com/b_letrika
Peça com defeito.
Força Sempre!
Nenê Altro




















