

Coluna é um programa diário de 15 minutos da MTV. É uma discotecagem comentada.

Hoje é dia de Coluna MTV australiano. Radio Birdman & The Saints, certamente duas bases do dna do rock australiano (putz, que péssimo isso, mas vai ficar assim mesmo). Duas historinhas a respeito dos chefes destas bandas não couberam no programa, então as relato em seguida. Chris Bailey, do Saints, filosofou numa entrevista há alguns anos:
Chris - “Creio que a maioria dos compositores têm cerca de 4 músicas em si, seja o Bruce Springsteen ou qualquer outro... bem, acho que os Beatles tinham umas poucas mais. Quero dizer que você tende a escrever dentro de suas limitações – é necessário tentar extrapolar isso, mas a verdade é que você sempre retorna às suas mesmas obsessões.”
Deniz Tek, do Radio Birdman, respondeu à pergunta ‘Você já escutou os discos tributo ao Radio Birdman, gosta de alguma cover especialmente?’ assim:
Deniz - “Já escutei uma cover do Hellacopters, gostei da guitarra, a bateria não entendi... os discos tributo estão na minha estante, mas não escutei não, apenas uma ou outra faixa. Francamente, não tô nem aí pra estes discos tributo, prefiro escutar alguma coisa nova.”
‘Algumas palavras encorajadoras aos jovens?’
Deniz – “Trabalhe duro no que quer que seja que você goste de fazer, nada que valha a pena vem fácil. E pare de reclamar.”
É por aí, por aí... O programa vai ao ar hoje à 00h e daqui a pouco estará aqui no site para os mais afoitos (corre, Mars!). Abraço!

Blecaute na cidade de São Paulo, ninguém pôde ver o Flaming Lips que já está disponível aqui no site. Quando assistirem, prestem atenção no clipe “I Can Be a Frog”, ele me resumiu um pouco a mencionada filosofia (ver no programa) da “espada psicodélica”, na infinita possibilidade de tudo sermos, se do ponto de vista do cosmos, quase nada somos (palavras já muito ditas, não sei quem começou com isso).
O Flaming Lips me causou um fenômeno simples e perturbador com este último álbum, “Embryonic”. Quando vi e ouvi “I Can Be A Frog” pela primeira vez gostei muito. Na segunda vez continuei gostando, mas começava um estranhamento. Na terceira vez testemunhei alguém que via o clipe e o parodiava, a brincadeira também ficou legal e enxerguei o clipe de uma forma mais crítica.
No entanto, eu percebi que uma das belezas da espada psicodélica é justamente ela ser carregada de sinceridade, e isso às vezes soa como “Inocência”, ou seja, uma ingenuidade calculada que não cabe mais em gente experiente, isso pode causar uma reação de ironia dependendo do momento que você assiste ao clipe. É preciso no mínimo desapego a própria imagem para empunhar a espada psicodélica.
Quando editei este programa, me lembrei de uma pequena fábula sobre a origem do tigre, que me foi contada por uma pessoa no centro de São Paulo. Segundo ele, seu nome era “Waikuntah”, ele até me escreveu seu nome num papel, pois não entendia o que ele pronunciava. Como eu o encontrei? Bom, eu literalmente tropecei nas coisas de sua tenda mágica e acabei causando um pequeno estrago num dos objetos que ele vendia. Eu fiquei extremamente constrangido com a situação e comprei o objeto quebrado. Como brinde, ele me mostrou como eu era mais um escravo do sistema através de uma fábula. Ele narrou para mim a história da origem do Tigre; abaixo transcreverei o que me lembro dela:
“Quando o Tigre apareceu na Terra, ele era um grande gato dourado que a todos encantava. Todos os seres queriam possuí-lo, mas tudo o que o felino queria era sua liberdade. Ele abria mão da beleza do seu couro dourado quando as redes o aprisionavam.
Sua força transformava as grades e as redes em água, apesar das profundas marcas deixadas no seu corpo. Com o tempo, de dourado ele se tornou listrado, e muitos o chamavam de “o gato do ouro tirado”. Não demorou muito para reduzirem o nome para “gato tigrado” e com o passar dos anos, ele ficou conhecido como “Tigre”.
Me lembrei do sujeito e dessa pequena fábula contada por ele com muita certeza; ele ainda emendou com as histórias da origem do macaco e da onça, mas estas ficam para outro post, caso exista uma curiosidade coletiva por tanta sinceridade.
OBS FUNDAMENTAL 1: Na primeira frase, eu preservei o jeito mestre Yoda de contar, pois foi assim mesmo que ele me contou a fábula.
OBS FUNDAMENTAL 2: Talvez no clipe “I Can Be A Frog” e na “Mentalidade da Espada Psicodélica” exista uma ideia de liberdade que o tal tigre nunca pudesse imaginar, porém ficou claro que ambos se desapegaram da própria imagem para gozarem dessa ideia.
OBS FUNDAMENTAL 3: 18 anos depois de lembrar o nome “Waikuntah”, resolvi
colocá-lo na internet, o resultado fez sentido com aquele sujeito.
No último sábado rolaram dois festivais. Alguns preferiram o Maquinária. Eu optei pelo Planeta Terra. Por quê?
Porque na programação havia - além do Sonic Youth e Primal Scream - Iggy & The Stooges. E com a presença de James Williamson!
Iggy Pop passou pelo país não faz muito tempo. Foi em 2005, num outro festival, e com Ron Asheton na guitarra. Ron gravou as guitarras dos dois primeiros discos dos Stooges: The Stooges (1969) e Fun House (1970). Perdi esse show devido a uma prova. Dessa vez eu não só fui ao show como estive no palco quando Iggy provocou seu já obrigatório tumulto generalizado.
Cheguei o mais perto que pude da grade, um caos desde o começo do show. No repertório, várias músicas do disco Raw Power (1973), único disco dos Stooges com James Williamson na guitarra. Foi com esse disco que descobri Iggy Pop e, a partir daí, muitas outras coisas.

No meio do show, Iggy convidou ‘alguns caras’ para subir ao palco. Eu não estava tão próximo, mas com o apoio do pessoal e alguns machucados, consegui cair lá dentro.
Caí e driblei os seguranças, por ainda não ter certeza se era bem vindo. Subi ao palco e a partir daí tudo foi muito rápido. Me aproximei do iguana por um tempo até um segurança me empurrar; encontrei amigos e juntos comemoramos aquele momento histórico (pelo menos para nós): ficamos ao lado de Iggy Pop, com James Williamson na guitarra, enquanto eles tocavam Shake Appeal - outra música do Raw Power!
Aquela grande festa com pelo menos uma centena de pessoas pulando e louvando a banda durou uma música. Quando acabou, todos começaram a aplaudir; alguns saíram do palco; outros ficaram por ali só por ficar, e outros tentavam chegar perto de Iggy.
Eu ainda não havia escolhido entre descer do palco ou ficar por ali mais alguns minutos, até perceber que nenhum dos dois seguranças de Iggy conseguia me ver, já que estavam ocupados demais com aqueles que estavam mais perto.
Em poucos segundos, desviei de um segurança e dei um abraço em Iggy, que não pareceu incomodado e ficou me olhando. Eu não consegui dizer nada. Apenas fiquei ali abraçado com o cara durante alguns segundos, até ser cuidadosamente retirado pelo segurança, como é possível ver aos 4 minutos de vídeo:
Se não fosse Iggy Pop e seu Raw Power eu não gostaria das mesmas coisas. Provavelmente não vestiria as mesmas roupas e não estaria trabalhando com música. Para mim, foi um abraço para agradecer por tudo. Talvez ele tenha percebido; talvez não. Prefiro pensar que ele entende todos os fãs que invadem seu palco a cada show, para sentir de perto a força da música criada pelos Stooges.
Para conferir Iggy Pop aqui no Coluna MTV, veja o Coluna MTV 015, com seu primeiro disco solo, (o sensacional) The Idiot (1977); e também o Coluna MTV 061, esse com seu disco mais recente, Préliminaires (2009).
Abraços.
Mars.
O Coluna MTV de hoje mostra duas diferentes formas de canalizar a raiva e a fúria na música. ‘Killer’, do Alice Cooper, foi lançado em 1971 e tornou a banda realmente popular. Desde então, o impacto do disco está presente em qualquer banda de Rock que pinte a cara ou use sangue falso em shows. Além da influencia sonora, claro. O outro ‘disco do dia’ é ‘Metal Box’, do PiL. Lançado em 1979, ‘Metal Box’ impressionava tanto pela embalagem – 3 discos em uma lata de aço - quanto pela sonoridade. Também é conhecido por ser a primeira e uma das únicas coisas que Lester Bangs salvou de sua casa em chamas. Ou apenas mais uma equação do Coluna MTV: Can + Dub. “É brincadeira?”.
O PiL se reuniu este ano e fará shows na Inglaterra, em dezembro. Aproveitando os holofotes para falar um pouco mais sobre... ele mesmo, John Lydon deu uma entrevista ao jornal britânico The Guardian para falar sobre ‘A Trilha Sonora de Sua Vida’ e não poupou palavras:
“Eu sempre quis trazer de volta o que fizemos com o PiL, mas eu estava preso a outras coisas. Os Sex Pistols estavam de volta à estrada e sem ressentimentos: aqueles caras eram meus parceiros (...). Mas ouvindo esse disco absolutamente brilhante, em particular a música ‘Halleluhwah’, que dura um lado inteiro, me lembrou o que nós estávamos tentando fazer com o PiL. O Can tem sua própria sonoridade e o PiL também. O único jeito de catalogar esse disco é em ordem alfabética”.
OBS FUNDAMENTAL: O disco em questão é o Tago Mago, de 1971.

'Halleluhwah'!
OBS FUNDAMENTAL 2: A música que mexeu com Joãozinho é esta:
Muito mais histórias contendo raiva, penas de galinha e influencias diretas e indiretas você vê hoje à meia-noite ou clicando aqui.
Até mais.
Mars
Chegamos ao Coluna MTV nº 100. “É brincadeira?”. Resolvemos comemorar com os 40 anos do disco Hot Rats, lançado em outubro de 1969. O programa estará disponível aqui em breve (corre, Mars!) e vai ao ar hoje à 00h.
O perpetrador do Hot Rats nos legou muito em muitas e variadas áreas que, em comum, só têm um possível rótulo: Entretenimento Inteligente.
Frank Zappa também criava muita ficção textual. Fica aqui o que ele colocou na boca de uma visão que apareceu para a personagem Maria, na música (ou cena, no caso) Packard Goose, do 3º ato do disco Joe’s Garage, em 1979:
Informação não é Conhecimento;
Conhecimento não é Sabedoria;
Sabedoria não é Verdade;
Verdade não é Beleza;
Beleza não é Amor;
Amor não é Música;
Música é O MELHOR.
Não é mesmo? Abraço!

