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Eu não vivi, mas resgatei muita coisa da cena punk hardcore dos anos 90. Acredito que boa parte do que ouvimos hoje veio de lá, logo, me sinto na obrigação de conhecer os 90 para entender os 2000.
Algumas semanas atrás, quando ouvi falar sobre este projeto de Marcelo Fonseca, agora mestrando da PUC-SP, não esperava que uma entrevista com ele pudesse me ensinar tanto sobre a segunda e agora a terceira geração do que costumamos chamar de cena. Há alguns meses ele começou a gravar o material de seu mestrado (que tem início nas próximas semanas) e o documentário Hardcore 90 - Uma História Oral é parte do projeto.
A entrevista está realmente longa (e vai além do trabalho dele), mas é muito interessante ver alguém olhando a nossa cena de fora sem simplesmente dizer que tudo é uma porcaria. Segue aí:
O documentário fala sobre o que você coloca como a "segunda geração" da cena punk. Onde exatamente ela começa? Ainda estamos nessa segunda geração, ou já nasceu uma nova?
O conceito de geração é bem arbitrário para mim. Se pensarmos que em 79 existia toda uma movimentação baseada no surgimento do punk no Brasil, e chegarmos a 89, é um período de 10 anos. No correr dessa década, o punk foi absorvido socialmente, reinterpretado, retorcido. Numa perspectiva histórica é tempo o suficiente para acontecer muita coisa, ainda mais para uma movimentação de cultura urbana juvenil. O punk hardcore enquanto um centro de movimentação jovem não permaneceu na mesma classe social de seus pioneiros. Eu preferi denominar por "segunda geração" por perceber que o próprio punk tinha mudado no período que abordo (a década de 90).
Onde o emo entra nessa história? Você o considera uma vertente do punk?
Eu entendo emo como uma abreviação de emotional hardcore, que tem sua história ligada à cena punk hardcore de Washington DC na segunda metade dos anos 80. É também chamada de Revolution Summer. Eu aceito também que uma porção de bandas, sobretudo americanas, por fazer um tipo de som característico, adotou (ou tentou negar) esse rótulo no correr dos anos 90. No meu projeto, vamos falar sobre o tema de forma bem sucinta.
Lembro de ter ouvido falar nisso por volta de 96, quando comecei a ir aos shows straight edge. O Personal Choice (banda que o Nenê cantava) tinha novas músicas nessa época, com uma estrutura mais melódica. As letras do Nenê sempre foram pessoais, mas se mantinham políticas nesse momento.
O que vejo que é denominado emo nos anos 2000 pra cá é mais um estilo musical com referenciais bizarros (meio horror punk Misfits, meio indie rock pós grunge, vez por outra com toques death metal e moshcore), com temática meio auto-ajuda, meio auto-piedade, que não dialoga com o estilo descendente do punk que falei há pouco. São bandas que mesmo se não façam parte de um cast de uma gravadora grande, desejam inserir-se no mercado.
Nada contra elas, só penso o seguinte: qual a barreira que separa o punk hardcore do rock independente? A meu ver, um quer inserir-se, o outro não. No fim das contas, essa questão é parte de um dilema que perdura há tempos e agora se atualiza. Quem é punk? O Fugazi? O Black Flag? O Simple Plan? O Green Day? O Invasores de Cérebro ou o Gloria? Até que ponto você pode dizer tudo o que quer, estando na indústria? Isso é, se as bandas querem realmente falar algo.
Fábio Nenê Altro (Personal Choice, Dance of Days...):
Leonardo Kobbaz (Street Bulldogs):
Como andam as gravações das entrevistas?
A idéia a princípio é fazer cerca de 90 entrevistas. Até agora tenho 31. Ainda temos muitos vídeos da época para digitalizar, fotografias, cartazes, fanzines. Pretendo escrever um livro, e de alguma forma disponibilizar o material levantado a outros pesquisadores que se interessem pelo tema. Estamos em momento de produção algumas coisas podem mudar, então prefiro falar com certeza mais ao fim do projeto.
Acabei de assistir o vídeo do Mamá, que fala sobre homossexualismo na cena, o que é um assunto difícil de ser tratado...
Não acho que seja tão difícil assim. A pessoa pode não concordar, mas ela tem que convir que o debate é tanto sobre a questão, que já faz um tempo que temos bandas compostas por lésbicas ou gays, que são atuantes e fazem isso não ser um "assunto difícil". Isso não deve ser um assunto tabu, pois o que o punk hardcore se propõe é quebrar os dogmas e preconceitos da sociedade, não reproduzi-los.
Que outros temas estão sendo colocados em pauta?
Muitas questões do punk continuam atuais, pois alguns problemas do mundo permanecem ou pioraram. Meu objetivo é resgatar as experiências dessas pessoas. Alguns assuntos como anarquismo, vegetarianismo, ativismo, questões de gênero e raciais, produção cultural e política percorrem todas as entrevistas.
O documentário é parte do seu mestrado na PUC-SP. Tem previsão para conclusão?
O documentário surgiu do projeto de mestrado. Eu ia gravar as entrevistas, pois minha área é História e uso a História Oral como metodologia. Vendo que poderia aproveitar esses depoimentos que ia gravar em vídeo, a idéia do documentário surgiu de imediato. Hoje já estou matriculado e começo minhas aulas em algumas semanas, mas quando tudo isso foi pensado eu nem estava participando da seleção da Universidade.
Para o mestrado eu tenho o mínimo de dois anos para defender minha dissertação. Minha idéia é que o documentário fique pronto em 2011, já que este ano tem muita documentação a ser levantada, material a ser trabalhado e entrevistas a serem feitas.









