

Fomos ao Parque da Cantareira fazer vídeos para promover o VMB 2009. Os vídeos trazem para este blog temporário.
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Os Tainos na hora do cumprimento apertavam com firmeza não a mão mas o antebraço do amigo logo antes do cotovelo e diziam "taino", querendo dizer paz. Aí os espanhóis chegaram e os Tainos os receberam civilizadamente, levantaram e apontaram os indicadores para o sul e disseram "cuidado com os Caribs, são canibais", o que não era mentira. Os espanhóis então apontaram suas armas para o sul mas não falaram nada da varíola, e no fim morreram quase todos, Caribs e Tainos. No meio tempo africanos eram comercializados legalmente, como se fossem mercadoria e não gente, e forçados a trabalhar. Jamaica ou Xamayca, na língua dos Tainos, quer dizer lugar grande com água, ou lugar com muita água e madeira
Nos anos 70 um cumprimento semelhante ao dos Tainos podia ser visto numa rua do Bronx. E mais a frente, um sistema de som, ou aparato de festa. Kool Herc se muda para os EUA inteirado das possibilidades de um sistema de som, jamaicano que é. Escolhe tocar e conhece Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, e os três juntos germinam mais um salto evolutivo na música continental americana. Uma festa na rua cheia de gente, uma festa na rua cheia de irmãos e irmãs dançando e ouvindo um som que não te lembra o tempo todo se esse é o começo o meio ou o fim do som parecia boa demais, e a batida ainda por cima quebrada, boa demais, alguém tinha que plugar um microfone e lembrar todo mundo como é boa demais essa festa, não deixar ninguém esquecer como é boa demais essa festa, e convocar uns gritos e rimar, mesmo porque até ontem a gente sentava atrás no ônibus (a tradição que impunha a separação de pessoas de acordo com a cor de suas peles fora felizmente subvertida na década anterior). Então nasce o rapper, elogiando aquela própria festa naquele próprio quarteirão. Longe da Jamaica, mas parecido. E pra falar do nascimento do rap é isso.
Pra falar do desenvolvimento do rap é mixer, é decadência da música disco, é Trans Europe Express, é sampler, é gravadoras&lucros, é o rap sobrevivendo e se espalhando como alternativa a poetas de toda sorte de periferia. Nelson George ajuda e relaciona o rap feito até certo ponto em seu país a outros aspectos da cultura no livro Hip Hop America.
Neste que será o mais catártico e proveitoso VMB da história, cinco artistas brasileiros disputam um aval na categoria rap. São eles: EMICIDA, Kamau, MV Bill, Relatos da Invasão e RZO. A votação já acabou para esta categoria, mas seguimos recomendando a audição e a pesquisa do rap brasileiro, cada vez mais variado. O blog Radar Urbando ajudou e fez um pequeno perfil e entrevistou cada um dos cinco.
"Ele pega a canção e a destronca, dá independência quase total para a melodia e para o acompanhamento", disse um professor sobre a técnica de performance do músico e inventor baiano João Gilberto, que trabalhou e conquistou domínio rítmico e harmônico em violão e uma voz que pede pouca amplificação para ser distinguida.
Se a novidade que propôs João Gilberto inspirou outros músicos, por exemplo Rosa Passos, a novidade que propôs Bach inspirou outros tantos, por exemplo Mozart e Beethoven. O sistema de 24 tons estava descrito apenas em post-its rústicos, o que é um modo de dizer que o sistema de 24 tons vivia só no plano teórico. Até fora encarado aqui e ali por musicantes sem rigor, mas nunca obsessivamente e nunca de frente por uma composição calidoscópica ao gosto do mestre de Leipzieg, que em 1722 ainda nem estava lá.
Então Bach pegou os 24 tons, olhou bem para cada um e imaginou suas cores e realizou um dos trabalhos mais importantes da música, O cravo bem temperado.
Se já existisse rádio no meio do século XVIII, a música de Bach não tocaria. Se tocasse, não seria hit. O senso comum exigia um barroquismo puramente barroco, sem contraponto e sem notas esquisitas. Se O cravo bem teperado não tivesse colado (querendo dizer ganhado respeito), e só colou graças à chatice de Carl, um dos 20 filhos de Bach, e Agricola, um dos inúmeros alunos de Bach, pois se não tivesse colado hoje talvez nem conseguíssemos ouvir a canção Desafinado. Ou porque acharíamos Desafinado boba, chata e feia com nossos ouvidos pouco afeitos a modulações e cromatismos ou, pior e mais provável, porque Desafinado talvez nem existisse, uma vez que Villa-Lobos praticava Bach e Tom Jobim praticava Villa-Lobos. Mas Desafinado felizmente existe e se for o caso pode ser ouvida em qualidade boa aqui.
Neste que será o mais canônico e producente VMB da história, Cérebro Eletrônico, Céu, Curumin, Fernanda Takai e Tiê disputam um aval na categoria MPB. Você já escolheu alguém para dar seu voto?
Assim que a bateria de shows no Teatro España em Buenos Aires acabou, parte d'Os Batutas escolheu não arredar pé da cidade. O Rio de Janeiro que espere!, alguém teria dito segundos antes de uma pequena confusão eclodir na calçada. Entre os distraídos estava Pixinguinha, flautista e líder da banda. "Foi como uma linha imaginária traçada no chão", um deles poderia dizer hoje ao lembrar-se daquele dia. Parte retornou ao Rio e parte seguiu flanando na capital portenha, mas aqui a documentação escassa. É dito dos que ficaram que eles só puderam voltar ao país sabe-se lá quanto doce-de-leite depois e com uma ajuda amiga do consulado. O que aprontaram os desertores? Não importa ou importa muito pouco se comparado ao nome novo escolhido pelo grupo depois de sua reunião: Bi-Orquestra Os Batutas.
Bi-Orquestra Os Batutas.
"A razão do estranho título", esclarece o historiador Jairo Severiano, "era o ecletismo a que se propunha a orquestra." Os rapazes agora queriam misturar grupo de choro com banda de jazz "para executar qualquer tipo de sucesso, nacional ou estrangeiro." Mas o rádio e a gravação eletromagnética vinham com tudo e com eles a Odeon e o Getúlio que fomentou atos de venda de espaço publicitário nas emissoras e a grana ficou alta e o cenário muito sério e menos interessado em experimentar qualquer coisa que não ajudasse a maximizar a receita, naturalmente, de modo que a Bi-Orquestra Os Batutas durou pouco. Aproveitamos a história para imaginar o que imaginou Pixinguinha não quando fez Carinhoso em 1919, mas quando tentou dizer jazz e choro na mesma frase.
Já que o assunto é ritmo.
Será que ele imaginou que sua mera sugestão faria gente embarcar em comparações difíceis no meio da janta e dizer coisas como "o que falta de russo e sobra de afro no jazz falta de afro e sobra de russo no chorinho", "choro é mais firme enquanto jazz é mais mole" ou ainda "prefiro choro [jazz] porque choro [jazz] é mais Brasil [EUA] (sic) [(sic)]", frases que podemos passar melhor sem por serem frases fracas em uma discussão que tenta comparar choro a jazz, se bem que a segunda nem é assim tão fraca, e porque quando você ouve cada frase o resultado não é nem jazz nem choro, ou seja, não é nem jazz nem choro o que você está ouvindo, daí a dificuldade?
Fica a dúvida. Mas provavelmente não.
Neste que será o mais generoso e abrangente VMB da história, pelo menos duas categorias, melhor baixista e melhor baterista, tratam do papel de marcação que há num grupo musical, ainda que tudo possa ser usado para marcar, até a voz (o que nos lembra de uma outra discussão, a que tentava decidir se a guitarra está para o rock assim como o piano está para o jazz e o cavaco para o choro e enquanto não vinha o consenso decidiu-se vetar o uso do cavaco no rock e não o da guitarra no jazz e muito menos o do sax no choro, veto partilhado pelos dois lados da discussão mas descrito como aflitivo por um terceiro lado, terceiro lado este que também decretou a discussão finda e sem vencedores).
E a seguir, um cravo.
Um jeito bom de começar é com a interpretação de Henry Cowell, que toma som e ritmo como elementos primários no estudo da música. Som é o todo audível e nele distinguimos tom de ruído, sendo ruído um som produzido por vibrações aperiódicas e tom um som produzido por vibrações periódicas. No tom distinguimos harmonia de melodia, mas agora elas descansam sobre um feltro vinho, edredom creme ou qualquer outra superfície macia à mão enquanto a gente mira no ruído, o incompreendido ruído, o ruído com sua péssima reputação, ruído que já foi comparado a uma bactéria.
A bactéria nos dá a infecção e o queijo. Adicionada ao leite da vaca, a bactéria Lactobacilus bulgaricus confere ao gorgonzola algumas das qualidades que o fizeram reconhecível e admirável e útil para nós humanos. O gorgonzola não estava previsto num plano superior e não estava "lá fora" como a verdade do Arquivo X e sua complexidade e sua textura e seu sabor devem muito ao dito micróbio, dizem na escola e nas ruas. O mesmo poderia ser dito da música em relação ao ruído? O ruído dá um gostinho à música? Praticamente não se fala disso na escola e nas ruas.
Cowell sugere que o ruído desenvolveu-se menos que os parceiros tonais porque foi pouco discutido e pouco praticado, e a negligência teria ajudado a moldar a música vendida até os anos 30 do século passado, pelo menos (o ensaio Joys of Noise é de 1929). A mesma música que Cowell lamentava, a mesma música que Cowell queria ajudar a mudar, a mesma música que Cowell considerava, e essa parece ser só uma de suas razões, afastada demais das músicas primitivas, muito anteriores à invenção da palavra música e, acredita-se, mais ruidosas.
Aí consideramos a voz macia de qualquer um dos indicados neste que será o mais potente e multifacetado VMB da história, vamos ver, Rogério Flausino. Não. Rodrigo Amarante. Consideramos a voz macia de Rodrigo Amarante:
O tempo que perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei
Corte esse trecho da música original Evaporar do trio Little Joy que disputa um aval de revelação e outro aval de melhor show neste que será o mais rigoroso e singular VMB da história e cole-o num software de edição ou reprodução de áudio e aumente o volume. Ouça o mesmo trecho repetidas vezes cada vez mais alto. E mais alto, e mais alto, e mais alto. Do experimento fica provada outra aparente tese de Cowell, a de que haverá mais ruído e menos tom em cada uma das audições de Evaporar, ou ainda, que o ruído será maior quanto mais alto o som, não importa qual.
Além de lutar para tirar o ruído da condição de doença e trazê-lo para o vocabulário da composição musical, Cowell foi professor de George Gershwin e de John Cage, dois outros batutas da música americana. E isso nos faz pensar em Pixinguinha para o próximo post.
