

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Outro dia fiz essa pergunta no Notícias MTV. Recebi algumas respostas meio indignadas, como se eu tivesse xingado alguém. Recebi respostas bastante sem foco, embora bem intencionadas ("quero ser presidente").
Minha intenção com o comentário era conhecer ações legais, em que vocês - é, vocês mesmos - identificam problemas que incomodam vocês e agem sobre eles pra tentar minorá-los. Fiquei meio desanimado com a falta de respostas, até que recebi esta notícia da Folha Online, que reproduzo:
Vinte casas em três dias. Durante o último feriado e fim de semana, 270 voluntários construíram casas em Guarulhos e Suzano. O trabalho é organizado pela ONG "Um Teto para meu País". A verba de R$ 39 mil para realizar as obras foi arrecadada em 50 esquinas de São Paulo por 400 voluntários em agosto.
O projeto nasceu em 1997 no Chile, onde mais de 30 mil casas já foram construídas por mais de 150 mil voluntários. Até 2010, a meta chilena é de zerar o número de favelas. A instituição foi fundada no Brasil em 2006 e, desde então, mais de 200 casas já foram entregues.
As casas são chamadas emergenciais, pois não têm saneamento básico ou eletricidade. Segundo a diretora comercial da ONG, Fernanda Lima e Silva, a ideia é, em outro momento, conseguir melhorar as casas com a ajuda do governo e de empresas.
Tem vídeo também, olha só:
Agora que se desfez o mal-entendido (espero), repito a pergunta: e VOCÊ, o que está fazendo?
O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad está hoje em Brasília para assinar uma série de acordos bilaterais com o presidente Lula. Tem uma galera protestando. Segunda passada, dois mil teriam protestado em São Paulo. Neste final de semana, mais dois mil no Rio. Talvez hoje role protesto em Brasília. Colaborei numa reportagem de hoje do Los Angeles Times a respeito.
Ahmadinejad é polêmico e curte a coisa: nega o massacre dos judeus na Segunda Guerra - embora acrescente um "fora da Europa" - , dizendo que o Holocausto foi "um pretexto para criar Israel" (cuja existência ele não reconhece como legítima); afirma que não há homossexuais no Irã, indignando os homossexuais; e diz estar desenvolvendo tecnologia nuclear para fins pacíficos ao mesmo tempo em que faz testes de mísseis.
E o sujeito ganhou a eleição de uma forma que foi contestada e gerou uma intensa reação dos tuiteiros iranianos, furando a censura oficial. Censura pesada: ainda hoje, entrou no ar uma matéria da Newsweek em que um repórter da revista conta como foi viver mais de quatro meses numa prisão iraniana.
Há 31 anos, o Irã era um país bastante moderno em termos de costumes. Mas, em 1979, veio a Revolução Islâmica e os radicais tomaram o poder, transformando o país numa teocracia - ou seja, um regime onde religião e política se misturam. Oponentes passaram a ser oprimidos, liberdade de expressão zero, rock passou a ser coisa do diabo e tudo mais. Só em 2007 um cantor ocidental, e mesmo assim mela-cueca, pôde se apresentar lá. Desde então, o país foi isolado economicamente - mas nem tanto, por ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

De uma hora para outra, as mulheres passaram a ser obrigadas a sair na rua só de véu. O Aiatolá Khomeini, líder da revolução, tornou-se uma das figuras emblemáticas dos anos 80 - tanto que, na saga da Morte do Robin, em 1988, aparecia dando um cargo de embaixador ao... Coringa (que, vejam só, ficou assustado ao vê-lo).
De qualquer forma, acho interessante a vinda dele ao Brasil. Posso não gostar das ações do governo dele, mas acho interessante o que o governo está fazendo ao receber todos os líderes do Oriente Médio para conversar sobre paz. Dia 11 veio o Shimon Peres, de Israel. Dia 20, veio o Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina. Hoje, vem o Ahmadinejad. Pode não dar em nada, e certamente não ajuda muito o fato de o Lula se recusar a criticar pontos polêmicos do governo dos colegas. Mas é interessante que tenha alguém fazendo o meio-de-campo - vale ler as declarações do presidente a respeito.
E você, o que acha da vinda dele? Protestou? Vai protestar? Acha que ele é um cara bacana? Conte aqui nos comentários.
LEITURAS DE DOMINGO
O Irã, e de resto o Oriente Médio em geral, tem uma cultura bastante diferente da nossa. Por isso, se você quer tentar entender melhor o que rola por lá, seguem abaixo as leituras de domingo com atraso de um dia.
Por Debaixo dos Panos - Reportagem do Pedro Doria, na Trip, sobre a revolução sexual subterrânea no Irã
Uma história dos povos árabes - Um livro fundamental para entender um pouco os rolos da região
Persépolis - história em quadrinhos que virou filme, mostrando o que aconteceu no Irã logo após a Revolução Islâmica que levou os radicais ao poder
Morte em Família - o gibi em que o Coringa vira embaixador do Irã depois de matar o estagiário do Batman. Preview aqui.
Morreu nesta madrugada o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. Tinha câncer no intestino e uma pilha de processos judiciais - incluindo os da famosa Operação Satiagraha, onde ele foi preso de pijama acusado de corrupção passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa.
Pitta foi o único político brasileiro que eu conheça a ter repatriada grana desviada e lavada no exterior: um milhão de dólares, desviados da construção da avenida Águas Espraiadas.
Secretário de finanças da administração do Paulo Maluf, foi eleito em 1996 como sucessor do hoje deputado federal. Na campanha eleitoral do Pitta, Maluf dizia: "Se Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim". Só que aí ele não foi exatamente um bom prefeito. Em 2000, ano eleitoral, calhou de ele se separar da mulher, Nicéa. Trocou-a por uma loira. E, como é da natureza, amor pode ser passageiro mas ex-mulher é pra sempre. Foi aí que o Pitta começou a dançar.
Em janeiro de 2000, eu participava do programa de treinamento da Folha de S.Paulo quando minha mestra Ana Estela me colocou em dupla com o repórter Chico de Gois para cobrir uma coletiva do Pitta. Não renderia muita coisa, exceto uma frase que marcaria os últimos momentos de sua gestão. No dia anterior, o presidente Fernando Henrique Cardoso havia dito que gostaria de ter sido ator. Questionado sobre o que gostaria de ser, Pitta respondeu:
"Tenho paixão pelas artes e gostaria de ser bailarino. Não seria um Barishnikov, mas daria meus pulinhos."

Charges com Pitta vestido como bailarina passaram a pipocar nos jornais sempre que ele "dançava" politicamente - e começou a dançar muito. A primeira pista que eu tive foi ainda no carro de reportagem, quando o Chico de Gois contou que seu sonho seria entrevistar a Nicéa Pitta. Largada pelo marido, ela poderia querer abrir a boca.
Terminado o programa de treinamento, eu fui contratado pelo caderno Brasil da Folha, para cobrir política. Foi quando eu comecei nessa coisa toda. Era o dia 10 de março de 2000, nunca esqueço. Era uma sexta. Apareci no jornal pra conversar sobre os detalhes e fui mandado pra casa - no caso, para o hotel onde eu estava ficando até arrumar onde morar.
Chegando lá, liguei a televisão e anunciaram o tema do Globo Repórter: Nicéa Pitta conta tudo. Durante uma hora, Nicéa contava detalhes de como seu ex-marido recebia propinas e que tipo de pressões políticas havia. O Memória Globo descreve assim a entrevista:
Nicéia Pitta contou que o prefeito tinha comprado o voto dos vereadores para encerrar a CPI da Câmara que apurava a máfia dos fiscais, disse que Pitta sabia da emissão ilegal dos títulos públicos e revelou novos nomes envolvidos no escândalo dos precatórios. Na entrevista, também surgiram denúncias contra personalidades de grande influência na política nacional. A ex-mulher do prefeito paulista contou que o senador Gilberto Miranda era o intermediário na cobrança de uma dívida do município de São Paulo com a empreiteira OAS, que pertencia ao genro do senador Antônio Carlos Magalhães. A entrevista para o repórter Chico Pinheiro foi ao ar no dia 10 de março.
- No final do programa, o apresentador Sergio Chapelin leu uma nota divulgada por Antônio Carlos Magalhães na qual o então senador afirmava jamais ter telefonado para Celso Pitta e sua mulher ou para Gilberto Miranda. ACM desafiou os assessores do prefeito a provarem o contrário.
- Um dos resultados da denúncia de Nicéa Pitta foi a reabertura da CPI no Senado Federal. Outros esquemas de corrupção na administração do município de São Paulo também foram revelados, como a compra de remédios superfaturados pela Secretaria Municipal de Saúde.
Nos meus primeiros meses cobrindo política, participei bastante da cobertura do caso Pitta, como apoio dentro da redação aos repórteres que estavam na rua. O rolo todo levou a seu impeachment, por 18 dias, quando ele foi substituído pelo vice Régis de Oliveira, hoje deputado federal. Na época, inclusive, os dois estavam brigados.
Maluf, espertíssimo, desembarcou de sua cria - voltando atrás do "se Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim". Ao repórter Fernando Rodrigues, no auge das denúncias, Maluf disse a frase: "Se eu sujei, deixa eu limpar". Outro que também desembarcou de Pitta foi o atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab - secretário de Planejamento de Pitta, que elaborou o Plano Diretor da cidade na época. Maluf e Kassab mandaram pêsames à família, mas sem tocar na velha amizade.
Ao final do mandato, Pitta era réu em 13 processos. Com sua morte, não há mais a quem punir quando os casos forem julgados. Seu advogado culpa os processos por agravarem seu estado de saúde. Vejam só.
O impeachment do Pitta foi o começo do fim do malufismo. Você pode dizer que Maluf ainda foi o deputado federal mais bem votado em 2006. Mas ele só resolveu se candidatar a deputado federal porque sabia não ter mais votos para ser prefeito. Nas eleições de 2000 até foi para o segundo turno, mas perdeu. Em 2004, nem ao segundo turno chegou. Como deputado federal, ainda tem a garantia de im(p)unidade parlamentar, com foro privilegiado e tudo mais. Com a idade que tem, também reduz o prazo para os processos contra ele caducarem.
Quando eu trabalhava na Transparência Brasil, um dia a Nicéa Pitta ligou dando uma boa notícia: o Ministério Público havia conseguido repatriar US$ 1 milhão desviado das obras da Águas Espraiadas. Tudo por conta de uma denúncia dela. A conta estaria em seu nome, e o banco ligou de Nova York para ela ir sacar. Ela passou direto a dica para o MP.
Enquanto isso, Maluf segue dizendo que "não tem nem nunca teve contas no exterior".
Foi aprovada hoje na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados um projeto de lei que obriga os pedestres a fazer sinal com a mão pra atravessar em ruas que não tenham sinal de trânsito e guardas de trânsito. A proposta, que segundo o Congresso em Foco ainda precisa ser analisada no Senado, diz o seguinte:
“Para cruzar a pista de rolamento, o pedestre tomará precauções de segurança, fazendo gesto com o braço, quando necessário, para solicitar a parada dos veículos, levando em conta a visibilidade, a distância e a velocidade dos mesmos, utilizando sempre as faixas ou passagens a ele destinadas”
Ou seja: está literalmente na mão do pedestre, que pesa em média 70 quilos de carne e osso, a responsabilidade por não ser atropelado pelo motorista, que dirige um veículo pesando uma tonelada de lata e plástico. Não devia ser o contrário?
Tente atravessar a rua em São Paulo, mesmo com o sinal fechado para os carros. Váris motoristas fazem todo tipo de barbeiragem pra continuar passando. Muitas vezes, na frente dos guardinhas de trânsito. Muitas vezes, até param no sinal vermelho - mas em cima da faixa destinada aos pedestres. Fazem isso porque sabem que sairão impunes.
Porto Alegre, salvo engano, foi a primeira cidade a obrigar o pedestre a levantar a mão pra parar o trânsito. Eles até inventaram um sinal de papelão, com uma mão gigante. Eu acho isso uma besteira incrível - e o blog Memento resume bem por quê.
Nunca canso de lembrar de quando eu estive na Suécia. Lá, o sinal podia estar aberto e tudo mais, mas se um pedestre está no meio-fio o motorista FICA CONSTRANGIDO se ele não atravessa esperando que o carro passe. Duvido que haja lei que obrigue o pedestre a dar sinal pra passar. Os ufanistas que me desculpem, mas país civilizado é outra coisa.
A prioridade é outra - baseada especialmente no reconhecimento da noção de que o pedestre tem que ter prioridade por ser a parte mais fraca (e, aliás, menos rápida). Aliás, o Código de Trânsito, de 1997, prevê exatamente isso. Mas acho que essa parte não é cobrada nas auto-escolas e testes de direção - eu não sei se é ou não, porque nunca fiz questão de aprender a dirigir. Ou isso ou o problema da venda de cartas de motorista é mais grave do que parece.
(Ou não. É meio óbvio que o pedestre é a parte mais fraca e deve ter prioridade. Há tempos eu defendo que todo vestibular, teste de direção, concurso público e entrevista de emprego devia incluir um teste de noção. O lado ruim disso é que reprovariam muito mais.)
Fazer lei obrigando pedestre a dar sinal pra exercer seu sagrado direito de atravessar a rua é um negócio meio inócuo se não punir direito os motoristas que passam por cima, seja da faixa de pedestres, seja da educação ou seja do próprio pedestre. É fácil dizer "respeite o pedestre", assim como era fácil dizer "se for dirigir, não beba". Mas precisou da lei seca pra criar um pouco mais de obediência a essa lógica.
O maior problema de criar qualquer restrição aos motoristas é de uma só ordem: todo motorista tem idade pra votar. Pedestre ou é criança, ou é velho, ou é pobre, ou é algum tipo esquisito de maluco que não vê motivo pra comprar carro. Portanto, ou não vota ou são votos de segunda classe.
E você, o que pensa a respeito?

"Não creio que o papel principal de um jornalista livre numa sociedade livre seja expor a sujeira. Isso é apenas parte do trabalho, suponho. O verdadeiro problema é fornecer uma compreensão maior das complexidades em que seu país, seu povo e sua época estão envolvidos. Nosso trabalho é traduzir essas questões, estudá-las. O trabalho principal não é desgraçar ninguém, nem difamar ninguém, e sim fornecer compreensão."
O trecho acima é de I.F.Stone, polêmico jornalista americano que teria completado seu centenário em dezembro de 2007. Sou fascinado pelo trabalho dele há mais de dez anos, desde que li um artigo sobre sua metodologia de reportagem, mergulhando em documentos oficiais para achar as lacunas que as aspas tentam encobrir. Stone, relia, lia mais e mais vezes os documentos e encontrava, nas sutilezas, contradições e silêncios, o que os governos estavam tentando esconder.
Para ele, ávido leitor de Kropotkin na juventude, "todos os governos mentem, e o desastre está à espera daqueles que fumam o mesmo haxixe que vendem". Ou seja: dificilmente um governo trabalha com a mesma informação que divulga. Cada vez mais, a informação divulgada é antes maquiada e arrumadinha pra ficar palatável e gerar o mínimo de controvérsia possível e evitar que o governo sofra críticas. Jornalistas que se prezam, como Stone se prezava, não compram peixe podre assim tão fácil.
Seu centenário foi comemorado com um evento na New York University. A Fundação Nieman criou um prêmio a jornalistas independentes homenageando o velho mestre. E a família pôs no ar um site com informações sobre a vida e carreira de Stone - e alguns exemplares do I.F.Stone's Weekly, o jornal que ele editou independentemente em Washington durante vários anos - mantendo-se praticamente só com a boa receita das assinaturas.
Stone era uma figuraça. Foi um cara que apoiou causas erradas e depois teve a macheza de mostrar os erros - com apuração própria.Já aposentado, usou o mesmo método para reconstruir o Julgamento de Sócrates. Ele aprendeu grego arcaico para ler no original os poucos textos que restam falando do assunto em primeira mão. Neles, achou os mesmos tipos de lacunas que achava a respeito das justificativas para os EUA irem à guerra do Vietnã. Já é um projeto de aposentadoria, não?
(Não deixe de ler esta genial auto-entrevista em que ele descreve o método de pesquisa utilizado para o livro.)
O site feito pela família não é tão completo quanto o feito em homenagem ao colunista brasileiro Carlos Castello Branco, mas está bem bom. Todas as edições do seu semanário estão online. Destaco dois exemplares do I.F.Stone's Weekly ali disponíveis: a última edição, de 1971, onde Stone faz um balanço de sua carreira, e uma de 1968 em que ele usa sua poderosa metodologia para chegar à seguinte conclusão sobre o episódio do Golfo de Tonkin: "só sabemos que fomos nós que atiramos primeiro".
Grande batalhador da liberdade de expressão, ele resumia assim suas idéias a respeito: "Acredito que nenhuma sociedade pode ser boa e saudável sem liberdade de dissenso e de independência criativa". Assino embaixo.
Quer conhecer mais do I.F.Stone? Então vá atrás dos livros abaixo:
"O Julgamento de Sócrates", do próprio
"The Best of I.F.Stone", coletânea de artigos dele
"All Governments Lie", de Myra McPherson (o primeiro capítulo saiu no New York Times)
