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evocecomisso

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.

Os talebans da Uniban e a tensão entre a saia curta e a orelha comprida

07/11/2009 - 19:33 | 260 visitas

Pois a Uniban expulsou a hoje famosa Geisy Arruda, que causou alvoroço na faculdade por ir de vestido curto pra aula. Segundo anúncio publicado pela universidade hoje, a culpa pelo tumulto foi da aluna, por ir à aula em trajes inadequados e fazer um percurso maior do que o habitual. Os próceres da academia sentenciam que a aluna feriu a ética, a moralidade e a dignidade acadêmica.

Eu continuo achando que, se a universidade institucionalmente considera que a roupa era inadequada, tinha jeitos menos selvagens de informar isso à estudante. Quando ela entrou, a batata-quente do ridículo estava na mão dela. Quando ela saiu, estava na mão de centenas de alunos e no colo da faculdade, muito mais quente e muito maior. E, sinceramente, também continuo achando que entre adultos o que se veste é problema de cada um. O blog do Marcos Guterman resume bem: a culpa acabou sendo da vítima.

Mas não era exatamente da loira da Uniban que eu queria falar. Queria falar de educação, num sentido mais amplo. Acho que o caso comprova, mais do que nunca, um ponto importante e que volta e meia volta à discussão de maneira rasa: a diferença abissal que existe entre educação e canudo.

Nesta semana, o presidente Lula entrou no foco desse debate. Começou com o Caetano Veloso botando lenha na fogueira ao elogiar por contraste a ex-ministra e futura presidenciável Marina Silva com um "ela não é analfabeta como Lula". É um tipo de argumento que sempre aparece e no qual eu nunca toco porque eu acho de uma imbecilidade colossal. Verdade que o Lula teve tempo suficiente pra fazer supletivos e até uma faculdade, mas não fez - a Marina Silva fez, o Vicentinho fez. Só que nem por isso ele é "burro" - pelo contrário, é esperto o suficiente pra saber quando dizer que não sabia de nada. Ele e seu governo têm problemas mais sérios do que isso.

O presidente tem respostas muito boas pra esse tipo de crítica. Está acostumado, enfim, após tantos anos de vida pública. Em discurso no congresso nacional do PC do B, Lula falou uma grande verdade em serviço próprio:

"Tem gente que pensa que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento, aperfeiçoamento. Inteligência é outra coisa."

De uma maneira mais comprida, ele basicamente explicou a frase antológica do mestre Barão de Itararé: "canudo não encurta orelha".

Já tive longas discussões com minha avó sobre isso. Mulher sábia, do alto de seus 90 anos, ela insiste em se dizer "burra" porque só estudou até a terceira série. Porém, alguns insights que saem de sua cabeça, a partir do que viu e viveu, são mais profundos do que a maior parte da produção intelectual de ciências humanas do Brasil, ou pelo menos na área da comunicação. (Antes que venham com pedras: sim, eu tenho o hábito de ler trabalhos acadêmicos. Geralmente acho que sou masoquista.)

Outro debate interessante em que essa confusão se fez notar recentemente foi no rolo da obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Eu, pessoalmente, acho que estudar jornalismo é muito útil para um futuro jornalista. Mas acho que a obrigatoriedade era um prêmio para as faculdades ruins. Prêmio que elas aproveitaram bem, no boom de faculdades de esquina que surgiu a partir dos anos 90. Lucraram muito com isso. Durante quatro anos, ensinavam qualquer coisa basicamente para justificar as mensalidades. Ao final, entregavam um canudo que valia tanto quanto o de uma faculdade boa - afinal, era isso o que importava - e o aluno que se virasse pra aprender tudo no mercado de trabalho. Ou para achar outra profissão, sei lá.

Muita gente bem-intencionada critica a decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade do diploma. Acham que isso "desvaloriza" a profissão. Eu acho que não. Acho que isso tira o prêmio das faculdades ruins. As boas estão seguras. As médias vão ter que melhorar pra sobreviver, e isso é ótimo. A finalidade de estudar jornalismo não é ter acesso a um pedaço de papel, e sim a um conjunto de conhecimentos. Ainda nesta semana, meu mestre Plínio Bortolotti, do jornal O Povo, publicou em seu blog a informação de que, após a decisão do STF, o Ministério do Trabalho não está mais fazendo registro profissional de jornalistas. Também acho ótimo: acho que obrigar jornalistas a pedir licença para exercer sua profissão é resquício ditatorial. Quando precisava pedir, estávamos acompanhados de atores, sociólogos e flanelinhas. Agora, que não precisa mais pedir, estamos na companhia de engenheiros, advogados e médicos. Se não tinha critério, melhor não ter. (Que desobriguem também os atores e sociólogos!)

Mas esse pessoal bem-intencionado gosta da segurança que o papel dá. O canudo, o carimbo, a marca d'água, as assinaturas de três testemunhas, as diferentes destinações de vias de cores diferentes, a firma autenticada em cartório, a obrigatoriedade de apresentar certidão de nascimento junto da carteira de identidade indo pessoalmente ao local.

Isso está na base da cultura brasileira, cartorial e bacharelesca. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que morreu nesta semana, foi um dos fundadores da Universidade de São Paulo. Em seu clássico "Tristes Trópicos", porém, Lévi-Strauss fez observações ácidas sobre os hábitos intelectuais dos estudantes brasileiros:

"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer campo que fosse, só a teoria mais recente parecia merecer-lhes a atenção. Fartos de todos os festins intelectuais do passado, que aliás só conheciam por ouvir dizer, já que não liam as obras originais, conservavam um entusiasmo sempre disponível pelos pratos novos. No caso deles, conviria falar mais de moda que de gastronomia: idéias e doutrinas não ofereciam, em seu entender, um interesse intrínseco, consideravam-nas como instrumentos de prestígio cujas primícias deviam conseguir. Partilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a usar um vestido já visto; expunham-se a um vexame. Em compensação, praticavam uma concorrência ferrenha à custa de muitas revistas de vulgarização, periódicos sensacionalistas e compêndios, para conseguir a exclusividade do modelo mais recente no campo das idéias. (...) No entanto, a erudição, da qual não tinham o gosto nem o método, parecia-lhes (...) um dever; de modo que suas dissertações consistiam, qualquer que fosse o tema, numa evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides, para terminar, por meio de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo enfadonho cuja obra tinha tanto mais valor na medida em que, por sua própria obscuridade, era bem possível que nenhum outro tivesse a idéia de pilhá-la." (evoé, @mrguavaman)

Isso era bem antes dos tempos atuais. Ele viveu no Brasil entre 1935 e 1939. Em 1936, o brasileiro Sérgio Buarque de Hollanda escrevia, em "Raízes do Brasil":

"A dignidade e importância que confere o título de doutor permitem ao indivíduo atravessar a existência com discreta compostura e, em alguns casos, podem libertá-lo da necessidade de uma caça incessante aos bens materiais, que subjuga e humilha a personalidade. Se nos dias atuais o nosso ambiente social já não permite que essa situação privilegiada se mantenha cabalmente e se o prestígio do bacharel é sobretudo uma reminiscência de condições de vida material que já não se reproduzem de modo pleno, o certo é que a maioria, entre nós, ainda parece pensar nesse particular pouco diversamente dos nossos avós. O que importa salientar aqui é que a origem da sedução exercida pelas carreiras liberais vincula-se estreitamente ao nosso apego quase exclusivo aos valores da personalidade. Daí, também, o fato de essa sedução sobreviver em um ambitente de vida material que já a comporta dificilmente. Não é outro, aliás, o motivo da ânsia pelos meios de vida definitivos, que dão segurança e estabilidade, exigindo, ao mesmo tempo, um mínimo de esforço pessoal, de aplicação e sujeição da personalidade, como sucede tão frequentermente com certos empregos públicos".

E o que é que o caso da Uniban tem a ver com isso?

Bom, pra mim pareceu mais ou menos claro que aquelas centenas de alunos não estavam lá para estudar. Se todo mundo podia sair da sala de aula pra chamar uma colega de puta, é porque isso era mais importante do que estudar. Se a faculdade acha que é mais importante expulsar a aluna saliente do que tomar medidas contra os alunos talibãs que mataram aula pra linchar moralmente a aluna saliente, é porque a faculdade não apenas sabe desse vezo como também o apoia - ao menos nesse caso, em que atribuiu a culpa do tumulto de centenas alunos a uma aluna só.

E como não apoiaria? É mais negócio perder uma mensalidade ou 700? O canudo está garantido lá no final. E, afinal, é ele que importa. Com o canudo na mão, ninguém vai chamá-los de burros como chamamos o presidente, não é?

Como eu falei no comentário da TV, mais dia menos dia esses caras estarão nas empresas e na política. Com seu senso de moral peculiar reforçado, porque até a faculdade lhes deu razão no caso, e toda a empáfia da cultura bacharelesca brasileira.

O problema do Brasil nunca foi a saia curta. É a orelha comprida.

por Marcelo Soares // 07/11/2009 - 19:33

Quando os políticos são mais iguais que os cidadãos (e não estão nem aí pra eles)

05/11/2009 - 13:59 | 328 visitas

Ontem, começou no Supremo Tribunal Federal a audiência pra definir se vai ser aberta ação penal contra o senador tucano Eduardo Azeredo por causa do Valerioduto Mineiro. O esquema, operado pelo publicitário Marcos Valério, careca de conhecer os meandros da política mineira, deu origem ao famoso Mensalão, que abalou o final do primeiro governo Lula. Ninguém contou essa história melhor do que meu mestre Lucas Figueiredo, no livro "O Operador - como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT".

Também ontem, outro senador tucano, o rondonense Expedito Júnior, ganhou mais uma semana de mandato depois de o mesmo Supremo Tribunal Federal ter determinado seu afastamento. Veja só: o Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato do senador em JUNHO deste ano, por compra de votos e abuso do poder econômico. Em 28 de outubro, o Supremo Tribunal Federal - última instância de recurso - determinou que não tinha salvação: o senador tinha que se afastar. Mais uma vez fazendo de conta que não sabe e não viu, o Senado resolveu manter o senador por mais um tempinho pra ele poder se defender. Ué, mas ele não se defendeu até a última instância?

E, também ontem, só que em Fortaleza, 375 delegados da Polícia Federal se reuniram para discutir as causas da impunidade de autoridades no Brasil. No Valor Econômico, delegados apresentaram dois números fortes:

"Menos de 5% dos processos criminais no STF e no Superior Tribunal de Justiça são julgados. Com isso, não tivemos qualquer condenação de autoridades desde 1988", disse o presidente da ADPF, delegado Sandro Torres Avelar. Para ele, o Brasil vive, hoje, sob o estigma da impunidade relativa. "A impunidade é relativa a ter ou não como contratar bons advogados. Ela é relativa ao acusado ter ou não foro privilegiado."

O delegado Wilson Damázio, diretor do Sistema Penitenciário Federal, responsável por todos os presídios do país, contou que, hoje, existem 470 mil pessoas presas. Mas, não há nenhum preso entre aqueles que possuem foro privilegiado.

Ou seja: nenhum político está preso. Torço pra que a situação mude, mas sei que dificilmente mudará tão fácil. Até porque são os políticos que fazem as leis, e eles nunca, jamais, em momento algum, legislarão CONTRA causa própria. Aliás, viram que foi inocentado um deputado da farra das passagens?

 

ENQUANTO ISSO, NA TERRA PARALELA ONDE A GENTE VIVE...

Aqui embaixo, as leis são diferentes. Recebi hoje um e-mail indignado de uma mulher que admiro muito. "Tia" Maristela Bairros é uma jornalista experiente lá de Porto Alegre, ativa no Twitter (@maristelabairro) e que muita força me deu lá no começo da carreira.

Aposentada após anos de excelentes serviços prestados ao jornalismo, usou os serviços de um despachante para encaminhar a burocracia.  É uma papelada difícil de um cidadão encaminhar sozinho, neste país de cultura cartorial e burocrática. Jovial como poucos, Maristela nunca se preocupou em se informar sobre aposentadoria antes da hora de encaminhar. Mea culpa: eu também não faço a mínima idéia.

Pois acontece que o despachante era picareta. Inventou períodos de trabalho que a Maristela não teve, e ainda por cima teria embolsado R$ 9 mil que constavam de sua conta do Fundo de Garantia por tempo de serviço.

Pois em maio não caiu o dinheiro na conta. Bate na porta do INSS, nada de explicação. A Maristela precisou contratar um advogado pra descobrir que o Ministério da Previdência cancelou a sua aposentadoria alegando fraude. Sendo que a fraude era do despachante, conforme ela descobriu muito depois, só com a ajuda do advogado.

Ela quer devolver o dinheiro que recebeu indevidamente por conta da picaretagem do despachante. O problema é que, com a aposentadoria cancelada, ela não está recebendo nada, nem o que deve receber. E não tem jeito de conseguir ser ouvida pelo Ministério da Previdência. No caso dela, a cassação (da aposentadoria) veio antes da ampla defesa - diferente do que acontece com o senador Expedito, por exemplo.

Nessas horas, sempre ajuda ter uma mãozinha de um representante eleito. Não é um favor, não é uma vantagem que ela quer. É uma chance de ser ouvida. No ano passado, tive problemas burocráticos que atrasaram a concessão de visto para os EUA. Tinha sido convidado para dar uma palestra lá. Eu queria saber o que houve. O pessoal de Harvard, que me convidou, entrou em contato com seu deputado, que entrou em contato com o Departamento de Estado e obteve uma resposta. Demorou dois dias.

Pois a Maristela entrou em contato com tudo o que foi parlamentar gaúcho, por e-mail, telefone e twitter. Maristela foi filiada ao PMDB durante anos, convidada que foi pelo hoje senador Pedro Simon. Fez campanha para o Ibsen Pinheiro. Nenhum dos dois lhe atendeu. Só um petebista, o senador Sérgio Zambiasi (que provavelmente a conhece por ter sido radialista em Porto Alegre), procurou encaminhar o pedido ao Ministério da Previdência.

Ora, o lado dos nossos CARÍSSIMOS representantes está garantido. Eles podem fraudar e valeriodutar e comprar votos à vontade, contando com a certeza da impunidade. Já aqui embaixo, o cidadão que é enganado na tentativa de encaminhar legalmente as coisas não tem nem direito a receber informações precisas, nem direito a ser ouvido por seus representantes.

 

QUE TUDO SE EXPLODA

Meu amigo André Forastieri, em seu blog, lembra que hoje é o Dia de Guy Fawkes, o conspirador inglês que há 404 anos colocou 800 kg de pólvora no porão da Abadia de Westminister, na abertura do Parlamento. A idéia era explodir todos os parlamentares e a Família Real. Não deu certo, mas inspirou Alan Moore a escrever o seu V de Vingança, que mais tarde virou filme.

Quer comemorar o dia de Guy Fawkes em grande estilo? Então, que tal explodir o Congresso Nacional com a bomba que inaugurou a era atômica em Hiroshima, a "Little Boy"?

Calma: não é literal. Você pode usar o site Ground Zero, pesquisar o alvo no Google Maps (eles têm uma janelinha), selecionar a bomba e observar os efeitos. Se não ficar satisfeito, pode usar uma bomba mais forte, ou até um asteróide.

por Marcelo Soares // 05/11/2009 - 13:59

Os talebans da Uniban, os pitboys da Augusta, os Patetas dos pampas e outras notas sobre liberdade de expressão

30/10/2009 - 16:29 | 551 visitas

Um Eric Clapton aí só pra acertar o tom: "Before you accuse me, take a look at yourself".

Acho que o caso da loira da Uniban vale uma boa oportunidade pra gente conversar sobre democracia e liberdade de expressão. Sem muita teoria, só casos concretos. Pensem neles e pensem no que fariam, em como reagiriam no lugar de quem leva e de quem observa. Duas idéias fundamentais: 1) não existe democracia sem liberdade de expressão; 2) liberdade de expressão é a liberdade de os outros expressarem coisas com as quais você não concorda.

Em janeiro de 2001, era véspera do meu aniversário e eu estava de carona com alguns amigos, indo para uma balada. Descendo a Augusta, um trânsito absurdo fez o carro ficar parado um bom tempo. Na esquina, havia um par de travestis. Uma moto parou ali, com dois pitboys em cima. Do nada, eles começaram a surrar os profissionais da noite. Depois de meia dúzia de sopapos e chutes, subiram na moto e agarradinhos foram embora.

Num primeiro momento, pensei que os agredidos não tinham nada que estar ali, e que em parte era deles a culpa pelo que aconteceu. Aí eu vi os caras se levantando do chão, chorando. Não adiantava muito eles irem à polícia. Não tinham nem como identificar os agressores. Aqueles caras ali estavam como não-cidadãos, sem direito a nada. Agredidos aparentemente sem motivo nenhum além de serem travestis e se prostituírem --o que, ao menos no meu juízo, concerne apenas a eles. Era uma das caras da imbecilidade humana.

Em setembro de 2002, eu estava começando a namorar minha mulher e fomos comer um churrasquinho no acampamento farroupilha, em Porto Alegre - uma espécie de Disneylândia da tradição inventada nos anos 50 por estudantes do colégio Júlio de Castilhos. Tem caras que tiram férias pra passar o mês lá acampando, fantasiados de gaúchos, com direito a cavalos estrumando em volta e farta distribuição de água quente para o chimarrão. Abracei minha namorada para dar um beijo - longo, apaixonado, como ela merece. Mas nada muito diferente do que se vê num shopping center. Fomos repreendidos por um cara fantasiado de gaúcho: "Jovens... aqui não é lugar para essas indecências".

Fiquei sem chão. Quase me senti como os travestis da Augusta apanhando sem motivo. Só tive presença de espírito pra responder que "indecência é um barbado da sua idade fantasiado desse jeito". Olhei em torno e vi indecências mais malucas ainda. Na disneylândia farroupilha, os homens ficam para um lado, vestidos de bombacha e contando mentira, e as mulheres ficam para o outro, trajadas com aqueles vestidos que parecem a cortina da sala e cuidando das crianças. Num primeiro momento, pensei que a culpa era minha, que eu não tinha nada que estar lá. Aí caiu a ficha: estávamos num torrão do século 19, mesmo estando no século 21. Quem estava fora do lugar eram eles, não eu.

Dias depois, os mesmos Patetas do Bombachistão fariam coisa pior do que me acusar de ser indecente por beijar minha namorada. Um advogado pelotense, que atende pelo apelido de Capitão Gay e andou concorrendo em algumas eleições, montou uma charrete cheia de travestis vestidos de prenda (ou seja, como que enrolados na cortina da sala) e de barba na cara. De bombacha cor-de-rosa, liderando a cavalgada, tentou entrar no acampamento farroupilha. Quase foi literalmente linchado em praça pública. Por pouco se salvou. Boa parte dos comentários o julgava culpado pela agressão que sofreu, por ter feito o que fez.

Em 2008, no Rio de Janeiro, alguns guris chegavam da balada em suas casas, no morro da Providência. O morro estava ocupado por soldados que cuidavam de uma obra que só estava lá por politicagem. Os soldados só estavam lá por politicagem. Garotos pobres como os que chegavam da balada, mas usando farda e portando armas, os soldados interpelaram os que chegavam da balada. Estes retrucaram. As agressões que se seguiram acabaram com os meninos sendo presos apenas por voltar da balada e retrucar contra a truculência militar. Pior ainda: injuriado em sua honra, o mais graduado dos milicos resolveu dar um susto neles. Colocou-os num camburão e mandou largá-los numa favela ocupada por uma facção rival à facção de criminosos que ocupa a favela onde os guris moravam. Os cadáveres, completamente mutilados, foram encontrados no dia seguinte.

Você pode dizer que eles não tinham nada que retrucar aos milicos. Você pode dizer que eles não tinham nada que ir à balada. Você pode achar que a culpa era deles. Você pode achar que, se moravam na favela, boa coisa não eram. Mas será mesmo?

Será que é correto viver se policiando pelo que os outros vão pensar?

Será que é correto viver policiando o que os outros fazem?

Será que é correto julgar os outros pelo que eles fazem da vida deles?

Será que é correto violar os direitos dos outros pelo que eles fazem de suas vidas?

Acho que liberdade de expressão, inclusive pessoal, é um direito fundamental - que é a base de todos os outros. O fundamento da liberdade de expressão é o respeito. Eu não tenho direito de intervir na sua vida, assim como você não tem direito de intervir na minha. Especialmente se eu não estiver intervindo na sua e, mais importante ainda, se não estiver fazendo nada errado, nada que prejudique ninguém.

Muitas vezes, parece que a cultura brasileira não absorveu direito esse fato da natureza. Se você caminha em ruas de Londres, ou de Copenhague, ou de Gotemburgo, vai ver gente vestida dos jeitos mais absurdos possíveis. Ninguém dá a mínima bola, porque não é de sua conta o jeito como os outros se vestem, ou quem eles beijam, ou o que fazem da vida.

Mais ainda: um argumento que é comum ouvir por aí é o "calou a boca dele", "você tem que calar a boca", "você não pode falar disso". O Lula diz que a imprensa não tem o papel de fiscalizar (obviamente, ele pensava diferente antes de ser vidraça). Se alguém faz um pingo de crítica, pontual que seja, a uma pessoa ou instituição que lhe seja cara, o pessoal cai matando e faz juízos de valor absurdos sobre quem teve a ousadia de opinar.

Não precisa ser assim. Aliás, é completamente imbecil que o Brasil seja desse jeito, e é por isso que a gente não vai pra frente. Por isso, em parte, que o Brasil é a décima economia do mundo com o 75º desenvolvimento humano do mundo. Liberdade de pensar e de se expressar (inclusive com roupas, por que não?) é o fundamento mínimo de qualquer democracia que possa se desenvolver. Isso depende de respeito. Que não se aprende necessariamente na escola e muito menos se compra na farmácia.

Sem falar que, no dia em que alguém for culpado pelo que pensa, eu vou merecer a cadeira elétrica. E não adianta me apontar o dedo: eu tenho certeza de que você também vai.

DICA: Se estiver em São Paulo, não deixe de assistir na Mostra de Cinema ao filme "O Apedrejamento de Soraya M". Aquilo é o Irã, OK?

por Marcelo Soares // 30/10/2009 - 16:29

O que é que a loira da Uniban tem a ver com a política? Saiba aqui

28/10/2009 - 20:20 | 1517 visitas

Ando meio sumido, mas não abandonei o blog. É o excesso de trabalho, mesmo.

Chegou hoje ao meu conhecimento um caso bizarro, muito bizarro. Ficou entalado na garganta.

Na semana passada, uma estudante de Turismo da Uniban - uma universidade particular, popular, em São Paulo - resolveu ir à aula vestida com trajes curtos, muito reveladores. Ao subir a rampa, rapazes teriam começado a disparar gracinhas contra ela. A coisa foi ganhando volume (duplo sentido, por favor) e há relatos de que lá pelas tantas já tinha cara falando em ESTUPRAR a menina. Parou a Uniban. Literalmente.

(Em nota oficial, a universidade nega que tenha havido tentativa de estupro, dizendo que não houve contato físico e nem perseguição. Não vi nenhum vídeo que mostrasse o começo da coisa toda. Mas se a moça precisou se trancar numa sala e a coisa chegou ao ponto de todos os alunos saírem da sala de aula para assistir o espetáculo, parece ter sido um pouco mais do que apenas gritos. E se todo mundo sair da sala de aula pra ver o espetáculo não é perseguição, não faço idéia do que possa ser, na definição da universidade. Carros correndo na rua em alta velocidade, talvez. Se você for fazer vestibular por lá, anote porque pode ser importante essa distinção.)

Um dos vídeos feitos no celular mostra uma aluna dizendo que todo mundo queria ver "a puta da faculdade". A garota precisou se esconder numa sala de aula e precisou a polícia militar ir lá para tirá-la em segurança. Ela saiu sob gritos de "puta, puta". Ninguém analisou isso melhor que o Boteco Sujo.

(Cá pra nós: não sei se era ou não essa a profissão dela, mas e daí se fosse? Não seria a primeira e nem a última numa faculdade. Se era, não era a única. No meio da multidão toda que parou a Uniban devia ter algumas que realmente eram, mas na moita. A profissão delas tira o direito de estudar? Eu acho que não. E especialmente acho que não é motivo pra linchamento moral.)

Repare bem: não era um tribunal islâmico como os da Somália, onde mulheres são condenadas a morrer a pedradas por cometer adultério. Não era o Sudão, onde mulheres são condenadas a tomar 20 chibatadas por usar roupas impróprias (no caso, calça comprida). Não: estávamos em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. Num ambiente universitário, teoricamente. Mas o espírito de manada é sempre mais forte que a razão.

Da mesma forma como num estádio todo mundo sabe exatamente que hino cantar em louvor ao seu time, na Uniban todo mundo sabia que devia ser moralista - inclusive os sujeitos que se viam no direito de querer estuprar uma moça cujo único problema era ter um gosto supostamente duvidoso no trajar.

Se ela vai à aula exibindo o útero, o mau gosto é dela - e há jeitos e jeitos de avisar se isso não for adequado. Aliás, vi fotos da moça com o vestidinho rosa da discórdia e tenho certeza de ter visto trajes mais escandalosos em seriados de TV dos anos 60. Se a universidade pára pra linchá-la moralmente por ir vestida desse jeito, o problema é outro. Isso é o que eu chamo de MORALISMO DE MÃO CABELUDA.

O melhor exemplo disso é o do sujeito que postou o vídeo "Puta sendo expulsa da Uniban" (na verdade, ela foi escoltada, não expulsa). Quando apareceu na longa lista de comentários do vídeo uma moça dizendo ser a que causou o tumulto, ele foi lá postar no perfil dela: "linda vc e corpao vc tem isoo sem duvida..." Ué: o cara é um moralista, que comemora que a "puta" seja expulsa, ou um malandro, que quer tirar uma casquinha? Pessoalmente, acho que a diferença entre o moralista e o malandro é apenas a sinceridade.

Amigos leitores, eu lhes confesso que tenho um medo filosófico de multidões. Numa multidão, é perigoso pensar por conta própria. Age-se por instinto de manada. Se você estivesse lá na Uniban naquele dia, você vaiaria a "puta" ou levantaria o dedo perguntando "peraí, mas ela é culpada de quê, mesmo?"

Isso tem tudo a ver com o debate político. Já reparou como político nenhum afirma ser de direita e até o Sarney virou um expoente da esquerda brasileira, com direito a ser defendido pelo Lula? Mais ainda: já reparou como todo político é gente boa, no discurso?

Moralismo insufla multidões, assim como os sentimentos de pertença relacionados a times ou ideologias. É nessas horas do sangue quente que caras do MST derrubam laranjais. É nessas horas do sangue quente que policial carioca não vê se está atirando em bandido ou no primeiro cara que vem na frente.

Em 1970, o genial quadrinista Jack Kirby criou o Impiedoso Darkseid, um personagem cósmico que buscava o controle da Equação Antivida. Essa equação permitiria controlar a vontade da humanidade, anulando a vontade própria de cada indivíduo, mas estava fragmentada na cabeça de cada um de nós. Ele pensava basicamente no nazismo, onde todo mundo "apenas cumpria ordens" e cometeu atrocidades inomináveis. Mas podia se referir a qualquer fenômeno de multidão.

Amigos leitores, faço um pedido a vocês: quando se virem numa situação dessas, PENSEM antes de qualquer coisa. Uma coisa é cantar "louco, louco, louco" - isso é legal pra caramba. Outra coisa é linchamento moral.

 

por Marcelo Soares // 28/10/2009 - 20:20

Leituras de domingo: quanto vale a cor da pele, se o sangue e o osso de todos é da mesma cor?

18/10/2009 - 20:24 | 353 visitas

Há 50 anos, em abril de 1959, o trumpetista e compositor de jazz Miles Davis estava fumando na frente do bar Village Vanguard, em Nova York, quando dois policiais o interpelaram, perguntando o que estava fazendo ali. "Eu trabalho aqui", ele respondeu. Não era um desconhecido - naquele mesmo mês, terminara de gravar sua obra prima, "Kind of Blue". Miles contou em entrevistas que apanhou mais que um tom-tom de bateria. Acabou ganhando na Justiça o reconhecimento de que apanhou de graça.

No Brasil a coisa não era muito diferente no tom. Uns 30 anos antes disso, minha avó era criança e estava na escola. Um menino negro lhe passou um bilhetinho elogioso. Meu bisavô, filho de suecos, a tirou da escola na terceira série. "Já sabe ler, já sabe assinar o nome, já sabe fazer contas", disse ele. Até hoje a velhinha, agora com 90 anos, se ressente de não ter tido estudos por causa desse incidente.

Poucos anos depois de Davis apanhar nos EUA, minha mãe era criança e presenciou uma cena maluca: a filha do cônsul alemão em Porto Alegre, que morava em frente à casa delas, estava quebrando a pancadas uma boneca negra. A consulesa deu a boneca de presente para minha mãe. Até hoje a boneca está na casa da minha avó.

Percebam: essas coisas aconteceram dentro do tempo de vida de gente que convive com a gente. Hoje isso seria impensável assim dessa maneira. O Seu Jorge dificilmente apanharia por estar fumando na frente de um bar. As agruras de um menino negro apaixonado por uma menina branca foram tema até de novelinha mexicana há alguns anos. E bonecas negras agora são vendidas no Brasil. A humanidade deixou boa parte dessa ignorância de lado em relativamente pouco tempo.

Existe um grande debate no país sobre a implantação de cotas raciais em concursos e vestibulares. Algumas faculdades já implantaram. Há quem diga que esse debate pretende dividir o Brasil pelas cores da pele. Há bons argumentos dos dois lados da controvérsia.

Quando fiz faculdade, numa universidade federal, eu tinha apenas um colega negro. Era um moçambicano, que veio para o Brasil num convênio entre os governos dos dois países. O Brasil forma parte da elite dos países lusófonos africanos. Fora ele, ninguém. Quando um professor chamou a atenção para o assunto, lembrei da fila do vestibular. Não havia quase nenhum estudante negro nela.

Experiências de cotas no Brasil já demonstraram que não é por falta de competência que os estudantes negros deixam de entrar nas faculdades: os que entraram via cotas tinham nota suficiente para passar mesmo sem elas. Também não é por falta de grana para a inscrição, porque há abono para alunos que não tiverem condições.

Mas por que não estavam na fila do vestibular? Aí entra a parte sociológica e psicológica, sobre a qual eu arrisco falar besteira se for me meter a chutar. O fato é que as cotas incentivaram esses bons estudantes a saírem de casa e entrarem na universidade. Isso é sempre positivo, por mais que estudantes com nota semelhante que ficaram de fora por causa das cotas possam ficar desapontados.

Da mesma maneira, é possível argumentar que se há algo democrático no Brasil é a pindaíba. Nossas favelas são multicoloridas, com pobres de todas as cores. A falta de oportunidade tem mais a cara da distribuição da renda do que do mix de cores. Há quem fale que cotas para escolas públicas seriam mais democráticas, e vejo razão nesse pessoal. Talvez o Enem, quando a confusão toda for resolvida, possa dar algumas pistas nesse sentido.

Eu mesmo não tenho opinião formada sobre as cotas, embora ache que a questão da igualdade racial seja importante. Acho que, no final, tudo se resume ao seguinte: por baixo da pele, nosso sangue e nossos ossos são todos da mesma cor.

Mas e vocês, o que pensam a respeito? Soltem o verbo à vontade aqui nos comentários.

 

***

Que tal as leituras de domingo, então?

 

"Ao Vivo no Village Vanguard" conta a história do legendário bar novaiorquino e dos não menos mitológicos jazzistas que lá tocaram. Dá vontade de ter uma máquina do tempo - não só pra assistir as canjas, mas também pra dar porrada nos policiais que bateram no Miles Davis.

"Preto no Branco", do brasilianista Thomas Skidmore, tenta compreender as seis décadas, entre 1870 e 1930, em que o Brasil deixou de ser um país imperial e escravagista para se tornar republicano e sem escravos. É lá que estão as raízes de boa parte das incompreensões atuais.

"História Social do Jazz" e "Pessoas Extraordinárias", do Eric Hobsbawm, tratam de alguns personagens interessantes, especialmente os músicos de jazz, e o contexto em que viveram. Hobsbawm é um historiador da esquerda inglesa, mas você não precisa concordar com as visões políticas dele para apreciar sua análise e sua elegância de estilo. No "Pessoas Extraordinárias", recomendo o ensaio sobre o jazz após 1960 - uma fase empolgante, em que Miles Davis chegou a flertar com o rock.

"Risco - a ciência e a política do medo", do Dan Gardner, é um dos livros que indiquei para meus alunos de um curso de matemática para jornalistas que estou dando na Folha de S.Paulo. Ele mostra como hoje somos os seres humanos mais saudáveis e seguros da história, mas mesmo assim continuamos reféns do medo. O que isso tem a ver com a questão racial? Leia o capítulo 9.

por Marcelo Soares // 18/10/2009 - 20:24
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O que você acha da forma como a gente usa a liberdade pra falar de política na internet?

Toda tentativa de limitar a liberdade de expressão na internet agride os nossos direitos. Só se aprende a usar a liberdade quando se pode usá-la.
É chato impor limites, mas tem gente que não tem noção mesmo. Tem que moderar obrigatoriamente.
O povão não sabe discutir política. Melhor não abrir espaços pra isso e deixar o debate na mão dos profissionais, que são eleitos e bem pagos pra isso mesmo.
Tô nem aí, tô nem aí...