"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
O senador José Sarney, presidente do Senado, deu um discurso pra se defender hoje. Maior autoridade do Legislativo, ele vem enfrentando denúncias de que atos secretos nomearam até um neto bastardo seu para um carguinho de R$ 7 mil no Senado. Durante sua presidência atual, escândalos de gastos sem controle vêm aparecendo como nunca antes. Em seu discurso, Sarney se exime de qualquer culpa. Para reagir à má onda, a Casa vai lançar uma campanha publicitária mostrando o quanto o Senado é importante e faz coisas legais.
Escândalos semelhantes vêm acontecendo também no Reino Unido, onde o parlamento tem apenas seis séculos a mais de experiência do que o nosso. Venho acompanhando de perto isso. Em maio, o Daily Telegraph publicou as despesas que suas excelências britânicas ressarcem com grana do contribuinte, o que desatou uma crise imensa. Envergonhado, em 18 de maio o presidente da Câmara de lá anunciou que deixaria seu argo em 21 de junho, para manter a unidade. Para reagir à má onda, o primeiro-ministro Gordon Brown fez um discurso muito interessante, em que anunciou novas medidas de transparência - e foi vaiado várias vezes por suas excelências.
Compare trechos dos discursos de Sarney (leia aqui) e de Gordon Brown (leia aqui em inglês).
Ao avaliar a crise da Casa, Sarney recorre à falácia do "eu não sabia":
As nossas responsabilidades, a minha visão histórica desta Casa ninguém vai me cobrar, porque eu, ao longo da vida, não tenho feito outra coisa senão louvar a Instituição legislativa e a ela tenho prestado serviços. São 55 anos, sessenta de vida pública e cinquenta dentro do Parlamento.
Não seria agora, na minha idade, que iria praticar qualquer ato menor que nunca pratiquei na minha vida.
Eu aqui no Senado assisti, durante esses anos todos, muitos escândalos, muitos momentos de crise. Mas, em nenhum momento, meu nome esteve envolvido em qualquer dessas coisas de comissões aqui dentro desta Casa.
Então, é com essa responsabilidade que nunca tive meu nome associado a qualquer das coisas que são faladas aqui dentro do Congresso Nacional, ao longo do tempo, porque isso é uma crise mundial. O que se fala aqui no Brasil sobre o Congresso fala-se na Espanha, fala-se na Inglaterra, fala-se na Argentina, fala-se em todos os lugares.
Sim, fala-se na Inglaterra. Veja o que disse Gordon Brown a respeito da crise da Casa:
As últimas semanas nos mostraram que o público exige - como um imperativo urgente - critérios mais altos de conduta financeira de todas as pessoas na vida pública, dando um fim aos abusos do passado. Não há tarefa mais urgente para este parlamento que a de responder a essa demanda pública.
Acredito que a maior parte dos membros do parlamento entra na vida pública para servir ao interesse público. Também acredito que a vasta maioria dos parlamentares trabalha duro pelos seus representados e demonstra em seu serviço que está na política não pelo que pode ganhar, mas também pelo que pode dar. Mas todos nós precisamos ter a humildade de aceitar que a confiança pública foi abalada e que a reputação combalida desta instituição não poderá ser reparada sem mudanças fundamentais.
Precisamente no momento em que o público precisa que seus políticos se concentrem nas questões que afetam suas vidas - em combater a recessão, manter as pessoas em seus empregos e casas -, o assunto da própria política tornou-se o foco da nossa política.
Não podemos levar nosso país para a frente sem romper com as velhas práticas e os velhos modos. Cada um de nós tem uma parte a fazer na dura tarefa de recuperar a confiança do país - não em nome dos nossos diferentes partidos, mas em nome de nossa democracia em comum. Sem essa confiança não pode haver legitimidade - e, sem legitimidade, nenhum de nós pode fazer o trabalho que nossos representados nos enviaram aqui para fazer.
Precisamos refletir sobre o que aconteceu, corrigir os abusos, garantir que nada como isso poderá ocorrer de novo e certificar-nos de que o público vê os parlamentares como quem presta contas individualmente a seus representados.
Sarney pensa diferente sobre a questão de prestar contas, incorrendo na falácia do "não é justo me acusar":
Não tenho nenhum motivo ou problema na consciência que não seja o de ter cumprido o meu dever e acho que não posso ser julgado. É uma injustiça do País julgar um homem como eu, com tantos anos de vida pública, com a correção que tenho de vida austera, de família bem composta, que tem prezado a sua vida para a dignidade da sua carreira e nunca, aqui, dentre os colegas, que não tenham encontrado, sempre de minha parte, um gesto de cordialidade e, ao mesmo tempo, participado. Nunca neguei um voto que fosse a não ser no sentido de avançarmos na melhoria dos costumes da Casa.
Gordon Brown vai um pouco mais longe do que o "não posso ser julgado": ele propõe reformas na maneira como os parlamentares recebem ressarcimento de despesas e na forma como eles declaram seus conflitos de interesse. Propõe cortes de gastos (sendo que o Parlamento britânico já custa menos do que o brasileiro). São medidas concretas, e detalhadas.
O sistema atual não é um sistema transparente e que ponha em primeiro lugar o interesse dos representados. Ele precisa mudar.
Sarney conclui tirando o seu da reta (resvalando na falácia do "mas eles também") e dizendo que o Senado vai ser respeitado porque sim:
Agora, em relação ao passado porque nenhum desses atos que falam se referem à nossa gestão. Então, apure-se. Quem for responsável, que seja punido e serei eu que estarei à frente para punir. Se eu estiver errado em alguma coisa e, também, entre todos os outros que passaram aqui todos nós porque todos nós somos responsáveis. Ontem o senador Pedro Simon me dizia isto e é verdade, senador Pedro Simon todos nós. Nós aprovamos, aqui, os Atos da Mesa. Todos nós aprovamos. O Senado, no seu conjunto, aprovou os Atos da Mesa.
Todos nós, então, devemos, agora, da mesma maneira, vermos o que está errado e corrigirmos o que está errado e eu estarei, aqui, pronto para cumprir tudo o que o Senado decidir e, ao mesmo tempo, vou levar em frente, doa a quem doer, resistências que tiver porque isto são resistências mas nós iremos em frente. Nós iremos fazer do Senado tanto o que pudermos. Iremos fazer do Senado aquilo que todos os Senadores desejam: uma Casa respeitada.
Brown conclui dizendo que não é hora de botar a culpa em fulano ou beltrano, mas de arregaçar as mangas pra recuperar o respeito perdido:
Em meio a todo o rancor e recriminação, aproveitemos este momento para levantar a nossa política a um padrão mais elevado. Em meio à dúvida, revivamos a confiança. Fiquemos juntos, porque ao menos nisto eu creio que todos concordemos: que a Grã-Bretanha merece um sistema igual às esperanças e ao caráter do nosso povo. Discordemos nas políticas públicas; isso é inevitável. Mas unamo-nos pela integridade e pela democracia; isso é agora mais essencial do que nunca.
Mas numa coisa os políticos são iguais nos dois lados do oceano. Com discursos tão diferentes, Sarney foi aplaudido e Brown foi vaiado.






















