

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Um Eric Clapton aí só pra acertar o tom: "Before you accuse me, take a look at yourself".
Acho que o caso da loira da Uniban vale uma boa oportunidade pra gente conversar sobre democracia e liberdade de expressão. Sem muita teoria, só casos concretos. Pensem neles e pensem no que fariam, em como reagiriam no lugar de quem leva e de quem observa. Duas idéias fundamentais: 1) não existe democracia sem liberdade de expressão; 2) liberdade de expressão é a liberdade de os outros expressarem coisas com as quais você não concorda.
Em janeiro de 2001, era véspera do meu aniversário e eu estava de carona com alguns amigos, indo para uma balada. Descendo a Augusta, um trânsito absurdo fez o carro ficar parado um bom tempo. Na esquina, havia um par de travestis. Uma moto parou ali, com dois pitboys em cima. Do nada, eles começaram a surrar os profissionais da noite. Depois de meia dúzia de sopapos e chutes, subiram na moto e agarradinhos foram embora.
Num primeiro momento, pensei que os agredidos não tinham nada que estar ali, e que em parte era deles a culpa pelo que aconteceu. Aí eu vi os caras se levantando do chão, chorando. Não adiantava muito eles irem à polícia. Não tinham nem como identificar os agressores. Aqueles caras ali estavam como não-cidadãos, sem direito a nada. Agredidos aparentemente sem motivo nenhum além de serem travestis e se prostituírem --o que, ao menos no meu juízo, concerne apenas a eles. Era uma das caras da imbecilidade humana.
Em setembro de 2002, eu estava começando a namorar minha mulher e fomos comer um churrasquinho no acampamento farroupilha, em Porto Alegre - uma espécie de Disneylândia da tradição inventada nos anos 50 por estudantes do colégio Júlio de Castilhos. Tem caras que tiram férias pra passar o mês lá acampando, fantasiados de gaúchos, com direito a cavalos estrumando em volta e farta distribuição de água quente para o chimarrão. Abracei minha namorada para dar um beijo - longo, apaixonado, como ela merece. Mas nada muito diferente do que se vê num shopping center. Fomos repreendidos por um cara fantasiado de gaúcho: "Jovens... aqui não é lugar para essas indecências".
Fiquei sem chão. Quase me senti como os travestis da Augusta apanhando sem motivo. Só tive presença de espírito pra responder que "indecência é um barbado da sua idade fantasiado desse jeito". Olhei em torno e vi indecências mais malucas ainda. Na disneylândia farroupilha, os homens ficam para um lado, vestidos de bombacha e contando mentira, e as mulheres ficam para o outro, trajadas com aqueles vestidos que parecem a cortina da sala e cuidando das crianças. Num primeiro momento, pensei que a culpa era minha, que eu não tinha nada que estar lá. Aí caiu a ficha: estávamos num torrão do século 19, mesmo estando no século 21. Quem estava fora do lugar eram eles, não eu.
Dias depois, os mesmos Patetas do Bombachistão fariam coisa pior do que me acusar de ser indecente por beijar minha namorada. Um advogado pelotense, que atende pelo apelido de Capitão Gay e andou concorrendo em algumas eleições, montou uma charrete cheia de travestis vestidos de prenda (ou seja, como que enrolados na cortina da sala) e de barba na cara. De bombacha cor-de-rosa, liderando a cavalgada, tentou entrar no acampamento farroupilha. Quase foi literalmente linchado em praça pública. Por pouco se salvou. Boa parte dos comentários o julgava culpado pela agressão que sofreu, por ter feito o que fez.
Em 2008, no Rio de Janeiro, alguns guris chegavam da balada em suas casas, no morro da Providência. O morro estava ocupado por soldados que cuidavam de uma obra que só estava lá por politicagem. Os soldados só estavam lá por politicagem. Garotos pobres como os que chegavam da balada, mas usando farda e portando armas, os soldados interpelaram os que chegavam da balada. Estes retrucaram. As agressões que se seguiram acabaram com os meninos sendo presos apenas por voltar da balada e retrucar contra a truculência militar. Pior ainda: injuriado em sua honra, o mais graduado dos milicos resolveu dar um susto neles. Colocou-os num camburão e mandou largá-los numa favela ocupada por uma facção rival à facção de criminosos que ocupa a favela onde os guris moravam. Os cadáveres, completamente mutilados, foram encontrados no dia seguinte.
Você pode dizer que eles não tinham nada que retrucar aos milicos. Você pode dizer que eles não tinham nada que ir à balada. Você pode achar que a culpa era deles. Você pode achar que, se moravam na favela, boa coisa não eram. Mas será mesmo?
Será que é correto viver se policiando pelo que os outros vão pensar?
Será que é correto viver policiando o que os outros fazem?
Será que é correto julgar os outros pelo que eles fazem da vida deles?
Será que é correto violar os direitos dos outros pelo que eles fazem de suas vidas?
Acho que liberdade de expressão, inclusive pessoal, é um direito fundamental - que é a base de todos os outros. O fundamento da liberdade de expressão é o respeito. Eu não tenho direito de intervir na sua vida, assim como você não tem direito de intervir na minha. Especialmente se eu não estiver intervindo na sua e, mais importante ainda, se não estiver fazendo nada errado, nada que prejudique ninguém.
Muitas vezes, parece que a cultura brasileira não absorveu direito esse fato da natureza. Se você caminha em ruas de Londres, ou de Copenhague, ou de Gotemburgo, vai ver gente vestida dos jeitos mais absurdos possíveis. Ninguém dá a mínima bola, porque não é de sua conta o jeito como os outros se vestem, ou quem eles beijam, ou o que fazem da vida.
Mais ainda: um argumento que é comum ouvir por aí é o "calou a boca dele", "você tem que calar a boca", "você não pode falar disso". O Lula diz que a imprensa não tem o papel de fiscalizar (obviamente, ele pensava diferente antes de ser vidraça). Se alguém faz um pingo de crítica, pontual que seja, a uma pessoa ou instituição que lhe seja cara, o pessoal cai matando e faz juízos de valor absurdos sobre quem teve a ousadia de opinar.
Não precisa ser assim. Aliás, é completamente imbecil que o Brasil seja desse jeito, e é por isso que a gente não vai pra frente. Por isso, em parte, que o Brasil é a décima economia do mundo com o 75º desenvolvimento humano do mundo. Liberdade de pensar e de se expressar (inclusive com roupas, por que não?) é o fundamento mínimo de qualquer democracia que possa se desenvolver. Isso depende de respeito. Que não se aprende necessariamente na escola e muito menos se compra na farmácia.
Sem falar que, no dia em que alguém for culpado pelo que pensa, eu vou merecer a cadeira elétrica. E não adianta me apontar o dedo: eu tenho certeza de que você também vai.
DICA: Se estiver em São Paulo, não deixe de assistir na Mostra de Cinema ao filme "O Apedrejamento de Soraya M". Aquilo é o Irã, OK?














































