

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.

Ontem, quando eu estava no estúdio do Debate MTV conversando com o Lobão e outros cinco participantes sobre o apagão da razão da gurizada da Uniban no caso da estudante das pernas de fora, estava rolando um outro apagão no Brasil. Resumo da ópera: a gente estava falando, mas pouca gente estava vendo: o blecaute pegou 18 estados do Brasil.
Até agora não se sabe dizer direito por que é que ele aconteceu. Itaipu, que gera a energia, diz que o problema não é de geração -- num típico discurso de primeiro encontro de piada, disse que "nunca havia acontecido antes". Diz o Ministério das Minas e Energia que houve problemas em três linhas de transmissão. Furnas, que transmite a energia, diz que não houve problema nas torres. Foi por causa do mau tempo? Pode ser, mas pode não ser. Outros blecautes foram causados por péssima manutenção dos equipamentos - coisa que eles também dizem que não vem ocorrendo.
Só se tem certeza de que houve um apagão. Você sofreu com ele, e talvez até tenha tido algum equipamento queimado (saiba aqui como pedir ressarcimento).
Para os nossos caríssimos políticos, porém, a desgraça do povo SEMPRE se traduz em festa.
O cientista político Sérgio Abranches lembra um problema importante do Ministério das Minas e Energia: o loteamento político dos cargos. Que já aconteceu antes e continuou acontecendo depois.
Sobre esse gre-nal, essa coisa de pátio de escola de "seu apagão é maior que o meu", tomo emprestadas as palavras do mestre Alon Feuerwerker:
Há um “efeito Katrina”. Os porta-vozes governistas estão mais preocupados em explicar por que o apagão de Lula é diferente dos de Fernando Henrique Cardoso. E não em pelo menos simular que a prioridade é com a segurança e o conforto dos cidadãos, suas famílias e seus negócios. E há um “efeito missão cumprida”, já que o governo vinha dizendo, insistentemente, que fato como esse não mais iria ocorrer.
É o risco que Lula corre. O triunfalismo virou peça permanente da sua retórica. E o triunfalismo tem seus problemas. Ele passa razoavelmente ileso pelos “pequenos” transtornos (como o número de mortos pela gripe suína), especialmente quando mascarados pelas boas notícias que saem da linha de produção. Mas se tem um apagão —e que apagão!— o contraste entre o discurso e a realidade fica evidente demais.
Ainda que Lula possa ter razão quanto às diferenças entre o apagão dele e os de FHC. E ainda que Bush estivesse realmente certo quanto ao fim das grandes operações de guerra no teatro iraquiano.
Quem está interessado em saber se o apagão de Lula é melhor ou pior que os de FHC? Petistas, tucanos e agregados em cada um dos dois lados. Além, naturalmente, da turma que espera por uma beirada no Orçamento, ou pela nomeação para um cargo de confiança, a partir de 2011, conforme quem levar vantagem na urna.
O resto do país está mais ocupado em entender como o governo vai fazer para evitar que se repita. Quer saber as iniciativas que vão ser tomadas (e que já foram tomadas) para aumentar a confiabilidade do sistema. Que é inconfiável, óbvio. E as pessoas querem saber também por que aconteceu. E se poderia ter sido evitado. Neste último caso, vão querer o nome de quem vai pagar o pato, politicamente falando.
Assim é que funciona. Ou deveria funcionar. Não dá para Lula querer enfrentar o assunto na base do “meu apagão não é tão grave quanto foi o seu” ou do “deixem comigo, pois meu governo tem 70-80% de aprovação e eu sei o que estou fazendo”. Ou do “eu fiz o máximo, não encham”. Não é assim que funciona na democracia. Ou não deveria ser.
Na falta de informação, abunda a teoria da conspiração. Há vários interesses em jogo:
Mas vamos olhar o contexto maior aqui?
PEIDEI, MAS NÃO FUI EU
Ninguém no Brasil assume responsabilidade de nada.
Ninguém teve culpa pelo apagão.
A Uniban botou na aluna sem noção a culpa pelo talibanismo medieval dos seus alunos, expulsou a aluna, voltou atrás e segue botando a culpa nela mesmo assim.
Ainda ontem o traficante Fernandinho Beira-Mar foi julgado por um assassinato na cadeia. Ele nega, embora haja gravações. Foi condenado. Ontem o pessoal do MS achou que foi ele que causou o apagão.
Nenhum político nunca foi punido no Brasil por corrupção. Eles dizem que o problema é que seus adversários ficam fazendo acusações injustas. Ou seja: todos os políticos brasileiros são santos, cujo único defeito é a mania de ficar acusando os colegas.
Difícil avançar num país assim, concordam?
Só nos resta cantar com o Lobão o Hino do Peidei mas Não Fui Eu.






























