

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Ando meio sumido, mas não abandonei o blog. É o excesso de trabalho, mesmo.
Chegou hoje ao meu conhecimento um caso bizarro, muito bizarro. Ficou entalado na garganta.
Na semana passada, uma estudante de Turismo da Uniban - uma universidade particular, popular, em São Paulo - resolveu ir à aula vestida com trajes curtos, muito reveladores. Ao subir a rampa, rapazes teriam começado a disparar gracinhas contra ela. A coisa foi ganhando volume (duplo sentido, por favor) e há relatos de que lá pelas tantas já tinha cara falando em ESTUPRAR a menina. Parou a Uniban. Literalmente.
(Em nota oficial, a universidade nega que tenha havido tentativa de estupro, dizendo que não houve contato físico e nem perseguição. Não vi nenhum vídeo que mostrasse o começo da coisa toda. Mas se a moça precisou se trancar numa sala e a coisa chegou ao ponto de todos os alunos saírem da sala de aula para assistir o espetáculo, parece ter sido um pouco mais do que apenas gritos. E se todo mundo sair da sala de aula pra ver o espetáculo não é perseguição, não faço idéia do que possa ser, na definição da universidade. Carros correndo na rua em alta velocidade, talvez. Se você for fazer vestibular por lá, anote porque pode ser importante essa distinção.)
Um dos vídeos feitos no celular mostra uma aluna dizendo que todo mundo queria ver "a puta da faculdade". A garota precisou se esconder numa sala de aula e precisou a polícia militar ir lá para tirá-la em segurança. Ela saiu sob gritos de "puta, puta". Ninguém analisou isso melhor que o Boteco Sujo.
(Cá pra nós: não sei se era ou não essa a profissão dela, mas e daí se fosse? Não seria a primeira e nem a última numa faculdade. Se era, não era a única. No meio da multidão toda que parou a Uniban devia ter algumas que realmente eram, mas na moita. A profissão delas tira o direito de estudar? Eu acho que não. E especialmente acho que não é motivo pra linchamento moral.)
Repare bem: não era um tribunal islâmico como os da Somália, onde mulheres são condenadas a morrer a pedradas por cometer adultério. Não era o Sudão, onde mulheres são condenadas a tomar 20 chibatadas por usar roupas impróprias (no caso, calça comprida). Não: estávamos em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil. Num ambiente universitário, teoricamente. Mas o espírito de manada é sempre mais forte que a razão.
Da mesma forma como num estádio todo mundo sabe exatamente que hino cantar em louvor ao seu time, na Uniban todo mundo sabia que devia ser moralista - inclusive os sujeitos que se viam no direito de querer estuprar uma moça cujo único problema era ter um gosto supostamente duvidoso no trajar.
Se ela vai à aula exibindo o útero, o mau gosto é dela - e há jeitos e jeitos de avisar se isso não for adequado. Aliás, vi fotos da moça com o vestidinho rosa da discórdia e tenho certeza de ter visto trajes mais escandalosos em seriados de TV dos anos 60. Se a universidade pára pra linchá-la moralmente por ir vestida desse jeito, o problema é outro. Isso é o que eu chamo de MORALISMO DE MÃO CABELUDA.
O melhor exemplo disso é o do sujeito que postou o vídeo "Puta sendo expulsa da Uniban" (na verdade, ela foi escoltada, não expulsa). Quando apareceu na longa lista de comentários do vídeo uma moça dizendo ser a que causou o tumulto, ele foi lá postar no perfil dela: "linda vc e corpao vc tem isoo sem duvida..." Ué: o cara é um moralista, que comemora que a "puta" seja expulsa, ou um malandro, que quer tirar uma casquinha? Pessoalmente, acho que a diferença entre o moralista e o malandro é apenas a sinceridade.
Amigos leitores, eu lhes confesso que tenho um medo filosófico de multidões. Numa multidão, é perigoso pensar por conta própria. Age-se por instinto de manada. Se você estivesse lá na Uniban naquele dia, você vaiaria a "puta" ou levantaria o dedo perguntando "peraí, mas ela é culpada de quê, mesmo?"
Isso tem tudo a ver com o debate político. Já reparou como político nenhum afirma ser de direita e até o Sarney virou um expoente da esquerda brasileira, com direito a ser defendido pelo Lula? Mais ainda: já reparou como todo político é gente boa, no discurso?
Moralismo insufla multidões, assim como os sentimentos de pertença relacionados a times ou ideologias. É nessas horas do sangue quente que caras do MST derrubam laranjais. É nessas horas do sangue quente que policial carioca não vê se está atirando em bandido ou no primeiro cara que vem na frente.
Em 1970, o genial quadrinista Jack Kirby criou o Impiedoso Darkseid, um personagem cósmico que buscava o controle da Equação Antivida. Essa equação permitiria controlar a vontade da humanidade, anulando a vontade própria de cada indivíduo, mas estava fragmentada na cabeça de cada um de nós. Ele pensava basicamente no nazismo, onde todo mundo "apenas cumpria ordens" e cometeu atrocidades inomináveis. Mas podia se referir a qualquer fenômeno de multidão.
Amigos leitores, faço um pedido a vocês: quando se virem numa situação dessas, PENSEM antes de qualquer coisa. Uma coisa é cantar "louco, louco, louco" - isso é legal pra caramba. Outra coisa é linchamento moral.














































