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Os talebans da Uniban e a tensão entre a saia curta e a orelha comprida

07/11/2009 - 19:33

Pois a Uniban expulsou a hoje famosa Geisy Arruda, que causou alvoroço na faculdade por ir de vestido curto pra aula. Segundo anúncio publicado pela universidade hoje, a culpa pelo tumulto foi da aluna, por ir à aula em trajes inadequados e fazer um percurso maior do que o habitual. Os próceres da academia sentenciam que a aluna feriu a ética, a moralidade e a dignidade acadêmica.

Eu continuo achando que, se a universidade institucionalmente considera que a roupa era inadequada, tinha jeitos menos selvagens de informar isso à estudante. Quando ela entrou, a batata-quente do ridículo estava na mão dela. Quando ela saiu, estava na mão de centenas de alunos e no colo da faculdade, muito mais quente e muito maior. E, sinceramente, também continuo achando que entre adultos o que se veste é problema de cada um. O blog do Marcos Guterman resume bem: a culpa acabou sendo da vítima.

Mas não era exatamente da loira da Uniban que eu queria falar. Queria falar de educação, num sentido mais amplo. Acho que o caso comprova, mais do que nunca, um ponto importante e que volta e meia volta à discussão de maneira rasa: a diferença abissal que existe entre educação e canudo.

Nesta semana, o presidente Lula entrou no foco desse debate. Começou com o Caetano Veloso botando lenha na fogueira ao elogiar por contraste a ex-ministra e futura presidenciável Marina Silva com um "ela não é analfabeta como Lula". É um tipo de argumento que sempre aparece e no qual eu nunca toco porque eu acho de uma imbecilidade colossal. Verdade que o Lula teve tempo suficiente pra fazer supletivos e até uma faculdade, mas não fez - a Marina Silva fez, o Vicentinho fez. Só que nem por isso ele é "burro" - pelo contrário, é esperto o suficiente pra saber quando dizer que não sabia de nada. Ele e seu governo têm problemas mais sérios do que isso.

O presidente tem respostas muito boas pra esse tipo de crítica. Está acostumado, enfim, após tantos anos de vida pública. Em discurso no congresso nacional do PC do B, Lula falou uma grande verdade em serviço próprio:

"Tem gente que pensa que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento, aperfeiçoamento. Inteligência é outra coisa."

De uma maneira mais comprida, ele basicamente explicou a frase antológica do mestre Barão de Itararé: "canudo não encurta orelha".

Já tive longas discussões com minha avó sobre isso. Mulher sábia, do alto de seus 90 anos, ela insiste em se dizer "burra" porque só estudou até a terceira série. Porém, alguns insights que saem de sua cabeça, a partir do que viu e viveu, são mais profundos do que a maior parte da produção intelectual de ciências humanas do Brasil, ou pelo menos na área da comunicação. (Antes que venham com pedras: sim, eu tenho o hábito de ler trabalhos acadêmicos. Geralmente acho que sou masoquista.)

Outro debate interessante em que essa confusão se fez notar recentemente foi no rolo da obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Eu, pessoalmente, acho que estudar jornalismo é muito útil para um futuro jornalista. Mas acho que a obrigatoriedade era um prêmio para as faculdades ruins. Prêmio que elas aproveitaram bem, no boom de faculdades de esquina que surgiu a partir dos anos 90. Lucraram muito com isso. Durante quatro anos, ensinavam qualquer coisa basicamente para justificar as mensalidades. Ao final, entregavam um canudo que valia tanto quanto o de uma faculdade boa - afinal, era isso o que importava - e o aluno que se virasse pra aprender tudo no mercado de trabalho. Ou para achar outra profissão, sei lá.

Muita gente bem-intencionada critica a decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade do diploma. Acham que isso "desvaloriza" a profissão. Eu acho que não. Acho que isso tira o prêmio das faculdades ruins. As boas estão seguras. As médias vão ter que melhorar pra sobreviver, e isso é ótimo. A finalidade de estudar jornalismo não é ter acesso a um pedaço de papel, e sim a um conjunto de conhecimentos. Ainda nesta semana, meu mestre Plínio Bortolotti, do jornal O Povo, publicou em seu blog a informação de que, após a decisão do STF, o Ministério do Trabalho não está mais fazendo registro profissional de jornalistas. Também acho ótimo: acho que obrigar jornalistas a pedir licença para exercer sua profissão é resquício ditatorial. Quando precisava pedir, estávamos acompanhados de atores, sociólogos e flanelinhas. Agora, que não precisa mais pedir, estamos na companhia de engenheiros, advogados e médicos. Se não tinha critério, melhor não ter. (Que desobriguem também os atores e sociólogos!)

Mas esse pessoal bem-intencionado gosta da segurança que o papel dá. O canudo, o carimbo, a marca d'água, as assinaturas de três testemunhas, as diferentes destinações de vias de cores diferentes, a firma autenticada em cartório, a obrigatoriedade de apresentar certidão de nascimento junto da carteira de identidade indo pessoalmente ao local.

Isso está na base da cultura brasileira, cartorial e bacharelesca. O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que morreu nesta semana, foi um dos fundadores da Universidade de São Paulo. Em seu clássico "Tristes Trópicos", porém, Lévi-Strauss fez observações ácidas sobre os hábitos intelectuais dos estudantes brasileiros:

"Nossos estudantes queriam saber tudo; mas, em qualquer campo que fosse, só a teoria mais recente parecia merecer-lhes a atenção. Fartos de todos os festins intelectuais do passado, que aliás só conheciam por ouvir dizer, já que não liam as obras originais, conservavam um entusiasmo sempre disponível pelos pratos novos. No caso deles, conviria falar mais de moda que de gastronomia: idéias e doutrinas não ofereciam, em seu entender, um interesse intrínseco, consideravam-nas como instrumentos de prestígio cujas primícias deviam conseguir. Partilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a usar um vestido já visto; expunham-se a um vexame. Em compensação, praticavam uma concorrência ferrenha à custa de muitas revistas de vulgarização, periódicos sensacionalistas e compêndios, para conseguir a exclusividade do modelo mais recente no campo das idéias. (...) No entanto, a erudição, da qual não tinham o gosto nem o método, parecia-lhes (...) um dever; de modo que suas dissertações consistiam, qualquer que fosse o tema, numa evocação da história geral da humanidade desde os macacos antropóides, para terminar, por meio de algumas citações de Platão, Aristóteles e Comte, na paráfrase de um polígrafo enfadonho cuja obra tinha tanto mais valor na medida em que, por sua própria obscuridade, era bem possível que nenhum outro tivesse a idéia de pilhá-la." (evoé, @mrguavaman)

Isso era bem antes dos tempos atuais. Ele viveu no Brasil entre 1935 e 1939. Em 1936, o brasileiro Sérgio Buarque de Hollanda escrevia, em "Raízes do Brasil":

"A dignidade e importância que confere o título de doutor permitem ao indivíduo atravessar a existência com discreta compostura e, em alguns casos, podem libertá-lo da necessidade de uma caça incessante aos bens materiais, que subjuga e humilha a personalidade. Se nos dias atuais o nosso ambiente social já não permite que essa situação privilegiada se mantenha cabalmente e se o prestígio do bacharel é sobretudo uma reminiscência de condições de vida material que já não se reproduzem de modo pleno, o certo é que a maioria, entre nós, ainda parece pensar nesse particular pouco diversamente dos nossos avós. O que importa salientar aqui é que a origem da sedução exercida pelas carreiras liberais vincula-se estreitamente ao nosso apego quase exclusivo aos valores da personalidade. Daí, também, o fato de essa sedução sobreviver em um ambitente de vida material que já a comporta dificilmente. Não é outro, aliás, o motivo da ânsia pelos meios de vida definitivos, que dão segurança e estabilidade, exigindo, ao mesmo tempo, um mínimo de esforço pessoal, de aplicação e sujeição da personalidade, como sucede tão frequentermente com certos empregos públicos".

E o que é que o caso da Uniban tem a ver com isso?

Bom, pra mim pareceu mais ou menos claro que aquelas centenas de alunos não estavam lá para estudar. Se todo mundo podia sair da sala de aula pra chamar uma colega de puta, é porque isso era mais importante do que estudar. Se a faculdade acha que é mais importante expulsar a aluna saliente do que tomar medidas contra os alunos talibãs que mataram aula pra linchar moralmente a aluna saliente, é porque a faculdade não apenas sabe desse vezo como também o apoia - ao menos nesse caso, em que atribuiu a culpa do tumulto de centenas alunos a uma aluna só.

E como não apoiaria? É mais negócio perder uma mensalidade ou 700? O canudo está garantido lá no final. E, afinal, é ele que importa. Com o canudo na mão, ninguém vai chamá-los de burros como chamamos o presidente, não é?

Como eu falei no comentário da TV, mais dia menos dia esses caras estarão nas empresas e na política. Com seu senso de moral peculiar reforçado, porque até a faculdade lhes deu razão no caso, e toda a empáfia da cultura bacharelesca brasileira.

O problema do Brasil nunca foi a saia curta. É a orelha comprida.

por Marcelo Soares


Tags: cultura política, de gre-nais e outros demônios, moralismo de mão cabeluda, viagens na irrealidade cotidiana
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57 comentários
eu acho que na minha opinião ela foi muito safada
é discarada com esse vestido foda é brega ;)
lorrayne // 01.12.09 às 09h48
Voltei aqui para parabenizá-lo. E para explicar
um conceito que um cidadão como você deveria
saber. Saiba que uma causa(a meretriz xingada)
pode ser tão deleteria quanto seus efeitos(os
estudantes exaltados). Não tem sentido defender a
causa e nem seus efeitos. As circunstâncias já
se revelaram. Tudo surgiu de uma falta de caráter
e de uma vontade incessante de aparecer.
Inteligente a fulana, deve ter gastado apenas 20R$
naquele vestidinho vagabundo e o resto ficou por
conta dos que a defenderam. É respingo da
sociedade Judaico-Cristã que leva a vida num
eterno dualismo entre bem e o
luart // 14.11.09 às 01h38
Disse várias vezes e volto a repetir: a eventual falta de
noção da moça no portar-se não justifica o talibanismo
que se viu. A saliência de uma não justifica o linchamento
moral de algumas centenas. O desrespeito contra ela foi
imensamente maior do que qualquer desrespeito que ela possa
ter cometido, mesmo se tivesse andado pelada pela
faculdade.

Se ela estava sendo inconveniente, havia
jeitos mais civilizados de lidar com o problema do que tirar
a faculdade inteira da sala de aula pra chamá-la de puta.
Isso podia ser resolvido por vias administrativas, por
exemplo, com a direção convidando-a a voltar pra casa. Ao
contrário, a faculdade deixou o circo se avolumar até
chegar ao ponto em que chegou.

O problema do Brasil
nunca foi a saia curta. Foi e continua sendo a orelha
comprida.
Marcelo Soares // 14.11.09 às 02h43
Sem noção, otário. Utilizou muito mal o seu
espaço nesse Blog para defender a meretriz da
uniban. Espero que você esteja satisfeito com o
desfecho do caso, já que ela está convidada para
estrelar filmes de conteúdo adulto e posar para
as revistas masculinas baratas. Seus comentários
ridículos e piedosos ajudaram a promovê-la.
Parabéns, você conseguiu. Muito em breve a
baranga estará enfestando as bancas de todo
Brasil. Qual foi a sua comissão? Espero que te
sirva de lição para ocupar espaços como estes
para assuntos mais úteis e em defesa doque
realmente merece defesa. Exemp
luart // 14.11.09 às 01h25
Não, não ganhei comissão. Mas ganhei a satisfação de
abrir um debate interessante aqui nas caixas de
comentários. E não é pra isso que serve um blog,
enfim?

Acho ótimo que ela pose nua. Assim, os moralistas
de mão cabeluda poderão satisfazer seus instintos mais
primevos, comprando a revista pra dizer "vejam só que puta"
e levando a edição para o banheiro logo depois. Assim
podem aliviar a fúria moralista, talvez.

Eu faço uma
distinção entre filmes de conteúdo adulto e filmes
proibidos para menores. "O Sétimo Selo" é um filme de
conteúdo adulto. Os filmes a que você se refere são
proibidos para menores.

Mas, enfim, se ela vai posar ou
não, o problema (ou solução, sei lá) é dela. Não tem
cabimento, numa democracia, julgar os outros pelo seu senso
estético ou pelo que fazem na cama e com quem. É da conta
apenas de quem é convidado pra festa, e para muitas festas
eu não faço questão de ser convidado - portanto, não me
interessam.
Marcelo Soares // 14.11.09 às 02h45
Terminando: A discussão só não é mais
ridícula que a necessidade de fazê-la.
Pérola // 12.11.09 às 20h06
O episódio ilustra a inversão moral a que somos
de tempos em tempos submetidos. Ao condenar a
atidude da garota que se veste inadequadamente e
deixar impune a de uma multidão animalesca e sem
propósito, a Uniban expõe ao país uma imagem,
pelo menos, contraditória. Afinal, o
comportamento da moça teria sido mais inadequado
do que o de seus gentis colegas? Qual seria a
medida mais adequada de prevenção? Que tal
inspetores, antes restritos aos colégios, também
nas universidades, para vigiar o comprimento das
roupas das moças? A discussão só não é mais
ridícula que a necessidade
Pérola // 12.11.09 às 20h05
O episódio ilustra a inversão moral a que somos
de tempos em tempos submetidos. Ao condenar a
atidude da garota que se veste inadequadamente e
deixar impune a de uma multidão animalesca e sem
propósito, a Uniban expõe ao país uma imagem,
pelo menos, contraditória. Afinal, o
comportamento da moça teria sido mais inadequado
do que o de seus gentis colegas? Qual seria a
medida mais adequada de prevenção? Que tal
inspetores, antes restritos aos colégios, também
nas universidades, para vigiar o comprimento das
roupas das moças? A discussão só não é mais
ridícula que a necessidade
Pérola // 12.11.09 às 20h03
O episódio ilustra a inversão moral a que somos
de tempos em tempos submetidos. Ao condenar a
atidude da garota que se veste inadequadamente e
deixar impune a de uma multidão animalesca e sem
propósito, a Uniban expõe ao país uma imagem,
pelo menos, contraditória. Afinal, o
comportamento da moça teria sido mais inadequado
do que o de seus gentis colegas? Qual seria a
medida mais adequada de prevenção? Que tal
inspetores, antes restritos aos colégios, também
nas universidades, para vigiar o comprimento das
roupas das moças? A discussão só não é mais
ridícula que a necessidade
Pérola // 12.11.09 às 20h02
Atitude dessa forma quando se trata de
adultos,deve ser classificada como irracional!!!!
Reinaldo // 09.11.09 às 21h53
Atitude dessa forma quando se trata de
adultos,deve ser classificada como irracional!!!!
Reinaldo // 09.11.09 às 21h53
Atitude dessa forma quando se trata de
adultos,deve ser classificada como irracional!!!!
Reinaldo // 09.11.09 às 21h53
Não apenas quando se trata de adultos. Apenas fica mais
feio quando se trata de adultos. E fica ainda mais feio
quando é numa faculdade. E fica ainda pior quando é do
lado de dentro.
Marcelo Soares // 11.11.09 às 13h09
Atitude dessa forma quando se trata de
adultos,deve ser classificada como irracional!!!!
Reinaldo // 09.11.09 às 21h53
Atitude dessa forma quando se trata de
adultos,deve ser classificada como irracional!!!!
Reinaldo // 09.11.09 às 21h53
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h46
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h44
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h44
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
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Milena // 09.11.09 às 17h43
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
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Milena // 09.11.09 às 17h43
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h42
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h42
ótimo texto...é melhor perder 1 mensalidade do
que 700....disse tudo!!
Milena // 09.11.09 às 17h41
 
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