

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Qual é o limite entre música e incômodo? E o que a política tem a ver com isso?
Hoje, por mais de uma hora e meia, um carro de som de uma rádio ficou na minha rua vomitando música a todo volume. Ora, caso eu queira ouvir a rádio, eu sei ligar o rádio, botar um fone e girar o botão. Perguntei ao motorista se ele estava a fim de levar uma multa, e ele deu de ombros. Sua defesa era a mesma que os executores nazistas usaram quando julgados após a Segunda Guerra Mundial: apenas cumpria ordens.

Parti atrás de quem pudesse multar a rádio. Tava triste mesmo a coisa.
Primeiro a prefeitura, que incluiu na lei contra a poluição urbana provisões que salvaram nossos ouvidos das pamonhas de Piracicaba e dos morangos de Atibaia. Liguei pra lá (156) e tentei fazer uma denúncia. Não dava: além de o Programa de Silêncio Urbano (Psiu) só se referir à barulheira da noite, eles levam de 1 a 30 dias pra mandar um fiscal, e portanto a lei só se aplica a estabelecimentos que abusem da paciência dos vizinhos todo dia. Ou seja, a prefeitura é completamente inútil nesses casos. O que fazer? A mulher sugeriu ligar pro 190, da Polícia Militar.
Só que tem o seguinte: no Brasil existem leis municipais, estaduais e federais. Quem é encarregado de fazer cumprir uma não tem obrigação de fazer cumprir outra. Em parte por isso é que tem tanto buraco na rua: se o buraco foi feito pela empresa estadual de água, a prefeitura não aceita solicitações pra fechar. Assim, a Polícia Militar não tem entre suas atribuições ir atrás de traficantes internacionais de drogas (lei federal) nem fazer valer a lei contra poluição sonora (lei municipal).
No caso específico do carro de som, a polícia podia autuar os caras por perturbação do sossego. É o mesmo enrosco pra investigar e autuar, mas pelo menos um PM bater na janela do carro faz mais efeito do que eu chamar a atenção do motorista. E parece que deu resultado: minutos depois de eu ligar pra PM, parou o som.
Você já notou o quanto a música imposta pelos outros anda onipresente?
Música é um negócio muito legal, certamente. Mas o que pra mim é genial pode ser tortura pra você. É uma questão de respeito.
O Exército americano sacou isso há muito tempo, e usa a música em suas operações psicológicas (vulgo “psy-ops”). No filme “Apocalypse Now”, é clássica a cena em que o coronel Kilgore bota a Cavalgada das Valquírias nos helicópteros pra tocar o terror nos vietnamitas. Mais recentemente, há relatos de que acusados de terrorismo presos em Guantánamo foram forçados a ouvir a todo volume, por horas a fio, as mesmas músicas do Rage Against the Machine e do dinossauro roxo Barney. O Trent Reznor, do Nine Inch Nails, já protestou contra o uso de músicas da banda pra torturar gente.
Mesmo sua música favorita pode virar tortura se for imposta a você por outros, durante horas a fio. Mas quando é a dos outros é ainda pior. Há alguns anos, morei numa pensão ao lado de um bar cujo dono se apaixonou pela música “Morango no Nordeste”. Todo sábado ele punha pra tocar no repeat, a todo volume. Um conhecido meu certa vez constrangeu sua ex-mulher e a mulher atual ao tocar num churrasco, no repeat e a todo volume, um pagode que diz “tô fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser pra sempre seu”.
No supermercado, tem a seleção da casa. No elevador, idem. Até pra tomar uma cerveja a gente está exposto aos mesmos sucessos de trilha de novela impostos pela Ordem Universal Acústica dos Tocadores de Violão de Boteco. (Antes de vir pra MTV, meu xará Marcelo Adnet fez uma participação no programa “Cilada” sobre as roubadas dos barzinhos. Ele dizia: “Muito bem bolado! O cara já tocou QUATRO do Jorge Vercilo!”)
No ônibus, sempre aparece um deserdado da noção com o celular tocando música no alto-falante. Aliás, o cara que inventou o alto-falante de celular bem que merecia ouvir “Morango no Nordeste” em Guantánamo. Por um tempo, andei com fones baratinhos na mochila pra dar de presente. Depois desisti: tenho barba e pança, mas não tenho saco pra fazer papel de Papai Noel.
E os políticos com isso?
Ora, são eles que permitem ou deixam de permitir qualquer coisa que interfira no espaço público. A função básica da política é criar as regras básicas de convívio entre seres humanos. Faz tanto tempo que a política pela política seqüestrou essa função que a gente até esquece dela.
O principal problema, no meu ponto de vista, é que com essa fragmentação toda a gente fica sem ter pra quem reclamar eficientemente. E aí, o pessoal faz o que quer mesmo. Assim como os políticos continuam fazendo o que bem-entendem se sabem que a gente não está de olho.














