"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Tá rolando pela internet uma campanha supostamente bem-sacada, chamada "Não Reeleja Ninguém". Muita gente bem-intencionada está achando o máximo e sai divulgando.Segundo o logo da campanha, não reeleger nenhum dos congressistas atualmente no poder é "o único jeito democrático de moralizar e dar dignidade ao Congresso brasileiro". Mas essa campanha é de uma burrice atroz.
É fato que boa parte dos caras que estão no Congresso hoje empenha seus melhores esforços para desmoralizar sua atividade.
É fato que o melhor jeito de tirar o doce da boca desses caras é não os reelegendo.
Por que, então, eu acho a campanha burra?
Simples: porque ela não leva em conta o nada desprezível papel do ambiente onde suas excelências campeiam.
Quem entra numa instituição responde aos incentivos que ela oferece. Tem cota liberada de passagens? Até os mais críticos dos maus costumes parlamentares acabam usando pra mandar filha pro exterior, tipo o Fernando Gabeira. Tem vários cargos à disposição? Todo mundo nomeia muita gente. Tem verba indenizatória à mão? O pessoal embolsa cada centavo dela, numa proporção cosmicamente improvável, segundo as contas do mestre Claudio Weber Abramo, matemático e combatente da corrupção. Os diretores do Senado se perpetuam no poder.
Essas coisas só mudam a partir do momento em que eles sabem que estão sendo vigiados pela opinião pública, para a qual sua excelência Sérgio Moraes diz se lixar.
Durante décadas, o poder se acostumou ao seguinte estado de coisas: o sujeito se elege e passa quatro anos em Brasília fazendo o que bem-entende, porque dificilmente tem alguém pra cobrar. O que se fazia na sede do poder, confortavelmente instalada no interior de Goiás, só chegava ao conhecimento dos cidadãos no resto do Brasil em dois casos: o anunciado e algum acidente.
Dependia apenas da imprensa para o cidadão saber como se comportavam seus representantes eleitos, e a imprensa sempre cobre basicamente os mais proeminentes. Porque não dá pra cobrir tudo o que fazem os 513 deputados e 81 senadores.
Quando a informação era analógica, em 1988, para saber como um deputado votou em determinados aspectos da Constituição meu amigo Sérgio Gomes precisou contratar um estagiário e mandá-lo a Brasília para acompanhar todas as votações e marcar em folhas de papel a forma como cada constituinte votou. Isso dava um trabalho do cão.
Hoje, qualquer um pode ter acesso imediatamente às votações pela internet. O projeto Excelências, da Transparência Brasil, seleciona algumas votações e mostra como cada deputado votou, ao lado de outras informações sobre eles - incluindo os processos a que respondem.
Até 2003, os gastos de verba de gabinete dos deputados ficavam completamente fora dos olhos do cidadão. Até 2006, as declarações de bens entregues pelos políticos à Justiça Eleitoral não eram divulgadas. Até 2008, os gastos de verba de gabinete dos senadores eram uma informação usada apenas como chantagem de bastidor. Até 2009, as verbas indenizatórias informadas pelos deputados não precisavam apresentar as notas. Agora, depois do escândalo das passagens, isso também vai estar disponível para todo mundo ver.
Cada vez existe mais informação disponível sobre como suas excelências trabalham. Quanto mais informação fica disponível, mais demanda por informação passa a existir. É natural - e irreversível, a menos que haja um retrocesso feio.
Suas excelências estão sentindo isso. Nunca antes eles foram tão vigiados, e o desconforto com isso se traduz em discursos como o do deputado que não aguenta ser desafiado o tempo inteiro. Eles estavam acostumados a fazerem o que quisessem sem ninguém saber. Até porque muitos brasileiros não costumam lembrar sequer em quem votaram.
Se você está descontente com os políticos que têm mandato, é do jogo democrático votar em um candidato novo. Não faz mal nenhum. A Câmara já costuma ter uma boa taxa de renovação - em 2006, 47,6% dos deputados federais eleitos não tinham mandato federal quando se candidataram.Nem por isso, a qualidade do serviço prestado pela Câmara melhorou 47,6%.
Mas aí tem duas questões:
1) Em quem você vai votar? Você conhece o candidato em quem está votando ou vai votar "no mais engraçado", "no mais bonito", "no mais famoso"? Quando foi eleito, com um milhão e meio de votos, Enéas era um novato no Legislativo. Com sua grande votação, levou em seu vácuo mais cinco novatos de poucos votos para dentro da Câmara. Quatro deles foram acusados no escândalo dos Sanguessugas.
2) Beleza, você não reelege ninguém. Ótimo. Mas aí, pra poupar tempo de se informar, você vota no primeiro que aparece, esquece em quem votou e deixa o cara lá durante quatro anos fazendo o que bem entende, sem você ficar de olho. A merda será exatamente a mesma, só mudarão as moscas.
O "não reeleja ninguém" é uma proposição simples demais pra funcionar direito. Simplória, eu diria. Parece uma bala de prata - que, como vimos outro dia, é um instrumento que só tem poderes mágicos na ficção.
Se tem alguma coisa que pode resolver o problema do Congresso atual, não será tirar todo mundo de lá por tirar todo mundo de lá. Tem que mudar os incentivos a que eles respondem. E a sua inação tem muito a ver com esses incentivos.
Você pode fazer sua parte pra mudar esses incentivos, fiscalizando desde já quem já está no poder. E, quando eles forem pedir seu voto de novo, você vai saber exatamente por que eles não o merecem. Quando entrar um novo, você também poderá acostumá-lo desde o começo com esse bafo na nuca, pra evitar que ele se lixe.




















