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"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.

Saiba por que a campanha "Não Reeleja Ninguém" é de uma burrice atroz

20/05/2009 - 12:05

Tá rolando pela internet uma campanha supostamente bem-sacada, chamada "Não Reeleja Ninguém". Muita gente bem-intencionada está achando o máximo e sai divulgando.Segundo o logo da campanha, não reeleger nenhum dos congressistas atualmente no poder é "o único jeito democrático de moralizar e dar dignidade ao Congresso brasileiro". Mas essa campanha é de uma burrice atroz.

É fato que boa parte dos caras que estão no Congresso hoje empenha seus melhores esforços para desmoralizar sua atividade.

É fato que o melhor jeito de tirar o doce da boca desses caras é não os reelegendo.

Por que, então, eu acho a campanha burra?

Simples: porque ela não leva em conta o nada desprezível papel do ambiente onde suas excelências campeiam.

Quem entra numa instituição responde aos incentivos que ela oferece. Tem cota liberada de passagens? Até os mais críticos dos maus costumes parlamentares acabam usando pra mandar filha pro exterior, tipo o Fernando Gabeira. Tem vários cargos à disposição? Todo mundo nomeia muita gente. Tem verba indenizatória à mão? O pessoal embolsa cada centavo dela, numa proporção cosmicamente improvável, segundo as contas do mestre Claudio Weber Abramo, matemático e combatente da corrupção. Os diretores do Senado se perpetuam no poder.

Essas coisas só mudam a partir do momento em que eles sabem que estão sendo vigiados pela opinião pública, para a qual sua excelência Sérgio Moraes diz se lixar.

Durante décadas, o poder se acostumou ao seguinte estado de coisas: o sujeito se elege e passa quatro anos em Brasília fazendo o que bem-entende, porque dificilmente tem alguém pra cobrar. O que se fazia na sede do poder, confortavelmente instalada no interior de Goiás, só chegava ao conhecimento dos cidadãos no resto do Brasil em dois casos: o anunciado e algum acidente.

Dependia apenas da imprensa para o cidadão saber como se comportavam seus representantes eleitos, e a imprensa sempre cobre basicamente os mais proeminentes. Porque não dá pra cobrir tudo o que fazem os 513 deputados e 81 senadores.

Quando a informação era analógica, em 1988, para saber como um deputado votou em determinados aspectos da Constituição meu amigo Sérgio Gomes precisou contratar um estagiário e mandá-lo a Brasília para acompanhar todas as votações e marcar em folhas de papel a forma como cada constituinte votou. Isso dava um trabalho do cão.

Hoje, qualquer um pode ter acesso imediatamente às votações pela internet. O projeto Excelências, da Transparência Brasil, seleciona algumas votações e mostra como cada deputado votou, ao lado de outras informações sobre eles - incluindo os processos a que respondem.

Até 2003, os gastos de verba de gabinete dos deputados ficavam completamente fora dos olhos do cidadão. Até 2006, as declarações de bens entregues pelos políticos à Justiça Eleitoral não eram divulgadas. Até 2008, os gastos de verba de gabinete dos senadores eram uma informação usada apenas como chantagem de bastidor. Até 2009, as verbas indenizatórias informadas pelos deputados não precisavam apresentar as notas. Agora, depois do escândalo das passagens, isso também vai estar disponível para todo mundo ver.

Cada vez existe mais informação disponível sobre como suas excelências trabalham. Quanto mais informação fica disponível, mais demanda por informação passa a existir. É natural - e irreversível, a menos que haja um retrocesso feio.

Suas excelências estão sentindo isso. Nunca antes eles foram tão vigiados, e o desconforto com isso se traduz em discursos como o do deputado que não aguenta ser desafiado o tempo inteiro. Eles estavam acostumados a fazerem o que quisessem sem ninguém saber. Até porque muitos brasileiros não costumam lembrar sequer em quem votaram.

Se você está descontente com os políticos que têm mandato, é do jogo democrático votar em um candidato novo. Não faz mal nenhum. A Câmara já costuma ter uma boa taxa de renovação - em 2006, 47,6% dos deputados federais eleitos não tinham mandato federal quando se candidataram.Nem por isso, a qualidade do serviço prestado pela Câmara melhorou 47,6%.

Mas aí tem duas questões:

1) Em quem você vai votar? Você conhece o candidato em quem está votando ou vai votar "no mais engraçado", "no mais bonito", "no mais famoso"? Quando foi eleito, com um milhão e meio de votos, Enéas era um novato no Legislativo. Com sua grande votação, levou em seu vácuo mais cinco novatos de poucos votos para dentro da Câmara. Quatro deles foram acusados no escândalo dos Sanguessugas.

2) Beleza, você não reelege ninguém. Ótimo. Mas aí, pra poupar tempo de se informar, você vota no primeiro que aparece, esquece em quem votou e deixa o cara lá durante quatro anos fazendo o que bem entende, sem você ficar de olho. A merda será exatamente a mesma, só mudarão as moscas.

O "não reeleja ninguém" é uma proposição simples demais pra funcionar direito. Simplória, eu diria. Parece uma bala de prata - que, como vimos outro dia, é um instrumento que só tem poderes mágicos na ficção.

Se tem alguma coisa que pode resolver o problema do Congresso atual, não será tirar todo mundo de lá por tirar todo mundo de lá. Tem que mudar os incentivos a que eles respondem. E a sua inação tem muito a ver com esses incentivos.

Você pode fazer sua parte pra mudar esses incentivos, fiscalizando desde já quem já está no poder. E, quando eles forem pedir seu voto de novo, você vai saber exatamente por que eles não o merecem. Quando entrar um novo, você também poderá acostumá-lo desde o começo com esse bafo na nuca, pra evitar que ele se lixe.

por Marcelo Soares


Tags: cultura política, de olho em 2010, gente que não presta, não reeleja ninguém?
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59 comentários
Lembrem-se, solicitem o ADESIVO GRATUITAMENTE NO
SITE HTTP://WWW.VAMOSRENOVAR.COM.BR
Rodrigo // 06.11.09 às 22h24
Vejam o site http://www.vamosrenovar.com.br
Estamos distribuindo os ADESIVOS Não Reeleja
Ningume GRATUITAMENTE. Conheçam o projeto e
façam a Adesão. Temos que tirar os caras que
mantêm os esquemas, ou seja, aqueles que sempre
ficam... abraços
Rodrigo // 06.11.09 às 22h22
Achei seu comentário um tanto "besta".
Soou
assim: "Eles roubam, mas, outros que vierem
também vão roubar...Deixem os meninos lá e
vamos mudar o assunto!!!"

Caso você não saiba,
o povo (EU) estamos cansados desse discursos
demagógicos (de despotas) desta farça
democrática que existe no Brasil.

Apoio a
campanha. Só assim para acabar com os vícios que
existem na política brasileira!!!

POR FAVOR..
NÃO REELEJAM NINGUÉM!!!
Cyssu // 19.10.09 às 18h33
Para resolver o simplório "problema" apontado no
texto, bastaria adicionar uma frase à campanha:
"Não reeleja ninguém, e vote com
consciência.

A campanha é boa.
Bigus Digus // 01.10.09 às 13h23
ok, vc nao concorda, entao a solucao é
"fiscalizar quem esta no poder"? Vc acha que TUDO
o que eles fazem e roubam é declarado? A campanha
pode nao ser a ideal, mas é a melhor que vi ate
agora. Pelo menos garantimos que os ladroes sao
outros e nao os mesmos há décadas... O ideal
para mim? O voto deixar de ser obrigatorio
Mse // 22.09.09 às 13h19
Você viajou cara, a campanha é boa, não é a
solução mas é boa, principalmente vendo o lado
da maioria da população do Brasil. Não olhe as
coisas apenas com a sua visão, isto também é
Burrice.
JW // 21.09.09 às 20h02
Eu vejo essa campanha apenas como o primeiro passo
de uma jornada. Não reelejendo ninguém é uma
forma de mostrar que temos força para começar a
mudar o país.
pirata // 18.09.09 às 17h47
Mas se a maioria dos votos fossem nulos, o que
aconteceria?? não seria uma forma de protesto da
população?? tente você enviar email para
qualquer deputado....qual deles responderia
primeiro seu email de descontentamento com as
atitudes deles...os assessores filtram os emails e
respondem somente o que for de conveniência.
Aldo Almeida // 14.09.09 às 12h07
ola amigo... eu concordo com suas colocações,
porém precisamos começar pelo básico,
tratamento de choque. esta campanha nao alcançara
o objetivo é óbvio, mas qualifica-la como burra
nao é justo. todas as pessoas mais politizadas
tem os mesmos anseios , nao duvide disto. NAO DÁ
PRA COMEÇAR PELO MAIS DIFICIL ENTENDE? Precisamos
de um ponto de partida que seja de facil
entendimento e assimilação para depois partirmos
pra campanhas com maior complexidade . O
interessante neste momento é incentivar a
conscientizacao e indignacao das pessoas. Pense
nisto com calmo. Grande abraço e estamos juntos.
Custodio // 03.09.09 às 11h09
acho que essa campanha é uma boa ideia,agora é
só ficar de olho,pois se a campanha pegar,veremos
quais as artimanhas desses bandidos de
gravata(digo politicos profissionais)para se safar
dessa,terão que inventar uma nova emenda,para se
proteger e não perder a boquinha,fiquem atentos.
Gerson // 30.08.09 às 18h42
Concordo em parte com vc, Marcelo.
Porém acho
mais burrice ainda não fazer nada e deixá-los
pensar que a sociedade não os fiscaliza.
Para
que saibam que estão sendo fiscalizados, devem
ter o MEDO de não se reelegerem, tomarem vergonha
na cara e passarem a trabalhar em prol da
sociedade, que foi quem os colocou lá.
Você,
sendo uma pessoa inteligente, sabe que quando um
trabalhador de empresa privada erra e é pego, ele
redobra sua atenção no trabalho, pq sabe que se
errar de novo corre o sério risco de
demissão.
Do mesmo modo com "eles": se errarem,
não o façam de novo, senão RUA.
Beto // 22.08.09 às 09h01
Não reeleger ninguém pode até não mudar as
coisas. Como você disse, poderemos apenas trocar
as moscas. Mas devemos nos lembrar que em nosso
país, apenas uma minoria tem acesso a todas essas
informações. A maior parte dos brasileiros, por
mais que tenham TV e rádio, por exemplo, não
conseguem compreender a notícia. Portanto,
conscientizar politicamente a população leva
tempo. Sendo assim, acho totalmente aceitável a
ideia de mobilizar a população em torno de uma
ideia como esta. Se não mudar as coisas, pelo
menos servirá de alerta, inclusive, para mudar as
regras do jogo.
Leonardo Arromba // 21.08.09 às 10h48
Não reeleger ninguém pode até não mudar as
coisas. Como você disse, poderemos apenas trocar
as moscas. Mas devemos nos lembrar que em nosso
país, apenas uma minoria tem acesso a todas essas
informações. A maior parte dos brasileiros, por
mais que tenham TV e rádio, por exemplo, não
conseguem compreender a notícia. Portanto,
conscientizar politicamente a população leva
tempo. Sendo assim, acho totalmente aceitável a
ideia de mobilizar a população em torno de uma
ideia como esta. Se não mudar as coisas, pelo
menos servirá de alerta, inclusive, para mudar as
regras do jogo.
Leonardo Arromba // 21.08.09 às 10h48
Marcelo, deputados e senadores têm um único
objetivo quando toman posse: se reeleger. Por
isso, se realmente nin´guém for reeleito, iso
será um sinal de que, se não houver mudanças
novamente haverá renovação total. Esse é o
caminho. Você dizer que o Enéas era novato e que
eleger um novo sem saber quem é vai dar no mesmo,
me desculpe, mas isso é burrice. Uma cois anada
tem a ver com a outra. Não reeleja ninguém, mas
procure eleger o melhor.
Carlos Micieli // 14.08.09 às 09h15
Nossa esse Marcelo é um lunatico
Realista // 11.08.09 às 17h51
Você tem razão, mas do jeito que a coisa ficou,
só uma ação radical pra assustar os caras. Pra
verem que a gente consegue se unir em torno de uma
idéia. Eu acredito que uma ação inicial radical
vai gerar debates e outras ações, inclusive as
que você propõe.
Cícero Toledo // 11.08.09 às 01h15
Concordo com tudo que você falou, pode ser uma
burrice esta iniciativa, mas neste país de merda
onde ninguém esta ai pra nada, muito menos
fiscalizar, cobrar e protestar alguma coisa, pelo
menos quando agente começa ver uma ação mesmo
burra, seria melhor incentivar, pois pode ser a
unica. Um abração Paulo R Blue
Paulo // 30.07.09 às 08h55
Não apenas discordo que a campanha seja burra,
como você mesmo me deu duas boas razões para
apoiá-la: "Os diretores do Senado se perpetuam no
poder": fora com eles! "(...) coisas só mudam
[quando] eles sabem que estão sendo vigiados pela
opinião pública (...)": há demonstração maior
de vigilância pública que a não-reeleição?
Duvido!

No mínimo a campanha vai reforçar nos
políticos em geral o conceito de que eles são
nossos empregados, com salários pagos por nós, e
que, por isso, podemos tirá-los de lá a qualquer
momento (ou a cada 4 anos, que
seja).

[]s
Reccanello
Reccanello // 30.07.09 às 08h40
Acredito que seja uma campanha válida como modo
de alerta, útil para chamar a atenção. De
qualquer forma, alterações na classe política
brasileira, demorará muito a ocorrer. Somente de
modo organizado pode-se influenciar para que
mudanças ocorram. Moralizar é utópico, pois
poderia ser resolvido com seriedade, mudando-se as
regras que possibilitam o uso de verbas de modo
inadequado. Os políticos devem viver somente com
seus salários, se quiserem escritórios, que
paguem com o próprio dinheiro para mantê-lo.
Entendo que se tornar político deveria ser por
patriotismo e não para enriquecimento.
Luciano Peres // 08.07.09 às 20h06
Seus motivos não me convenceram de que a campanha
seja burra, acho que a mudança proposta pela
campanha daria uma sacudida na política do nosso
país. Fiscalizar como? Como por isso em prática?
Isso é utópico.

Mudando, seja para quem for,
daríamos o recado que o poder está nas nossas
mãos, o problema é convencer os milhões de
brasileiros que estão satisfeitos e acomodados
com uma "bolsa esmola".

Infelizmente não acho
que esta campanha trará resultados devido a falta
de senso crítico do povo brasileiro. Estamos
fadados aos "Sarneys" da vida.
Tarcísio // 04.07.09 às 11h57
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