

"E Você Com Isso?" é o blog de Marcelo Soares, jornalista que escancara os bastidores e absurdos da "gloriosa" política nacional.
Há três anos, o medo dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) parou São Paulo por dois dias. Na sexta-feira que antecedeu o Dia das Mães, criminosos se rebelaram nas prisões e atiraram contra policiais e agentes penitenciários de folga. Lembro da tensão naquela manhã e da boataria à tarde. "Eles vão atirar em quem estiver com as lojas abertas!", diziam alguns. Lembro da tranqueira dos megaengarrafamentos no final da tarde, quando todo mundo queria chegar logo em casa pra não tomar tiros que nunca houveram. E lembro do silêncio da madrugada, cortado apenas pelas sirenes.
Os 10 dias em que o PCC parou e depois perturbou São Paulo, há três anos, custaram diretamente R$ 722.404,54 aos cofres públicos. O dado vem de análise que eu fiz a partir dos gastos das secretarias de Segurança Pública e Administração Penitenciária entre 12 e 21 de maio de 2006. (Veja minha planilha aqui.)
No ano passado, em meio ao escândalo dos cartões corporativos do governo federal, o governo de São Paulo colocou os dados do cartão corporativo estadual na internet - só que em PDF, um formatinho inanalisável. Eu, como tenho as manhas, converti para Excel e separei os gastos dessas duas secretarias naqueles dias. Tem coisas interessantes ali. Por exemplo: naqueles dias, as duas secretarias gastaram R$ 85.772,71 com combustível. Agentes delas sacaram R$ 422.680,85 em dinheiro vivo.
Só no primeiro dia, a preços de hoje, as duas secretarias abasteceram 8.616 litros de diesel (18.817 litros nos 10 dias), 1.030 litros de álcool (5.962 litros nos 10 dias) e 547 litros de gasolina (14.240 litros nos 10 dias). Os nomes dos postos estão lá - e eu fico imaginando, por exemplo, como estavam os policiais que abasteceram R$ 6 mil em diesel, ou 2.820 litros a preços de hoje, no dia 12, no posto Matrinxã, na estrada que vai para Carapicuíba. Quantas viaturas seriam? E quantas seriam as que abasteceram R$ 8 mil em gasolina, ou 3.378 litros a preços de hoje, no posto Dila, no Guarujá?
Logo depois da correria, o terror. Ônibus queimados. Vários assassinatos, supostamente de criminosos (muitos sem folha corrida alguma). A polícia dava um número, os IMLs recolhiam outro muito maior. No final, deu 170 mortos. Corria o boato de que, em certas áreas da cidade, se você estivesse na rua na hora errada e portando a cor da pele errada, poderia ser morto. Nunca esqueço de uma matéria da Folha em que a repórter entrevistou um cara da perifa perguntando se ele não tinha medo de ser atacado pelo PCC. Ele responde que do PCC ele não tinha medo, porque todo mundo que o PCC matou era quem eles queriam matar mesmo. Tinha medo era da polícia, que matou sem saber se era ou não quem eles queriam.
Os saques em dinheiro vivo, justificados como "operação policial", "diárias" ou outros itens, foram crescendo ao longo dos dias:
R$ 56.278,76 no dia 12 (10 mortes);
R$ 62.493,16 no dia 15 (117 mortes);
R$ 104.847,22 no dia 16 (89 mortes);
R$ 81.443,41 no dia 17 (62 mortes);
R$ 24.171,12 no dia 18 (51 mortes);
R$ 93.447,18 no dia 19 (14 mortes).
Muita coisa daqueles dias ficou nebulosa e dificilmente será esclarecida. Há interesses políticos nisso - que também dificilmente serão esclarecidos. Tão mal esclarecidos quanto 33 dos 54 atentados cometidos contra civis entre 12 e 21 de maio de 2006, supostamente por policiais a serviço ou de folga. Segundo a Folha, as investigações desses casos foram encerradas sem que fossem resolvidas. Provavelmente nunca serão. Até porque provas importantes sumiram, como revelou o Estadão em 2007:
Um apagão nos gravadores do Centro de Operações da Policia Militar (Copom) sumiu com provas importantes para a apuração dos 104 casos de pessoas mortas por policiais durante a reação aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em 2006. Segundo a PM, os gravadores responsáveis pelos registros das comunicações do centro com os carros da PM entraram em pane, coincidentemente, ao mesmo tempo que o aparelho restaurador de fitas, o Data Digital Storage (DDS), também apresentou problemas técnicos, não ''permitindo restaurar as comunicações''.
Mas também tenho ótimas lembranças daqueles dias: foi ali que um amigo argentino me ligou, convidando para fazer minha primeira reportagem para o Los Angeles Times (com byline na capa e tudo): Inmates unleash torrent of violence on Brazilian city







