HQ+ é o blog de J.M.Trevisan, ex-editor das revistas Dragão Brasil e Dragon Slayer, co-autor do RPG Tormenta, co-criador dos personagens do mangá Holy Avenger. Aqui ele fala sobre História em Quadrinhos, RPG e o que mais for relacionado ao tema. Siga o Trevisan no Twitter: @drcareca

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Porque Alan Moore é Foda!

18/11/2009 20:55:37

Hoje é aniversário de Alan Moore, considerado pela maioria dos fãs como o maior roteirista de quadrinhos de todos os tempos. Apesar da cara bizarra e do aparente mau-humor, todo mundo adora e cultua o senhor britânico.

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Até aí, beleza. Mas a questão é: alguém sabe dizer porque o cara é foda, sem apelar para o tradicional “Porra, ele escreveu Watchmen!”?

Se você não sabe, preste atenção. Aqui vão cinco motivos que explicam porque Alan Moore devia ser presidente do mundo:

 

Moore recusou crédito nos filmes baseados em sua obra – E aí alguém grita lá do fundo: “Tá louco, Trevisan? Essa foi a coisa mais escrota que o cara já fez”. E eu respondo: Não foi não, pequeno gafanhoto. Vamos começar pelo que não presta mesmo: A Liga Extraordinária.

É o velho caso de “alguém teve uma idéia muito legal que daria um belo filme, mas se a gente copiar vamos ser processados, então é melhor pagar o cara logo de uma vez”. Além da idéia base (personagens vitorianos se juntam para combater o mal) não tem nada ali que se pareça com o que o Moore fez. Ele não assinou e eu também não assinaria.

Em V de Vingança há várias mudanças, mas uma em particular tira substancialmente o peso da obra e justifica a birra do Sr. Moore. No quadrinho há um confronto ideológico entre ditadura e anarquia. No filme a briga é entre ditadura e democracia, em particular com a tal cena da multidão vestindo a máscara do V. Se você faz uma obra que é essencialmente de cunho político e alguém muda o teor da coisa, perde o sentido.

E aí temos Watchmen (que eu gostei, antes que alguém me atire uma dúzia de pedras). Em um texto chamado On Writing For Comics, de 1988, Moore fala sobre o processo de criar quadrinhos e ressalta duas coisas: a) o ramo dos quadrinhos precisa ser mais do que simplesmente o primo pobre da Sétima Arte e b) os quadrinhistas precisam parar de tentar copiar as técnicas do cinema nos quadrinhos e se concentrar no que só as HQs podem reproduzir. Watchmen representa a aplicação prática dessa teoria. Pensando desta forma – e provavelmente é este o raciocínio do Moore – não importa se o filme funciona ou não, se Zack Snyder fez um bom trabalho ou não: do ponto de vista artístico e levando em conta o que Alan Moore acha que os quadrinhos deveriam ser (um tipo de obra valorizado por si só, sem depender da validação do cinema para alcançar o grande público), Watchmen jamais deveria ter sido filmado.

 

Moore nunca teve medo de arriscar – Alguns roteiristas ou escritores encontram um estilo ou nicho em que se sentem confortáveise empacam por ali. Moore nunca foi desse tipo. Depois de explodir na América, teve uma fase independente em que fundou sua própria editora, a Mad Love. Entre outras colaborações, embarcou na produção da maxi-série Big Numbers, sobre a vida de uma cidadezinha e a teoria do caos, mas o projeto não engrenou e jamais foi finalizado.

Nos anos 00, publicou seu selo America’s Best Comics pela Wildstorm, revisitou o gênero pulp e falou de misticismo e cabala. Também criou a Liga dos Cavalheiros Extraordinários e transformou um personagem tosco de Rob Liefeld (Supremo) em uma sincera homenagem à Era de Prata do Super-Homem. Mais recentemente, concluiu Lost Girls, uma HQ erótica que explora a vida sexual de três personagens da literatura infanto juvenil: Alice (Alice no País das Maravilhas), Wendy (Peter Pan) e Dorothy (O Mágico de Oz).

Seus atuais projetos incluem participação na produção de uma ópera com a dupla Damon Albarn e Jamie Hewlett (os reponsáveis pelo Gorillaz) e um fanzine de temas variados, chamado Dodgem Logic, que – de acordo com o site de sua filha Leah Moore e do genro John Rippion – custará duas libras e meia: “Tão barata e bonita quanto uma prostituta adolescente de arrasar corações”.

 

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Moore escreveu a última história do Super-Homem – No meio da década de 80, a DC resolveu que era hora de arrumar a casa e botar ordem na zona que era a cronologia da editora. O resultado foi a maxi-mega-série, Crise nas Infinitas Terras (Marv Wolfman, George Pérez). Na prática, depois do evento cataclísmico, o multiverso iria para as cucuias, as origens de todos os principais personagens seriam recontadas e tudo o que aconteceu antes – Era de Ouro e Era de Prata inclusas – seria desconsiderado. Nesse rolo também estava o Super-Homem, que teria sua reformulação capitaneada pelo então super-star, John Byrne.

Para não jogar décadas de histórias clássicas no lixo e ao mesmo tempo homenagear a velha-guarda que ainda trabalhava na revista do Homem de Aço, a editora resolveu fazer uma última edição pré-crise. Um epílogo para Kal-El. Um último épico contando seus últimos dias. O resultado foi “O Que Aconteceu com o Homem de Aço?”, escrita por Moore.

Com a colaboração do lendário desenhista Curt Swan, do editor Julius Schwartz e de George Pérez na arte-final, Moore nos deu não só uma história simples, sensível e ao mesmo tempo fantástica, mas também um vislumbre de uma era dos quadrinhos que jamais retornará.

 

Moore foi o mentor de Neil Gaiman – Como muita gente, Gaiman foi apaixonado por quadrinhos quando criança, depois desencanou e acabou trabalhando como jornalista (escreveu até uma biografia do Duran Duran, aquela banda do tempo do seu pai). Até que um dia, quando esperava o trem, deu de cara com uma edição de Monstro do Pântano escrita justamente por quem? Exato. Alan Moore.

O barbudo já teria feito um enorme bem para a humanidade sem nem saber, se a coisa tivesse parado por aí. Mas não parou.

Na época, Gaiman resolveu enviar uma cópia de um de seus livros (Ghasltly Beyond Belief: The Science Fiction and Fantasy Book Quotation, co-escrito com Kim Newman) anexando uma nota que – como ele conta em uma entrevista no livro Sandman Companion (de Hy Bender) – dizia o seguinte: “Você me proporcionou diversão em enormes quantidades, te acho fantástico e aqui está algo que eu fiz. Espero que goste". Gaiman complementa, “Alan me ligou uma semana depois, dizendo ‘Seu bastardo! Perdi uma tarde inteira de trabalho lendo o seu livro!’. A partir daí passamos a nos falar por telefone”.

Oito meses depois os dois se encontraram. Gaiman estava curioso sobre como funcionava o processo de se escrever um roteiro e Moore mostrou a ele como estruturar uma história em quadrinhos, chegando a analisar as primeiras tentativas do pupilo. Ou seja: se Sandman existe, parte da culpa é de Moore.

 

Moore é devoto de um deus-cobra – Que, por sinal, nem ele tem certeza que existe. O bicho se chama Glycon e, de acordo com a wikipedia (porque, sinceramente, me recuso a pesquisar mais que isso), era cultuado pelos macedônios. Em um vídeo, Moore o descreve como “Irresistível, com seu corpo de serpente e uma cabeça como a de Paris Hilton”. Uma bobagem sem tamanho? Bem provável. Mas tem que ser muito foda para declarar esse tipo de coisa em público e ainda mais foda para continuar sendo respeitado depois disso.

postado por JMTrevisan