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Um passeio pelo universo musical de Robert Crumb

17/08/2009 17:00:34

Quando decidi abordar a relação entre Robert Crumb e música, pensei: moleza, o cara é meu cartunista preferido, tem tudo a ver com música e vai render um post gostoso.
E está aí o grande problema: a música está tão presente na obra e na vida de Crumb, que o post ia render até demais. Então, em nome de um texto menos tese de mestrado e mais post de blog, vou tentar sintetizar este assunto.
Espero que os fãs de R. Crumb me perdoem por deixar algumas informações de lado.

Robert Crumb é, sem sombra de dúvida, o melhor cartunista vivo.
Antes de ser famoso e excêntrico era só um garoto estranho e deslocado.
A mãe, esquizofrênica e viciada em pílulas para emagrecer; o pai, ex-fuzileiro naval violento que escrevia livros de motivação profissional.
Robert e seus irmãos Maxon e Charles passaram a depressiva infância e juventude desenhando compulsivamente quadrinhos até que, em 1960, Robert se mudou para Cleveland e assumiu um emprego na American Grettings Corporation.

Em Cleveland, o gosto musical de R. Crumb amadureceu e sua obsessão por discos antigos de 78 rotações foi tomando forma.
Lá, Robert conheceu alguns entusiastas de discos. Entre eles Harvey Pekar e Bob Armstrong.
Esse encontro musical, posteriormente, se transformou numa maravilhosa parceria para os amantes de HQ. Robert Crumb e Bob Armstrong foram os grandes incentivadores do roteirista Harvey Pekar e os primeiros a ilustrar suas histórias. Assim surgiu a revista American Splendor, uma HQ autoral onde Pekar, um rabugento arquivista de um hospital e comprador compulsivo de discos antigos de Jazz, contava histórias baseadas no seu dia-a-dia na decadente Cleveland.

Em 1967, Robert Crumb mudou-se para São Francisco, onde ingressou no mundo dos quadrinhos undergrounds e tentou se adaptar ao meio.
Porém, Crumb não conseguia mimetizar-se entre a fauna florida que tomava conta da Califórnia nos anos 60 e 70.

Em São Francisco, Crumb conheceu Terry Zwigoff, também colecionador e aficionado por Blues antigo. Zwigoff juntou-se à banda de Crumb, a R. Crumb & His Cheap Suit Serenaders, e posteriormente fez o documentário Crumb.
Crumb, em depoimentos para Terry Zwigoff em sua cinebiografia, assume que tentou se integrar à geração paz e amor para usufruir um pouco do tão difundido “amor livre” e se inserir no mercado underground de quadrinhos da época, que, segundo ele, publicava qualquer coisa que tivesse a ver com experiências com ácido.
E, em nome da nona arte, lá foi Crumb ter suas experiências lisérgicas. E, como previsto, além das portas da percepção, as portas das editoras undergrounds da época se abriram para a sua arte.

Ele não era um doidão hippie com tendências artistas. Era um artista compulsivo que buscava seu nicho.
E, com a fama, vieram as tão desejadas mulheres robustas.

Crumb fez cerca de 80 capas de discos, a imensa maioria para discos de Blues, Jazz e Folk, porém a mais conhecida é a do disco Cheap Thrills, que fez para Big Brother & The Holding Company (a banda da Janis Joplin). O que, em conjunto com as publicações undergrounds regadas a LSD, e a quadrinização de Purple Haze (sucesso lisérgico de Hendrix), o tornou um dos ícones undergrounds do movimento hippie.


Crumb, apesar de ícone da contracultura hippie, odiava o Rock e a música pop da época. Ele curtia mesmo Folk e o bom e velho Blues do Delta do Mississipi.
E, devido a essa antipatia pelo Rock, recusou diversas propostas para fazer capas de discos. A mais famosa dessas recusas foi uma capa para os Rolling Stones.

“A música pop moderna sempre me pareceu apocalíptica. Eu ia aos concertos de grupos de Rock. A música era ensurdecedora e as pessoas dançavam. Sempre achei que isso parecia o fim do mundo, como se elas dançassem à beira do abismo.”

A capa que Crumb fez para a banda de Janis Joplin não chegou a ser dissonante.
Ele recebeu seiscentos dólares pela capa, mas o que o levou a fazer esse trabalho foi o carinho que nutria por Janis.
Ela, assim como Crumb, teve uma infância difícil e estava passando por uma fase de aceitação e adaptação. Ambos compartilhavam o mesmo respeito pela música negra americana. E não podemos deixar de lado o fato dela ser mulher, gostar de quadrinhos e obviamente ter umas formas arredondadas que apeteciam o onanista assumido Crumb.

Pra quem não sabe, Janis, antes de ser a precursora de Amy Winehouse e detonar sua voz com wiskey e Southern Comfort, cantava no coral da igreja e idolatrava Bessie Smith e Big Mama Thornton.

Nesse pequeno trecho de uma entrevista concedida a Larry Jaffe, Crumb fala sobre a capa que fez para o Big Brother & The Holding Company e sua recusa em fazer a capa para os Rolling Stones:

 

Crumb deu sua contribuição à cultura popular americana: além das capas de discos, ilustrou algumas coleções de cards, criou uma grande quantidade de pôsteres de eventos musicais e sempre trabalhou na promoção e pesquisa das bandas pelas quais se interessava.

“Não tenho muito interesse por aquilo que chamo de arte aristocrática. As artes populares me agradam muito mais, expressões simples da cultura nativa.”
Crumb é um estudioso da música dos anos 20 e 30. Durante boa parte de sua vida viajou pelo interior dos Estados Unidos, batendo de porta em porta pelos bairros negros americanos para comprar discos antigos de blues e colher depoimentos. Foi assim que conseguiu a maior parte de sua coleção e montou um invejável inventário da música popular americana. Descobriu o blues primitivo que não tocava nas rádios, encheu seus sketchbooks e começou a dar forma aos músicos relegados ao esquecimento, além de dar crédito pelas influências deixadas por esses homens e de difundir a informação sobre essa história musical quase perdida.

Crumb usou seu nanquim para dar vida e contar as histórias de Charley Patton e seu pacto com o demônio, Henry Sloan, Robert Johnson, W.C. Handy, Frank Melrose, Eddie “son” House, Howlin’ Wolf, Tommy Johnson, Bukka White, Willie Brown Louise Johnson, Bertha Lee, Jelly Roll Morton, Tampa Red, Kokomo Arnold, Jazz Gillum, Tommy McClennan e muitos outros dos precursores da música americana. E com a personagem Tommy Grady, ele reuniu várias histórias comuns e lendas do universo do blues.


A maioria dessas histórias e algumas capas de discos e pôsteres de grande importância você pode encontrar na antologia brasileira Blues, da editora Conrad.

Crumb também é músico, toca banjo, já teve algumas bandas e lançou alguns discos de 78 rotações.
E, claro, fez todo o material de divulgação da banda.

Fiz uma seleção de algumas músicas tocadas por Crumb:

Bom, e por hoje é só pessoal, me despeço com algumas dicas pra quem quiser conhecer mais a fundo a vida e obra de Crumb.

Esse é um ótimo site pra quem quer ver as capas de discos ilustradas por Crumb: http://rateyourmusic.com/list/darb321/album_covers_by_r__crumb

Eu recomendo fortemente os documentários The Confessions of Robert Crumb e o premiado Crumb, de Terry Zwigoff.
E se você quiser adquirir algumas obras de Crumb, entre no site da editora Conrad.

Por Crix Gomes

postado por IdeaFixa