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Zii e zie: Além de toda a teoria e do marketing, disco se impõe por boa safra de composições
Até para quem descrê dos conceitos
Quem transferir “Zii e zie” para seu tocador de MP3 vai descobrir que ele está catalogado como “alternative & punk”. E desde “Cê” — que gravou em 2006, ao lado dos mesmos Pedro Sá (guitarra e coprodução, com Moreno Veloso), Ricardo Dias Gomes (baixo e piano Fender Rhodes) e Marcelo Callado (bateria) — Caetano tem procurado se alinhar à cena indie, como procurando uma espécie de elixir da juventude. Mas seu segundo trabalho de estúdio com a agora rebatizada bandaCê é apenas mais uma coleção de (boas, em sua maioria) canções em roupagens pseudorroqueiras. Um disco que, portanto, nada tem de punk ou alternativo, seja em termos musicais ou de produção — bancada que foi pela ainda poderosa Universal, gra
vadora a que Caetano está ligado desde o início de sua carreira, há 43 anos.
Quase todas essas canções foram mostradas, então recém-nascidas, durante a temporada do show “Obra em progresso”, que Caetano e bandaCê estrearam em maio de 2008 no Vivo Rio, e depois também apresentaram no Teatro Oi Casa Grande — neste para a gravação de um DVD, com data de lançamento ainda não anunciada. Os planos iniciais, que previam a edição do disco ainda no ano passado, foram
abortados pela sua participação, ao lado de Roberto Carlos, no tributo a Tom Jobim, que acabou virando um CD e um DVD. Esteticamente, estaríamos frente a um caso de esquizofrenia: após passar meses gerando seus crus “transambas” e “transrocks”, Caetano rendeu-se às grandiosas e orquestrais comemorações
pelos 50 anos da bossa nova — e a um polpudo cachê.
Além dos shows e do disco, o projeto ganhou um blog (administrado pelo antropólogo e faz-tudo Hermano Vianna, no endereço www.obraemprogresso.com.br) no qual Caetano tem exercitado sua veia de escritor, ensaísta e polemista. Nele, com material suficiente para um livro volumoso, os temas vão da reforma ortográfica às novas canções e à sua renovada paixão pelo rock, incluindo elogios a artistas tão diferentes entre si quanto Iggy Pop, Radiohead, Yes e Sex Pistols.
Blá-blá-blá e conceituações à parte, “Zii e zie” alterna grandes canções, daquelas que só alguém com a bagagem e o talento de Caetano seria capaz de fazer, com algumas bobagens. Entre essas, para come-
çar pelo pior, “Lobão tem razão”, na qual, após trocar farpas através dos anos, joga a toalha para o falastrão roqueiro (agora apresentador da MTV); ou a libidinosa “Tarado ni você”, que, no tema, nada acrescenta a “Tarado”, gravada por Caetano e Mautner no disco que fizeram em 2002.
Melhor optar por “Perdeu”, na abertura, que, com seus riffs contagiantes, é a mais roqueira faixa, bem de acordo com sua letra, focando um personagem das favelas cariocas. Ou, no fim do CD, “Diferentemente”, que fecha com a frase “Diferentemente de Osama e Condoleezza/ Eu não acredito em deus”. Já “A Base
de Guantánamo” é quase um mantra, ou um ponto de candomblé-rap, e leva o ouvinte ao transe ou ao tédio. Também somam “Sem cais” (esta, a única parceria de Caetano, com Pedro Sá) e “Falso Leblon”, ambas letras são crônicas do cotidiano carioca do compositor/namorador baiano.
Já a proposta de dar tratamento roqueiro ao samba está melhor resolvida nas duas regravações — “Incompatibilidade de gênios” (o clássico de João Bosco e Aldir Blanc, cirurgicamente reduzido à sua espi-
nha dorsal rítmica) e “Ingenuidade” (samba de Serafim Adriano consagrado por Clementina de Jesus) — do que nas originais de Caetano. Mas “A cor amarela” é delicioso samba de roda, com letra exuberante em
sua ode ao apelo sexual de “uma menina preta de biquíni amarelo”: “Que onda, que onda, que onda que dá/ Que bunda, que bunda!”. Também belo e engenhoso samba é “Lapa”, com muitas loas ao bairro boêmio carioca e que em sua panorâmica letra junta “Guinga e Pedro Sá, Lula e FH”.
Algumas provas de que, além de toda a polêmica e conceituação que cercam qualquer disco de Caetano, “Zii e zie” vale por si só.
Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/antonio/
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