
Mind the Gap é um blog escrito por Carolina Ribeiro, jornalista que vive em Londres. A vida, direto da terra da Rainha.
Há pouco mais de um ano apareceu um grafite no meu caminho, em uma avenida central da região norte de Londres. A imagem mostra uma criança hasteando uma sacola do Tesco como se fosse uma bandeira, enquanto outras duas prestam sua homenagem com a mão sobre o peito. A crítica ao monópolio do supermercado (o maior de Londres) foi obra do Banksy, o grafiteiro mais badalado daqui, que usou a canaleta de proteção ao fio telefônico como base para sua intervenção.

Naquela época, a comoção foi grande como sempre. Basta aparecer uma arte do Banksy por aí e todo mundo quer ver, aparece em todos os jornais e, claro, alguém copia e vende pelos olhos da cara em camisetas, quadros e por aí vai. Mas então...alguns meses depois, a subprefeitura de Islington decidiu proteger o grafite com uma placa de plástico.

Só que não adiantou nada, porque pouco tempo depois alguém decidiu detonar o desenho e cobrir o nome do Tesco. Talvez porque era a única parte sem cobertura. Talvez para evitar a crítica (tem uma fillial da rede que fica a meia quadra dali). Não sei. Ninguém sabe. Mas o importante é que detonaram.

Algumas semanas se passaram e percebi que haviam repintado (mal e porcamente) a tal sacola de plástico e colocado uma proteção sobre ela também. Aquilo me chocou tanto que derrubei o livro que estava lendo de pé no ônibus no colo de uma senhora sentada. -Desculpa minha senhora!, falei meio sem jeito enquanto um cara ria do meu lado. - Isso está indo longe demais, né?, ele me disse. - Eu sei que já chegaram até a vender parede com grafite dele para a Angelina Jolie, mas isso aí é ridículo.

Algum tempo depois quando uma reforma bloqueou a avenida e eu tive que descer bem antes do meu ponto percebi a última mudança naquele grafite. Agora um balão de diálogo foi adicionado à cena. Nele se lê "Deus Salve nosso Baracksy", um trocadilho que usa o lema inglês "Deus Salve a Rainha" e uma mistura do nome Banksy com o nome Barack (Obama).

A crítica passou a ser à proteção dada aos grafites do Banksy (este não é o único a ter uma placa de cobertura) e ao tratamento de celebridade que ele recebe (quase como aquele dado ao presidente dos Estados Unidos durante a campanha do ano passado? será que é isso que quiseram dizer aqui??).
A identidade de Banksy é incerta, mas ele começou na cidade de Bristol e ficou famoso pelo tom provocativo de seu trabalho. Em seu site, ele usa como manifesto a seguinte citação do comediante Emo Phillips: "Quando eu era criança costumava rezar todas as noites por uma bicicleta. Então percebi que Deus não funciona assim, então roubei uma e comecei a rezar por perdão".
O grafite é uma intervenção artística no espaço público e como tal está sujeita a outras intervenções. Existe um certo respeito entre os grafiteiros, mas quando alguém fica tão famoso que ganha proteção governamental é de se esperar que outra apele para o humor, neste caso negro e inglês, para zombar do envolvimento entre o artista e a sociedade que ele mesmo critica.
No final, este grafite do Banksy que ficou conhecido como "Tesco Generation" (ou Geração Tesco) teve uma história própria que fugiu do controle do artista, como muitas de suas artes (que geralmente são vendidas a preços altíssimos). Eu nunca vi nada parecido acontecer em São Paulo, onde os grafites são incríveis...mas temporais.
"As pessoas dizem que o grafite é feio, irresponsável e infantil...mas isso só acontece quando ele é feito corretamente", Banksy.