
Mind the Gap é um blog escrito por Carolina Ribeiro, jornalista que vive em Londres. A vida, direto da terra da Rainha.
Guest post por Aécio Amaral. [Aécio, 34, é pernambucano, sociólogo e torcedor do Clube Náutico Capibaribe. Escritor frustrado no Recife, migrou para João Pessoa em meados dos 2000 afim de lecionar sociologia na Universidade Federal da Paraíba. Atualmente mora em Londres, onde caça motivos para crônicas e contos despretensiosos e, nas horas vagas, faz um curso de doutorado na Goldsmiths College, Universidade de Londres, com financiamento do governo brasileiro. Tem contos publicados no Brasil e em Portugal.]
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Não raro se vê, em algumas ruas e avenidas que entornam o centro de Londres, coroas de flores afixadas nos postes de iluminação ou semáforos, e mesmo em algumas calçadas. Vistas de relance pela janela do ônibus ou quando se sai flanando pelas ruas, as flores chegam a causar certo enleio em face do corre-corre da vida urbana. O viajor desavisado pode ser induzido a pensar que se trata de uma atitude fortuita ou uma inclinação geral pelo cultivo e exposição de flores. Mas a beleza e o aroma das flores em via pública querem registrar que ali, naquela esquina ou curva ou bifurcação, uma vida irredutível foi encerrada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana.
Quando dos atentados terroristas de julho de 2005, as calçadas e as plataformas de desembarque das estações de metrô atingidas, como a de King’s Cross & St. Pancras, ficaram repletas de coroas e flores dispersas. Uma interpelação a que se pensasse – até pelo olfato - no puro e simples registro do mal.
No Brasil é bastante comum, sobretudo nas cidades interioranas, afixar-se uma cruz rodeada por flores no acostamento das estradas. É a conhecida cruz-de-beira-de-estrada. Ali também está dito que uma vida irredutível foi surrupiada pela contingência de um acidente, ou pela negligência humana. A beleza singela do ato nunca deixará de ser uma angular incômoda no raio de visão dos viajores. O hábito, de tão corriqueiro, caiu no anedotário popular. No Sertão de Pernambuco, quando um sujeito se veste elegante e garbosamente para ir à rua, costuma-se fazer chacota dizendo que ele vai telefonar para os parentes em São Paulo, vai fazer exame de fezes, está um lord, alinhado, ou está mais enfeitado que cruz-de-beira-de-estrada.
Imagino este hábito das flores estendido às grandes metrópoles brasileiras. Cidades como o Recife, Rio de Janeiro ou São Paulo se transformariam em imensos jardins, caso cidadãos anônimos resolvessem registrar com flores sempre que uma vida fosse encerrada abruptamente em lugares públicos, seja pelo acaso de um acidente, pela negligência humana, ou pelo registro puro e simples do mal. Neste caso, o uso da cruz seria impensável: as vias públicas ficariam interditadas, e seria necessária toda uma política de reflorestamento para dar conta das árvores postas abaixo para extrair a madeira das cruzes.
Com as flores, por outro lado, as vias públicas exalariam um aroma agradável, sensual, e igualmente perturbador, incômodo. Como se o belo teimasse em exercer sua vigília diante do grotesco da banalidade da vida e da morte, diante de um equilíbrio social perverso. O aromático desconforto seria plástico e humanizador. Ao menos um sinal de que não estamos tão anestesiados assim.