À flor da pele, Bonfá e Dado tocam Legião pela última vez
Devoção, nostalgia e sensação de dever cumprido marcaram o último Tributo à Legião Urbana com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Sem a tensão da (re)estreia, os músicos e seu fã/vocalista Wagner Moura acertaram os descompassos da noite de terça (29) - sem, para tal, segurar a emoção - e fizeram uma apresentação memorável para os milhares de presentes no evento promovido pela MTV.
"Estou rouco, mas desta vez é pra valer. Vamos aproveitar até a última gota", convocou Wagner Moura no início do show, com a ressaca de quem viveu um dos momentos mais emocionantes de sua vida à frente do primeiro dia de Tributo à Legião Urbana. Vinte e quatro horas se passaram, e agora o ator vivenciou outra cena para concorrer ao mérito da mais marcante de sua história. "Vou contar para meus filhos e netos", dizia.
A apresentação começou seguindo o mesmo repertório da noite anterior, com o consagrado riff introdutório de 'Tempo Perdido' levantando o público que há cerca de 20 anos sabe de cor e salteado os versos compostos por Renato Russo.
Assista ao show na íntegra abaixo:
O setlist seguiu jogando no certo. As cinco primeiras músicas do show - que se seguiu com 'Fábrica', 'Daniel na Cova dos Leões', 'Andrea Doria' e 'Quase Sem Querer' - são do disco mais vendido da Legião Urbana, o 'Dois'. Seus versos foram cantados e dançados com muita euforia pelo público e por Wagner. Nem mesmo o fim das músicas foi suficiente para tirar a pilha do ator, que seguia pulando à frente do palco mesmo sem trilha sonora para acompanhar.
A quarta música do set, 'Andrea Doria', contou novamente com a participação de Fernando Catatau nas guitarras. Diferente da noite anterior, sua contribuição para o show foi bastante evidenciada com seu timbre peculiaríssimo, que precedeu o início do revezamento entre os oito discos de estúdio da banda homenageada.
Como esperado, o que não faltou no Espaço das Américas foi homenagem a Renato Russo. Em 'A Via Láctea' e 'Esperando por Mim', Wagner Moura ressaltou o legado que o líder da Legião deixou para seus 'rebeldes sem causa': "A coisa mais importante que Renato nos ensinou foi a ter coragem, ele foi uma das pessoas mais incríveis que já passaram pela minha vida", disse, ressaltando o tamanho do significado para Villa-Lobos e Bonfá de tocar uma música jamais apresentada ao vivo pela Legião.
Mas nem tudo foi só alegria no tributo. Após cantar e tocar sua versão violão, gaita e voz de 'Geração Coca-Cola', Dado Villa-Lobos se desentendeu com um homem da pista que parecia - ao contrário do coro de nostálgicos - não estar gostando do que via. "Vai pra casa, querido", disse o guitarrista, antes de ressaltar que Renato Russo "estaria orgulhoso" do que era apresentado ali.
"Pra espantar o baixo astral", em suas palavras, Villa-Lobos chamou ao palco o guitarrista Andy Gill, membro de uma das influências da Legião Urbana, o Gang of Four. A performance de 'Damaged Goods' foi o ponto alto das guitarras na noite, literalmente. O volume 'saliente' da guitarra do britânico foi acompanhado de uma presença de palco única e dos vocais de Dado.
Ainda no palco, Andy Gill tocou 'Ainda É Cedo', a quarta música do disco de estreia da Legião Urbana, homônimo, de 1985. Foi quando Wagner Moura voltou ao palco e, para alívio da produção e do ator, seu microfone estava com o volume ajustado, e a cena da terça-feira - quando sua voz não saiu devido a problemas técnicos - não foi repetida. Aliás, seja em relação à técnica do backstage ou dos músicos, a apresentação de quarta-feira foi consideravelmente superior.
A primeira parte do show caminhou para seu final com 'Há Tempos', 'Duas Tribos' e 'Perfeição'. Foi quando Wagner Moura, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá voltaram ao palco para o último momento da derradeira apresentação das músicas da Legião por parte de seus membros remanescentes. Foi aí que chegou a surpresa.
Repetindo a sequência de terça-feira, o bis teve 'Teorema, 'Antes das Seis', 'Giz', 'Pais e Filhos' - até então responsável pelo maior coro do tributo - e 'Será'. Mas, para a surpresa do público, a banda tocou 'Faroeste Caboclo. Um encerramento justo para o fim de um ciclo de 30 anos de banda.
Cantada de cabo a rabo durante o show, 'Faroeste Caboclo' entrou no repertório de última hora, ou melhor, minutos. Falando à MTV, Dado contou que após a primeira noite de tributo, foi jogado na parede por seu filho: "Porra, vocês não vão tocar Faroeste?". A bronca fez com que a banda ensaiasse a canção a 10 minutos antes de subir ao palco de sua despedida.
"Eu estava aqui e eles começaram a falar em tocar 'Faroeste'. Eu disse: 'Não vou começar a ensaiar, vou no meu instinto", disse Marcelo Bonfá, sobre os momentos que antecederam o show.
Por fim, a noite acabou com saldo positivo para público e banda. O primeiro extasiado por mais de duas horas de show que proporcionaram o extremo da emoção e nostalgia. O segundo, por um lado agraciado por cantar músicas da banda que marcou sua vida, e por outro, com a sensação de um grande dever cumprido e de um inestimável legado sobre uma geração de velhos filhos da revolução, burgueses sem religião, hoje, o presente da nação.
