15/07/2011 - 16h25

Cícero abre a alma em suas 'Canções de Apartamento'

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Reprodução Canções de Apartamento (2011)

Yasmin Muller

Tenho lido bastante que o disco de estréia de Cícero é sobre solidão. A junção de MPB moderna com o noise rock, no wave e shoegaze de bandas como Sonic Youth e My Bloody Valentine pode dar essa impressão. O fato de se chamar 'Canções de Apartamento' e ter sido gravado no apartamento do cantor também traz o ar de intimismo confessional tão inerente à solidão. 

Ouça o disco Na Íntegra na MTVr neste sábado (16), às 9h e 18h.

O álbum começa com 'Tempo de Pipa', um título nostálgico e lúdico, característica que se repete na maioria das faixas e que pode dar ao disco, à primeira vista, um tom ingênuo. Entretanto, ele é muitas coisas: esperançoso sim, dolorido talvez, mas não ingênuo. Os títulos são como de fábulas literárias que o autor pega emprestado para contar suas próprias crônicas e contos. 

A faixa de abertura é uma marchinha bonita, que vai sendo somada a uma parede sonora de guitarras e microfonias quase agressiva, mas que acaba tornando música realista e dando cores muito mais vivas e complexas a uma canção que, com outro arranjo ou intérprete, poderia se tornar enfadonha. 

É essa mistura que encontraremos em 'Canções de Apartamento'. A doçura delicada do violão com a dureza das guitarras distorcidas criam a atmosfera mundana e onírica das canções de Cícero, enquanto o acordeon presente em vários dos arranjos também contribui para nos levar a um mundo dos sonhos e pequenos grandes dramas.

As letras do menino carioca de 25 anos revelam a vontade inata de ver o mundo da forma mais bela, ver poesia nos detalhes cotidianos mais variados, apesar das dolorosas vivências que um quarto de século já traz. Canções simples, sobre quase nada, que dizem muito. Como primeiro trabalho, já dá o tom que deverá ser amadurecido nos próximos capítulos. 

As faixas 'Ensaio sobre Ela' e 'Açúcar ou Adoçante?' são canções-irmãs e complementares, como o antes e o depois de um relacionamento. A primeira sobre o amor que se instaura sem anunciar, aos poucos, muito pelos detalhes do espaço físico ocupado. A segunda trata de um 'depois do fim' sem rancor, mas com uma desilusão natural e um dos melhores versos do disco – "Entra pra ver / Mas tira o sapato pra entrar / Cuidado que eu mudei de lugar / Algumas certezas". O universo harmônico das duas canções também é semelhante, assim como o vocal por vezes gritado e por vezes sussurrado de Cícero.

'Laiá laiá' traz o clima de carnaval triste que também permeia todo o álbum, com direito a coro – "qualquer coisa é melhor que tristeza por favor se esqueça" – e a sensação de que as canções parecem buscar uma fuga consciente e libertadora, mas talvez sem a firmeza de gerações passadas. Fica uma impressão de não-pertencimento às incertezas de nosso tempo.

Cícero construiu um disco pra chamar de seu. A clareza com que mistura as múltiplas influências que o moldaram é um ponto tão positivo quanto primário. Ao assumi-las, assume também uma postura de constante transformação, algo que deve torná-lo mais maduro ainda como compositor e produtor de suas próprias canções. 

Abrir a alma com um disco tão visceral e sutil é algo difícil de se ver em uma estreia. 'Ponto Cego' finaliza o disco de forma perfeita e sintomática: não se sabe o que vai ser disso e onde tudo vai dar "mas que se importa? É sexta-feira amor!" Aproveitemos sem pressa.

Confira entrevista com Cícero no Portal MTV.