Depois dos dois últimos e elogiados EPs – ‘Emicídio’ e ‘Sua Mina Ouve Meu Rap Também’ – EMICIDA não para de trabalhar. Este ano, ele ainda lançou o clipe e documentário de ‘Rua Augusta’ (veja abaixo), sofreu uma odisseia para conseguir finalmente tocar no Coachella e prepara mais dois trabalhos. O EP com parcerias gringas deve chegar já em julho, enquanto um outro com o grupo instrumental Macaco Bong ainda está no papel, mas deve acontecer em breve.
Clipe de ‘Rua Augusta’
Documentário
Confira entrevista com o rapper e saiba mais!
Afinal, o que aconteceu na história do Coachella, já que você quase não conseguiu ir para o festival?
A aventura começou quando ligaram e confirmaram o show e a gente foi correr atrás de todos os documentos. A treta maior deu porque a gente tinha fechado alguns shows, sendo o Coachella o último deles. O nosso roteiro de viagem seria Nova York e depois partiríamos para o Coachella. Só que, faltando 20 dias para o festival, chegou a notícia de que precisávamos de um novo documento chamado petição, que a gente não consegue agilizar do Brasil. Quem deveria emitir era o departamento de imigração dos Estados Unidos e o festival deveria ter solicitado esse documento antes de fazer a parada, só que caiu a responsa na nossa mão e todo mundo já estava esperando a gente.
A gente falou com o [senador Eduardo] Suplicy, com o cônsul... O pessoal da Vice foi muito foda, vocês também da MTV, que colocaram a parada lá e ficaram pedindo EMICIDA no Coachella. A gente conseguiu correr, arrumando um advogado lá fora. Foi a maior bica num documento que custou US$ 12 mil, porque era para equipe inteira.
No final, a gente tinha um videomaker e o roldie que não conseguiram embarcar porque não foram liberados. A equipe já é enxuta e várias pessoas fazem várias coisas, mas a gente foi com menos duas pessoas, para não perder a oportunidade e conseguir abrir outras portas lá. O show era no dia 15, às 15h, e a gente saiu daqui dia 14, às 22h. Chegamos em Atlanta era tipo, 5h ou 6h. Fomos parados na imigração. E o mais foda foi aquela boa vontade, tá ligado? Os caras com uma cara de merda. A gente falou para o oficial que tinha um show, mostrou os documentos e perguntou se ele não poderia agilizar aquilo porque tínhamos um voo marcado dali meia hora. O cara falou 'foda-se seu voo. Você tem que rezar para não voltar daqui'. Não podia ligar o celular, mexer em computador... A gente ficou esperando e o cara olhando e dando risada. Ficamos tipo umas duas ou três horas lá.
E aí vocês perderam o voo...
Perdemos. Nossas bagagens foram um voo antes. A gente chegou em Los Angeles quase 13h. E de Los Angeles até o festival era ainda umas duas ou três horas de carro.
E como rolou? Vocês perderam o horário do show?
A gente saiu correndo. A sorte é que tinham dois amigos que trampam com a gente e estavam por lá. Aí, acabaram trabalhando com a gente no susto. Eles já estavam no aeroporto esperando e viram nossa bagagem passando. Só que nisso sumiu um toca-disco e uma outra mala de CD. Era porque os oficiais da imigração tinham suspeitado dessa bagagem e tinham aberto. Amassaram um teco do case, reviraram tudo. Jogamos no carro e pegamos a estrada, sem comer, nem nada.
Comemos um salgadinho ruim pra caralho que os caras têm lá e uns refrigerantes... Essa foi nossa refeição. Nisso, o Evandro [irmão de EMICIDA] estava maluco no telefone, tentando passar o show pra mais tarde. Até que ele conseguiu. Aí poderíamos tocar às 23h.
Essa mudança atrapalhou?
Pra caramba! Porque a gente foi anunciado durante meses às 15h. Então todo nosso público estava lá naquele horário. Não teve nenhum anúncio falando da troca. A gente acabou tocando numa tenda totalmente diferente da nossa, num lance que só tinha DJ e o nosso show. Tinham pouquíssimas pessoas - 30 ou 40, saca?
Mas estar lá foi muito louco, porque a gente estava fazendo esse lance do Creators Project... Conseguimos conhecer maior galera. Conseguimos ver muitos shows que gostaríamos de ver... Só não conseguimos fazer o show foda que a gente tinha montado mesmo porque não era nosso público. Mas o louco foi que parte dessas pessoas que estavam lá eram pessoas que estavam procurando a gente pelo festival. Os caras ficaram rodando tenda por tenda, até a gente aparecer. Tiveram uns moleques que começaram a gritar EMICIDA, sabe? Ai eu falei pra gente ir lá. Pô! A gente veio de longe, os moleques também.
Agora, você está fazendo algumas coisas com o Macaco Bong, né?
Na real, eu fui afinando a parceria com eles há algum tempo. O [festival independente] Fora do Eixo eu já conhecia, porque há muito tempo eu catei o e-mail de todos os festivais e mandei para todos. Ninguém me respondeu, só o Pablo Capilé [idealizador do evento]. Chegou outubro de 2009, ele chamou a gente para tocar em Cuiabá. Foi quando eu conheci o Macaco Bong. Já tinha ouvido falar dos caras, por causa do nome do disco, que era 'Artista Igual Pedreiro', e eu tinha achado do caralho. Quando trombei os caras, vi que a gente tinha uma sintonia da hora. Mas também não fiquei propondo de fazer música e tal, porque não é natural isso aí. Passou um tempo e, em 2011, todo mundo veio morar em São Paulo. A gente acabou se encontrando e trocando umas ideias.
Agora, mensalmente tem uma festa do Macaco Bong no Studio SP. É o Macaco Bong e Convidados e eu fui o primeiro convidado. A gente fez tipo um mashup das nossas músicas e algumas canções minhas com o grupo interpretando. Fiz uns free styles também, participei de shows deles no Ibirapuera. Nossa intenção é ter tempo de sincronizar as agendas para poder entrar em estúdio e criar uma parada exclusiva. Uma parada autoral nossa que seja tão interessante quanto os caras conseguem ser sozinhos e quanto o que eu consigo fazer também.
Seria em qual formato?
Não sei dizer ainda o formato definido da coisa, mas seria algo como um EP. Eu gosto muito do formato porque é rápido para se fazer e as pessoas compreendem muito bem. É pouco usado e muito funcional.
E logo menos tem um novo seu...
Sim. Se Deus quiser, até final de julho... Tipo, ontem (risos).
Já tem mais detalhes desse trabalho?
No começo do ano passado, eu lancei um EP, que chama 'Sua Mina Ouve Meu Rap Também'. Era tipo uma brincadeira, um lance de catar umas músicas que tinham um tema parecido e colocar na rua. Eu fiz isso e um dos instrumentais que eu usei era dos gringos, mas eu não pedi autorização. Os caras acharam a gente, graças à MTV, que fez um vídeo da parada e ficou passando na programação. Um cara, um dia, ligou de Nova York e falou que estávamos usando a música do artista dele. E o cara falava português! (risos).
Só que eles eram sangue bom pra caramba. A gente explicou que era um EP, não era um álbum. Os gringos compreendem muito bem esse formato. Eles gostaram pra caralho do som e pediram pra fazer uma coisa junto com a gente. Eu já gostava da música dos caras e eles propuseram de fazer um som juntos, aí eu dei de louco e falei pra gente fazer logo um EP!
É o que vai rolar neste EP, no caso.
A gente começou a trocar ideia e junto a isso, estávamos conversando com o pessoal da Vice, porque está rolando o segundo ano de Creators Project. Além disso, a gente vai ter uma iniciativa agora que vai chamar The Studio e vai ser um lance mais presente na incubadora dos projetos. Então, fechamos e estaremos junto com os dois projetos. Começamos produzir antes o EP, mas acabamos sincronizando. Vai ser colaborativo, tipo unir o hip hop lá de fora com nossa música.
Vão rolar umas participações também, de gente de lá. Estamos fechando. Como tem muitas opções, duvido muito que consigamos gravar com todo mundo. A agenda dos caras é bizarra. A turnê é tipo Bósnia, Índia, China e Canadá. Você nunca encontra os caras. A princípio, vai ser difícil sincronizar todo mundo que gostaríamos que participasse. Até pela quantidade de faixas, não dá, senão vai virar tipo um EMICIDA Convida (risos).
Mas o lance é que a gente já gravou cinco faixas, comprou os equipamentos na gringa. A gente deu um grau no estúdio daqui e vai colocar voz nas que faltam. Vou falar com o MV Bill também, ele escutou algumas bases e curtiu pra caramba, então vou trocar uma ideia com ele.
Teve uma declaração sua onde você dizia que 'chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor'. Tem o disco novo do Criolo... Queria que você falasse quem são os nomes, neste momento, que estão trazendo coisa nova e você mais acredita.
Cara, o disco do Criolo, por incrível que pareça, eu escutei pedaços. Mas pedaços muito bons, cara. É surreal! É mais surpresa para quem não conhece, porque para a gente que vivencia a cena e está mais próximo do Criolo consegue ver que é um disco onde ele conseguiu colocar tudo aquilo para fora. Ele foi muito feliz em ter fechado essa parceria com o [Daniel] Ganjaman e pelo pouco que eu ouvi o disco está maravilhoso. O Criolo nem é um nome novo na cena, mas a capacidade dele em se renovar faz a coisa dar um gás que muito moleque de 15 ou 16 anos não consegue ter. Às vezes o rap é meio chato, preso a vários padrões que existem, seja de rima, canto ou postura. E o Criolo bagunça toda essa porra, tá ligado? Ele faz a música dele. Você está ouvindo um rap, que de repente vira um dub e um bolero, uma música de dor de cotovelo nervosa. O foda é que ele mantém a mesma autenticidade nos três.
Mas pô, falando dessa rapaziada nova tem o Rincón, a Flora... A Flora é muito boa. Eu fico de cara com o talento dela. Cada vez que ela mostra uma música nova, e ela tem muita coisa inédita e muito boa, eu falo que ela tem que lançar essa parada. Ela conseguiu criar uma liguagem dentro da forma que ela compõe muito louca e bonita. Extremamente musical, é rap, e ela tem se descoberto dentro dessa música e tornado cada vez mais interessante. Tem o Rael da Rima também, que canta pra caramba. Ele é de um grupo de rap muito bom que chama Pentágono. Eu tenho na minha cabeça que, em atividade hoje, os dois melhores grupos de rap do Brasil são Pentágono e Racionais MC's.