

Pílulas e dicas de música, idéias e sentidos colhidos no ar. Escrito por Cilmara Bedaque.
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“Get Well Soon“ é o projeto musical do alemão Konstantin Gropper, nascido numa cidadezinha perto do Lago Constance, aos pés dos Alpes,em 28 de setembro de 1982. Com um pai professor de música, Konstantin desde criança conheceu Beethoven, Bach e Mozart. Aos 14 anos, já era multi-instrumentista com raras habilidades nos teclados, cello, bateria e guitarra. Estudou composição e regência e na adolescência, saudavelmente, rebelou-se e direcionou seus conhecimentos para a música popular.
Liberto do ambiente de música clássica passou três anos idealizando e gravando o que seria sua estréia em 2008, o álbum "Rest Now, Weary Head!” lançado em toda Europa e bem recebido pela crítica. Nesta estréia já se delineava o compositor vigoroso; o cantor marcante; o poeta preciso e irônico e o produtor antenado com o futuro e com os pés firmes na história da música. Moldado sob influência de grandes como Thom Yorke, Nick Cave, Leonard Cohen e Tom Waits. A sonoridade fica entre Radiohead, Beirut e Divine Comedy.
Pode parece pretensioso, não? Mas, apesar de cabeção, “Get Well Soon” é simples e pop como só os bons sabem ser.

“We Are Free”
“Vexations” é o nome de seu novo álbum e traz em suas letras todas as referências literárias que o jovem Gropper acumulou nos últimos anos. Partindo de uma proposta musical de Erik Satie com este mesmo nome, “Vexations” é um patchwork lírico composto por citações de vários autores mesclado às intervenções de Gropper. Tudo soa maduro, irônico e muito consistente. Aparecem Sartre, filósofos estóicos, Sêneca, Marx, Herman Melville e Homero, entre outros. Fala Gopper: “O álbum virá com uma reprodução do caderno de esboços porque pensei que seria interessante mostrar como o álbum aconteceu, o processo atrás dele”.
“We Are Free” é sobre o conceito de liberação desenvolvido pelos filósofos estóicos: “você só é livre se puder abandonar as coisas que ama a qualquer momento”. Afirma Gropper: “É um tipo brutal de liberdade e tentei pensar suavemente sobre isto”.
A música de Gropper sugere imagens e é bem natural seu trabalho em 2008 na trilha sonora do filme "Palermo Shooting" de Win Wenders.
É difícil em “Vexations” destacar uma entre as 14 músicas de um álbum de 60 minutos que se impõe como uma peça única, mas... vamos lá.
“Angry Young Man”
“Angry Young Man” nasceu de uma leitura da Ilíada de Homero quando Grooper estava pensando porque tantos homens jovens são zangados e agressivos e usam a força física. Não concordando com esta disposição, Gropper notou que a primeira palavra escrita na Ilíada é “ira” ou “raiva”, ou seja, a primeira palavra escrita na história européia é a raiva.
No álbum anterior, Gropper tocou todos os instrumentos. Em “Vexations” ele primeiro escreveu e registrou as canções em seu estúdio caseiro. Depois foi a um grande estúdio que acomoda grandes orquestras e lá regravou bateria, teclado, um quarteto de cordas e metais com outros músicos. Desta maneira, o álbum ficou com um som grande e espaçoso.
Em 2010, logo após lançar “Vexations” no final de janeiro, Gropper segue em excursão pela Europa com seu “Get Well Soon” a bordo de uma banda substanciosa formada por talentosos multi-instrumentistas: Sebastian Benkler (trompete e vocais), Timo Kumpf (baixo), Maximilian Schenkel (guitarra e trompete), Verena Gropper (violino, percussão e vocais), Daniel Roos (piano e acordeão) e Paul Kenny (bateria).

É sempre assim no final do ano: corremos atrás do que não falamos tentando o impossível para cobrir a imensa quantidade de trabalhos que devem ter um destaque. É sempre assim. Um desses casos é The Clientele, uma banda que desde 2003 lança álbuns ótimos, classudos, recheados de canções com harmonias lindas e produção impecável.
Em outubro, a banda londrina lançou seu quarto álbum de estúdio - “Bonfires On The Heath” - onde o estilo inconfundível de seu líder e compositor principal, Alasdair MacLean se encontra em perfeita harmonia com o baixo de James Hornsey, a bateria de Mark Keen e o super talento da multi-instrumentista Mel Draisey comandando violinos, teclados, percussão e fazendo backing vocals que só deixam mais gostoso ainda ouvir o som do Clientele.

(“I Wonder Who We Are”)
O primeiro single de “Bonfires On The Heath” foi “I Wonder Who We Are” onde a classe da produção do Clientele fica bem clara. Caso raro em vocalistas masculinos, Alasdair MacLean canta tranqüilo, com um timbre grave e a voz quase sussurrada cheia de brilho, um efeito que ele consegue ao gravar sua voz plugando seu microfone ao amplificador de sua guitarra. Sua maneira suave de tocar comprova sua admiração confessa à bossa-nova. Seu estilo junto ao baixo presente e sereno de Hornsey e a verdadeira alinhavada que Mel dá ao som da banda transforma este primeiro single em verdadeiro clássico da banda. Nas letras sempre um toque de surrealismo e influência da literatura produzida no século passado.

(“Share the Night”)
"Share The Night", que tinha recebido outro tratamento no EP “That Night, a Forest Grew”, recebe camadas e camadas de trompetes e uma guitarra rítmica gostosa de ouvir. O teclado sessentista de Mel acrescenta mais molho a voz de MacLean e um clima meio-psicodélico, meio-surrealista garante a marca da banda. A destacar no som do Clientele neste álbum arranjos de metais totalmente quentes lembrando uma orquestra de “mariachis”.

A capa do álbum é um quadro de Giuseppe Arcimboldo, pintor do século XVI que retratava as pessoas fazendo uma espécie de colagem com verduras, frutas, flores, raízes e legumes. Ele foi “redescoberto” por Salvador Dali e a presença de sua obra “Flora” na capa de “Bonfires On The Heath” confirma as referências culturais de estilo da banda. Em 2010, The Clientele excursiona pelos Estados Unidos dividindo o palco com o Vetiver, outra banda preferida deste blog.
P.S.: viva 2010.
Nunca fui obcecada pelo Pink Floyd como seus fãs são, mas gosto bem do Flaming Lips e eles prepararam uma surpresa de fim-de-ano: é a regravação de “Dark Side of the Moon” - clássico de 1973 do Pink Floyd - com convidados mais que especiais...
Que tal a banda quase desconhecida do sobrinho do Wayne Coyne - líder do Flaming Lips - “Stardeath and White Dwarfs” mais Henry Rollins e a cantora canadense Peaches?
Achei bem bom. Experimenta a clássica “Time”:

A banda vai tocar o disco inteiro na virada do ano novo em Oklahoma, nos EUA e a versão do grupo foi lançada on-line nesta terça-feira, dia 22, para download no iTunes, mas não para nós brasileiros...

Ouça a sensacional versão de “Money” com Henry Rollins:
Na virada do ano, o Flaming Lips vai tocar o álbum na íntegra, em um show na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Em outubro deste ano, o Flaming Lips lançou o seu 12º álbum de estúdio, o duplo "Embryonic", que está em quase todas as listas dos melhores do ano.
O ano não poderia acabar sem que eu comentasse o nem tão novo assim (foi lançado em setembro nos Estados Unidos) álbum do Yo La Tengo, “Popular Songs”. Isto porque o álbum não sai do meu iPod, nem do meu CD player, nem do meu carro e nem da minha cabeça.

Yo La Tengo é uma banda veterana, na estrada desde 1984 e nascida em Hoboken, Nova Jersey, que já teve várias formações nestes anos todos, mas tem seu núcleo no casal Ira Kaplan (vocal e guitarra) e Georgia Hubley (vocal, teclados e bateria). O baixo parece agora estar definitivamente nas mãos firmes de James McNew que tira um timbre inconfundível. “Popular Songs”, décimo-segundo álbum do Yo La Tengo, tem a produção de Roger Mountenot que colabora já há algum tempo com a banda.
(Here to Fall)
Neste novo álbum, o Yo La Tengo não está rompendo com seu trabalho anterior, os músicos são os mesmos, o produtor também, mas o estilo cool e variado da banda garante muitas audições prazerosas. A primeira faixa, “Here to Fall” com seu arranjo de cordas e seu refrão matador já mostra todas as armas da banda: o bom gosto, o som gordo e firme do baixo, as boas idéias nas letras e a originalidade guiando todos estes elementos. (I know you're worried - I'm worried too / But if you're ready, I'm here to fall with you / What else is there for us to do?)

desenho de Jad Fair
O álbum segue com canções variadas que, vão entrando em sua pele e te fazem entender o sentido que existe na seqüência delas. O Yo La Tengo é daquelas bandas que não tem seguidores alucinados tratando-os como novos Messias, mas a consistência de seu trabalho é tão grande que a pergunta sempre vem à cabeça: por que eles não fazem muito sucesso? E a resposta pode ser simples: eles não posam de gostosinhos, nem de intelectuais e se expõem de maneira absolutamente normal. Mas tenho certeza que Yo La Tengo é uma banda que reage ao tempo como bons vinhos. (frase suspensa por tempo indeterminado devido ao uso excessivo)

(Periodically Double or Triple)
“Periodicallly Double or Triple” tem um groove mortal com um Hammond tocado por Georgia e a voz cool de Ira abrindo a canção com o verso “Never read Proust / Seems a little too long / Never used the hammer / Without somehow using it wrong/ I’ve got time on my hands / That I cant wash off”. Tudo certo. Para fechar o álbum, eles mandam duas faixas que totalizam mais de 27 minutos e eu te garanto que não há tempo perdido nem para eles e nem para nós.
O Yo La Tengo pode continuar lançando seus álbuns geniais por muito e muito tempo.
King Khan e Mark Sultan, aka BBQ, são os dois dementes responsáveis pelo petardo garageiro e divertido lançado este mês na Europa e nos EUA: “Invisible Girl”. Trilha perfeita para mentes como Beavis & Butt-Head, o álbum tem sólidas raízes na harmonização vocal usada no Doo-Wop e no rock melodioso dos anos 50, mas com uma guitarra tão sobrecarregada de ecos e um escracho tão punk que o resultado final é absolutamente original e contagiante.

“Animal Party”
“Animal Party” parece ter sido feita por dois garotos de 5 anos que queriam imitar animais domésticos e terminam a obra-prima dizendo que um dos bichos comeu sua pizza. É de internar, né? Mas o ritmo e o despojamento são tão charmosos que quando você vê a podreira e a tosquice já te ganharam.
King Khan, aqui responsável pelas guitarras e vocais, é figurinha conhecida porque, além de ter tido uma banda com Mark nos anos 90 (The Spaceshits), tem outros trabalhos com os The Shrines, os Almight Defenders e várias outras formações que passam pela sua cabeça hiper ativa. Mark Sultan, ou BBQ, não fica atrás em sua movimentação pela cena e adora tocar todos os instrumentos em seus álbuns. Juntos eles promovem uma anarquia no palco e produzem um som que lembra um Buddy Holly punk ou emula, de maneira bem trash, de Bo Diddley e Sam Cooke a Little Richard e Screamin’ Jay Hawkins.
(“Tryin”)

“Invisible Girl” é o terceiro álbum de King Khan & BBQ Show e vem depois de três anos do lançamento de “What’s for Dinner?” onde a dupla canadense usou e abusou das influências de R&B e do rock de garagem dos anos 60. Em comum os dois álbuns trazem o mesmo espírito de delinqüência juvenil recheado com palavrões e situações sexualmente comprometedoras. Escatologia e auto-ironia tirando com a cara de qualquer punk star mais vaidosinho e convencido. Tudo isso com uma linha melódica surpreendente em sua solidez.
“Invisible Girl”
Outra coisa que chama atenção no trabalho da dupla, além do instrumental e a maneira como soam, é o arranjo vocal. A costura feita através da voz elegante de Khan lembrando até Ottis Redding e das intervenções e vocais de BBQ deixam nossos garotos convencidos e irônicos porque sabem - antes que o jogo comece - que a partida está ganha.
