Pílulas e dicas de música, idéias e sentidos colhidos no ar. Escrito por Cilmara Bedaque.
Venho acompanhando com grande interesse a carreira de Sondre Lerche - um norueguês atualmente com 26 anos - e tenho sido recompensada com os álbuns mais criativos e elegantes da ultima década.

Ele está lançando seu sexto CD - Heartbeat Radio - e, mais uma vez depois de ouvi-lo, um sorriso aparece nos meus lábios. O cara é absolutamente talentoso e consegue criar as linhas melódicas mais sofisticadas e, ao mesmo tempo, mais pops que estão sendo feitas. Ele se aventura, com muita consistência, a propostas que diferenciam um trabalho do outro, mas como sua originalidade e personalidade são fortes basta ouvir 15 segundos para você saber que é uma canção de Sondre Lerche.
Sondre Lerche - Good Luck
Seu interesse pela musica começou bem cedo já que sua primeira guitarra soava em suas mãos aos oito anos e, antes dos dezoito, já tinha contrato com uma gravadora. Seu primeiro álbum - Faces Down - foi lançado em 2001 e a influência de grandes melodistas como os Beach Boys já podiam ser sentidas. Em 2004, lançou Two Way Monologue que ampliou seu roteiro de shows pela Europa e reafirmou seu talento. Em 2006, ele que já era identificado por trazer ao pop influências jazzísticas, radicalizou, chamou a banda Faces Down Quartet e gravou Duper Sessions, álbum com canções originais e algumas regravações que era puro... jazz! Claro, que um cool jazz, um jazz mais pop, seja lá o que isso quer dizer...

No ano seguinte, provando que de acomodado não tem nada, Lerche lançou Phantom Punch, um autêntico álbum de... rock! Guitarra distorcida e veloz para não deixar nenhuma duvida para quem escutar. E, tirando mais um coelho de sua cartola, fez no mesmo ano a trilha sonora para o filme Dan in Real Life.
Sondre Lerche - Heartbeat Radio
Em Heartbeat Radio, Lerche parece querer reunir todos estes trabalhos em um e consegue de uma maneira brilhante juntar suas influências em canções compostas ao violão que recebem tratamentos orquestrais de Sean O'Hagan, dos High Llamas. Sempre evoluindo, no álbum do cara conseguimos identificar elementos de jazz dos anos 50, folk dos 60, rock dos 80 e até uma pegadinha de música brasileira dos anos 60 e 70!
Sondre Lerche - If Only
Ouvindo o álbum todo podemos concluir que Sondre Lerche está cada vez mais se aproximando do ideal inalcançável: produzir a mais perfeita canção pop de todos os tempos!
2009-10-26 13:25:50
Graças à força dada por James Murphy - o homem por trás do LCD Soundsystem e um dos fundadores da DFA Records - podemos ouvir a nova revelação que vai invadir as pistas. Trata-se de YACHT - abreviatura para “Young Americans Challenging High Technology”.

Atrás deste nome, já um manifesto, encontramos Jona Bechtolt - conhecido na cena animada de Portland - e Claire L. Evans que entrou no projeto para dar aquela liga que faltava ao talentoso geek do Oregon. Por ser escritora de ficção científica e estudante de ciências e artes, Claire amplia a mensagem dos panfletos futuristas de Jona. O nome do álbum é See Mystery Lights e em suas dez músicas apresenta uma idéia coesa nestes tempos em que o single é o objetivo de todo lançamento. A capa do álbum traz uma holografia e você pode ver aqui em uma gif o efeito que eles querem provocar.
YACHT - I'm In A Love With A Ripper
O YACHT presta suas homenagens ao Prince, ao dub e à música negra dos anos 80 explorando bases eletrônicas com efeitos de teclados espaciais e frases musicais gravadas em violão que foram alteradas para tocar como sintetizadores. No vocal, com efeitos, a melodia brilhante e flutuante num tom monocromático, faz como mantra a declaração libertadora da garota que sai pela vida escolhendo quem quer e quando quer.

As influências são claras dos Brians - Eno e Ferry - Neu!, ESG, The The e ficam ainda mais óbvias quando, pensamos nas músicas de See Mystery Lights e lembramos de uma dupla chamada Tom Tom Club. Li esta relação em uma resenha e concordo totalmente. Mas este papo de quem tal banda nova nos lembra é coisa de jornalista que precisa dar referências ao leitor. Voltemos ao Yacht.
YACHT - The After Life
Em suas declarações à imprensa o YACHT acredita estar vivendo em um tempo em que a música e a internet estão se transformando na mesma coisa e neste álbum solar, gravado em um estúdio no caliente Texas, nos faz acreditar que este futuro será muito bom. “Morte não é o fim desta canção”. E em meio a palminhas sintetizadas e outras idéia revestidas com muita originalidade agradeço ao YACHT. Afinal, Jona já declarou em uma entrevista: “enquanto estamos aqui a falar, há um computador em minha casa a fazer seeding de um torrent do nosso álbum. Não um que eu comecei, mas apenas um a que me juntei”. Leia mais aqui.
Viajando em um mundo futurista e contrariando a idéia de “frieza” e “não contato”, o Yacht procura espiritualidade na tecnologia. Procure ouvir mais. Neste álbum ainda rola “Physhic City (Voodo City)”, “Don't Fight the Darkness” e “Ring the Bell”.
BIG PINK: escutem bem alto
A movimentada cena inglesa está mais que vigorosa: toda semana várias bandas são apresentadas como a “próxima grande”. E, com todo alarde, The Big Pink está lançando seu primeiro álbum A Brief History of Love, com o primeiro single “Dominos” estourando nas rádios inglesas e o clipe em rotação acelerada.
(The Big Pink - Dominos)
Formado em 2007 pelos velhos amigos Robbie Furze e Milo Cordell, o duo é uma das apostas deste ano da prestigiosa gravadora 4AD. Os caras são bem conhecidos na cena inglesa já que Robbie era guitarrista de Alex Empire e Milo é dono do selo Merok Records, responsável pelo lançamento de Klaxons e Crystal Castles. Além de músico e produtor, Milo é filho do já falecido Denny Cordell que produziu Leon Russell, Joe Cocker e Tom Petty and the Heartbreakers, entre outros.

A característica do som do Big Pink é uma verdadeira muralha de guitarras e teclados totalmente saturados e uma voz melancólica somada às muitas camadas de cordas e uma bateria seca e rápida. E, apesar da distorção, o Big Pink consegue sacar de melodias dançantes e grudentas. É a cena shoegazzer dos anos 90 se encontrando com Madchester.
(The Big Pink - Velvet)
É como uma lâmina que corta seus ouvidos na melhor tradição do rock industrial e uma intensidade que faz quem escuta querer, cada vez mais, ouvir outra e outra vez. Os rapazes são responsáveis também pela produção do álbum e contaram com a co-produção de Paul Epworth que já trabalhou com Bloc Party, Primal Scream, The Rapture, Friendly Fires, Jack Peñate, Florence and the Machine, Kate Nash e Maximo Park. Alias, Paul Epworth é também conhecido como guitarrista e cantor do Lomax e faz remix sob o nome de Phones. Querem mais?

um incêndio queimou a obra de oiticica.
um helicóptero da polícia explodiu.
uma granada foi jogada na favela.
é guerra, mas e o oiticica?
herói marginal: tempos românticos.
será sempre romântico o passado?
primeiro, o artista.
agora, sua obra.
fica o mito.
ironicamente, hoje mais forte.
São apenas 26 minutos distribuídos em nove músicas. Nada mais é necessário para te deixar alegre sem saber por que. Este é o efeito de ouvir jj (assim mesmo, minúsculo) com seu primeiro álbum chamado... nº2! A gracinha de ser o 2 é porque ele vem depois de um EP lançado neste ano também.

Não se sabe se jj é uma banda, um projeto ou uma pessoa. O material de divulgação é este álbum com uma capa, vamos dizer assim, totalmente chapada (é uma folha de Cannabis)...
(From Africa To Málaga)
Nas nove canções encontramos delicadezas folks, eletrônica e ambient. Tudo misturado e resultando em um som absolutamente gostoso de ouvir. As duas primeiras faixas - “Things Will Never Be The Same Again” e “From Africa To Málaga” - já indicam que o álbum foi feito para ser a trilha do verão europeu. Não se enganem com o clima ambient do álbum e coloquem o som no talo.
(Ecstasy)
As doces vozes femininas e as cordas das duas primeiras faixas cedem lugar ao primeiro hit do álbum: a gosmenta “Ecstasy”. O clima fica frio, nos coloca em um clube, mas o escapismo evocando drogas e dança é absolutamente convincente e matador. (where are you? / we're gettin high/ but only on our own supply/ it’s the truth, we never lie/ whatever I do I’m ready to die/ in the new school/ learning to fly/ never follow the rules/ don’t ask me why/ were by the pool waiting to dry)
Depois desta chapação somos conduzidos à fofice que é marca do álbum, mas atente bem: a ingenuidade mostrada não é boba. Os timbres apresentados em jj são sofisticados e usados de uma maneira bem original. O uso de instrumentos acústicos e eletrônicos é totalmente equilibrado e a pouca duração do álbum nos deixa com um gostinho de “quero mais”.
Seja lá quem for, jj chegou para ficar.
