PRIMEIRO DIA
A estréia do irmão paulista do Goiânia Noise foi marcado por ótimos shows.
O SP Noise foi montado pela primeira vez na sexta e sábado, no clube Easy, em São Paulo, mas poucos foram conferir a empreitada no primeiro dia. Diferente do segundo e último dia, que foi um sucesso.
Como explicar? Não sei ao certo, mas pode ter faltado um pouco de divulgação antecipada.
O certo mesmo foram as atrações, divididas em dois palcos, que agradaram todos os gostos musicais.

The Tormentos
O primeiro nome da noite foi o Black Drawing Chalks, de Goiânia. Rockão direto, sem firulas, aliado a uma boa leva de riffs garageiros. Bom show.
Os argentinos do The Tormentos entraram em seguida e se lixaram se havia muito espaço na pista. Incendiaram os poucos ouvintes com uma surf music de primeira. Duas guitarras competentes, um baixista doidão e um baterista alucinado mandaram muito bem. Nada de novo, mas foi um ótimo show.
Vindos de Santa Catarina, Os Ambervisions foram a banda mais porrada dessa leva. O anfitrião do grupo é um gordão que canta com uma touca enfiada na cabeça, de óculos escuros, e camisa estampada com uma cruz invertida. Ele correu de um canto ao outro, berrou, se ajoelhou no chão. Hardcore com teatro?

Motek
A primeira grande surpresa da noite foi o quinteto belga Motek. Eles fizeram experimentalismos sonoros dignos de um Sonic Youth. A maioria das músicas do grupo começam bem leves, pop, depois vão aumentando o volume até chegar numa catarse sonora. Post-rock de primeira. Surpreendeu e ganhou muitos aplausos.

Flaming Sideburns
E o show do Motek nem havia terminado e os finlandeses do Flaming Sideburns já estavam endiabrando o palco 2. O som do grupo remete aos clássicos do proto punk, como Stooges, New York Dolls, MC5.
O vocalista estava vestindo uma calça justa com uma estampa imitando onça, tamancos e colete de couro sem camiseta. Além disso, ele tinha acabado de fazer uma tatuagem no braço, ainda enrolada em um plástico e sangrando bastante. Rock´n´roll! Bem simpático, Eduardo Martinez é argentino e parece um filho bastando do Mick Jagger com o Iggy Pop. O maluco desceu do palco, tocou maracas, dançou de rostinho colado com uma fã, aprontou o que quis. Ou seja, Martinez roubou a cena.
Fora o teatro glam, o rockão da banda rolou solto e agitou todo mundo. Ótimo!

Black Mountain
Para fechar em grande estilo, os canadenses do Black Mountain promoveram uma psicodelia pesada.
Bem diferente das atrações anteriores, a cantora e o ótimo guitarrista/cantor fizeram um dueto bacana - lembrando até o histórico Jefferson Airplane.
Mas eles têm um estilo próprio, bom gosto musical e não fazem nada datado.
A mudança de clima foi total. As músicas rápidas deram lugar aos sons viajantes, um pouco mais longos e pesadões. E com um grande "feeling cool" dos músicos que, apesar da vibração da platéia, pareciam bem tímidos e pouco se comunicaram com os fãs. Pena que o show foi curto e sem direito a bis.
A banda é um dos grandes nomes do momento e mostrou que merece esse destaque.
Nota dez para o festival e zero para quem ficou dormindo em casa.
SEGUNDO DIA
Fim de tarde chuvoso, barulho de ônibus e o cheiro forte de uma churrascaria instalada ao lado do club Easy, em São Paulo.
Em nada esse cenário se parecia com a atmosfera do Goiânia Noise, tradicional festival de rock independente, que pela primeira vez teve sua versão paulistana.
Mas, ao contrário do primeiro dia de festival, neste sábado o público logo começou a raiar pelos dois palcos instalados na casa. Um line-up generoso e eclético faria a festa dos festeiros atrasados.
O trio paulistano Homiepie levou seu popzinho lo-fi ao palco 2 às 17:30. Antes do fim deste show, os norte-americanos do Calumet-Hecla já disparavam os primeiros sinais de distorção e microfonia do que se mostraria uma proposta bem ortodoxa de indie rock. Teria sido um show interessante, se a banda tivesse vindo à tona uns 15 anos mais cedo.
Levantando o astral do público e reforçando a variedade na programação, os cariocas Do Amor colocaram a galera para dançar com um som que fica entre o axé, o brega e o rock brasileiro dos anos 80. Muito divertido.
Depois foi a vez dos chilenos do The Ganjas soltarem seu hard rock endiabrado com ecos de The Hellacopters. Como o Calumet, também pecou em originalidade, mas compensou em energia e presença de palco.
Black Lips
Por falar em energia, esse foi um ingrediente que não faltou no set dos norte-americanos do Black Lips. Regado a muito suor e cerveja, o garage rock do quarteto empolgou e quase colocou o palco 2 abaixo.
O (excelente) baterista Joe Bradley mal havia retirado os pratos do instrumento e o Helmet, que logo roubaria do Black Mountain (que tocou na noite anterior) o título de melhor show do festival, já estava em cima do palco 1. E a apresentação de Page Hamilton à frente da nova formação da banda não foi nada menos do que intensa.
Empunhando uma guitarra de afinação esquisita e com muita distorção, ele disparou os principais hits da banda ao longo de seus quase vinte anos de carreira. O público foi a milhão ao som de “Wilma’s Rainbow”, “Milquetoast” e “In the Meantime”. A exaltação era tanta que Hamilton (48 anos) freqüentemente precisou fazer pausas para recuperar o fôlego. Afiados. os músicos da banda fizeram jus aos membros da formação clássica.
Helmet
Aos escoceses do Vaselines foi dada a ingrata tarefa de fechar o festival após o Helmet não ter deixado pedra sobre pedra. Com os ouvidos zunindo, ficou difícil entrar no clima das adocicadas canções do quinteto liderado por Eugene Kelly e Frances McKee – que também são os únicos membros originais. Mas bastou Kelly falar “Essa é sobre um cara chamado Jesus”, chamando para “Jesus Wants Me for a Sunbeam” (imortalizada pelo Nirvana no MTV Unplugged) para a pista ser tomada por uma nostalgia dos anos 90 (por mais que as canções sejam do final dos 80).
Stevie Jackson e Bobby Kildea (do Belle & Sebastian) e o baterista Michael McGarin fizeram a cama perfeita, com direito a belas melodias e muita distorção, para que a queridinha dupla fizesse a alegria dos indies de carteirinha.
Vaselines
Como o Goiânia Noise vem fazendo ao longo dos anos, a versão paulistana mostrou uma incrível seleção de bandas que não veríamos em nenhum outro festival.
O segundo dia compensou a falta de público do primeiro e, se no ano que vem a organização divulgar as atrações com mais antecedência e remanejar as bandas com mais equilíbrio, quem sabe a edição paulistana não chegue perto da Meca roqueira do Centro-Oeste.
Textos e fotos: Daniel Vaughan e Carlos Messias
por Portal MTV













