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Um amigo que mora no Japão me falou certa vez da perplexidade dos japoneses japonses quando encontram os descendentes brasileiros que não dominam o idioma: como é que pode um japonês, de olho puxado e tal, que não fala a língua? Como é que pode alguém ter olho puxado e falar tão errado?
- Fale japonês e seja maltratado; fale inglês e seja respeitado - sentenciou.
Coisa semelhante eu vi com meus próprios olhos quando ofereci "queijo" e "vinho" (brasileiros) para um francês aí no Brasil. O cara ficou putinho, riu com desprezo, disse que o vinho era ótimo para "temperar salada" (um bom vinagre). Só faltou tirar a bandeira da mala e cantar allons enfants de la patrie et cetera e tal com mão direita no peito.
Na época, eu não entendi bem essa indignação. Ele tentou explicar: "imagina que você vai para a Europa e chegando lá, encontra alguém cantando e dançando forró em francês. O que você ia sentir?"
Quase 3 anos depois, já de volta a Europa, encontrei com ele mais uma vez, e assim ele pode-me mostrar o outro lado. Dessa vez, quem quase cantou a Marselhesa fui eu: pra começar, um Gewurstraminer, um vinho sim francês, do Vosges, lugar de clima continental - neva em outubro! - entre os departamentos da Alsace e Lorraine, que já foram francês, prusso, francês, alemão e depois francês e que hoje ninguém se pergunta mais o que é porque quase todos falam francês e alemão e as fronteiras já não existem mais.

Depois, entrou triunfal na pança um Pomerol, uma variedade de Bordeaux que faz até o mais ignorante sommelier chorar, de joelhos, dando quinze cabeçadas no chão a quebrar os próprios dentes com alicate e depois sorrir com o sangue escorrendo pela boca; ah, o torpor da alegria, que bom que é.
Para aliviar as dores de tão sublime auto-flagelação, camembert, gruyère, um époisse que se derretia (esse também do Vosges), um queijo de cabra fresco, um Stilton, todos de leite cru (sem pasteurizar), entremeados de baguete e salada. Viva a França, mesmo se depois foi difícil dormir com aquela capa de gordura dentro do bucho.
Mas não estou aqui pra me esnobar perante a sua miséria ufanotropicáliantropofagista olímpica de queijo (?!) provolone, muzzarela, minas, branco - hmmmmmmm - todos devidamente pasteurizados, e de vinhos brasileiros (refiro-me a essa coisa doce que alguns chamam de vinho, e que outros, piores, bebem). Já esnobando, mas só um pouquinho. Eu tenho, você não tem, e pronto. Já parei.
Mas não foi por isso que comecei a escrever esse post. Eu já havia desistido dessa nobre carreira de correspondente internacional, dos jantares com o embaixador em meio a muitas risadas enquanto o gravador grava a entrevista, regadas a champagne que a gente segura com o dedinho mindinho em riste enquanto o indicador da outra mão gira a cereja ao som de Carlinha Sarkozy porque essa semana me encontrei mais uma vez com a pergunta do meu amigo-bróder-camarada francês que ainda ecoa pelos 20 arrondissements dessa cidade-luz:
"imagina encontrar alguém cantando e dançando forró em francês, o que você ia sentir?"
Foi no Concurso Internacional de Forró do Bizzart, antigo Opus Café, aqui em Paris. O vídeo abaixo fala por si só:
http://www.youtube.com/watch?v=LwN5KmMqjC4&NR=1
(o vídeo é do Youtube, mas foi lá onde o encontrei, désolé...)
Reações? Ciumeira danada dos brasileiros, gente dizendo que "não era forró". Gente, mordendo a camisa, tirando a bandeira e cantando chorando o Hino Nacional, carregando retratos do Lula e do Ronaldinho.
Mas quem dança bem, dança até tango argentino em ritmo de forró, até homem com homem, que funciona. E na próxima quarta-feira lá no Quai de Valmy o Rheda e o Vincent têm tudo para faturar o primeiro lugar.
Parabéns para a francesa Marion (professora de forró!), para a turma da banda Jota e Cia, e para a equipe do Bizzart, que por mais um ano organiza esse evento que anima a comunidade brasófila em Paris.
E PRA QUEM ESTIVER POR AQUI
* A final é na próxima quarta-feira, à partir das 21h
* É bom chegar cedo: no ano passado, quem chegou em cima da hora, não entrou
* O endereço:
BIZZART
167 QUAI DE VALMY
75010 PARIS
TEL : 01 40 34 70 00
* O preço: durante a semana é 6 € a entrada, 10 € com feijoada (como é a final, talvez o preço mude. Ligue antes para confirmar!)
Ainda que o seja, o objetivo desse post não é fazer propaganda gratuita a uma empresa privada (até porque ela não atua no Brasil), mas de servir de inspiração às empresas brasileiras.
Vamos falar do mercado de telecom na França, mais especificamente do mercado de acesso residencial a TV, internet e telefonia fixa.
Eu não vou entrar em detalhes de como essa estória começou, mas o início dela você já conhece: "Era uma vez um país que possuía um monopólio estatal sobre a telefonia fixa e internet. Um belo dia, o governo abriu o mercado a outras empresas".
As semelhanças com o Brasil param por aí. Tomo a Free como exemplo, pois foi a pioneira nessas inovações que modelaram o mercado como ele é hoje, oferecendo TV, internet e telefonia fixa num só pacote.
Característica do serviço oferecido hoje pela Free:
- 30 euros/mês (aproximadamente R$ 90/mês)
- internet de pelo menos 2 Mbit/s (se o seu prédio tem cabeamento de fibra ótica, essa taxa sobe a 10 Mbit/s, pelo mesmo preço)
- 150 canais de TV digital no pacote, inclusive canais de HD (alta definição)
- chamadas gratuitas para telefones fixos de 100 destinos internacionais (incluindo Brasil!)
Tudo isso sem a obrigação de contratação de "provedor de acesso".
Algumas outras funcionalidades gratuitas:
- possibilidade de assistir um filme em arquivo digital (divx, xdiv, mp4, etc) apenas conectando uma chave USB ao decodificador da TV
- o decodificador da TV tem um disco de 20 GB, que pode ser configurado como um servidor de arquivos na rede (FTP)
- roteador e spot Wifi embutido no "box"
- rede comunitária FreeWifi: ao aderir a este serviço, seu roteador passa a emitir uma segunda rede aberta wifi, a FreeWifi. Com o seu id e senha,você passa a poder se conectar a qualquer ponto FreeWifi de outros usuários do serviço;
- telefonia voz sobre IP: possibilidade de utilização de um cliente SIP no seu computador ou celular, de modo a realizar chamadas de seu número fixo a partir de seu computador ou celular (com acesso Wifi ou 3G), bastando estar conectado na rede;
- telefonia cifrada: isso não é parte do pacote, mas o serviço acima permite a utilização de softwares para cifrar a sua chamada telefônica, evitando assim, escutas... **
É claro que o serviço não começou com todas estas funcionalidades, mas até hoje, cada inovação é repassada automaticamente ao cliente final, gratuitamente. Um exemplo: quando cheguei aqui no ano passado, o serviço de telefone fixo contava com 50 destinações (números fixos) gratuitas. Um ano depois, esse número subiu a 100...
Justiça seja feita: as demais empresas do mercado hoje oferecem serviços e preços similares, até com funcionalidades adicionais, como telefonia móvel inclusa no pacote. Mas a Free negocia a compra de uma concessão de telefonia móvel, e já faz promessa de entrar com o mesmo impacto nesse mercado, hoje um dos mais caros da Europa*.
Essa postura explica porque a Free, guardadas as devidas proporções, conquistou consumidores febris e militantes no estilo Apple aqui na França.
Chega de propaganda gratuita, que isso já me causa mal-estar. Mas compare com o serviço que você tem à disposição aí no Brasil, o preço que você paga (levando em conta sua renda em reais), e tire suas conclusões.
* O mercado de telefonia móvel francês é assunto suficiente para um post separado (com sorte, eu ainda o escrevo)
** "sigilo na internet" é um assunto bem atual, para mais de um post (idem)
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PARA SABER MAIS
- Free: http://www.free.fr
- SFR: http://www.sfr.fr/
- Orange (France Telecom): http://www.orange.fr/
- Bouygues Telecom: http://www.bouyguestelecom.fr/

E vem aí a Festa da Humanidade, festival anual tradicional do Partido Comunista francês com debates, exposições, teatro e concertos. O repertório musical deste ano vai de Manu Chao e Deep Purple a Rakhmaninoff.
E você pode chegar arrasando na festa comprando desde já o elegante relógio abaixo, vendido através da rede mundial de computadores no site do evento por singelos 13 €:

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PARA SABER MAIS:
O QUE? Fête de l'Humanité
QUANDO? 11, 12 e 13 de setembro de 2009
ONDE? Parc Départamental de La Courneuve (noroeste de Paris)
QUANTO? 18 € pelos 3 dias
Interrompo o silêncio de verão europeu para (voltar a) falar dessa gripe suína.
Sinto uma certa comoção no Brasil em torno do tema. Uma brasuca de férias por aqui informa que álcool em gel anda em falta nas farmácias paulistas. É nobre o ato de desinfetar as mãos antes de comer, mas será que há motivos para pânico?
Comparemos os números dessa gripe com os de outras epidemias :
Adianto algumas das conclusões possíveis, que certamente você já tirou:
Penso que não há morte menos dolorosa do que outra: uma só já basta de sofrimento. Neste quesito, morte de acidente de trânsito, avião, homicídio ou de gripe são iguais. Mas esses números fazem pensar.
Sinceramente, não sei como um carioca pode ter medo de pegar gripe no metro ou na escola, mas transita alegremente pelas ruas cantando "O-Rio-de-Janeiro-continua-lindo" (nas outras capitais brasileiras, a situação não é muito diferente). Ou como você vai e volta do seu Happy Hour alegre em seu automóvel após umas e outras, vangloriando-se de driblar a "Lei Seca", e ao chegar em casa, apressa-se a lavar as mãos. O ser humano é assim mesmo, contraditório e não sou diferente: tenho medo de andar de avião.
Mas continuemos lavando as mãos, cozindo bem os alimentos. Cólera, quando quer, mata mais que homicídio e trânsito juntos.
Cassetete - curioso saber que o nome desse prosaico e obsoleto instrumento policial tem origem francesa: casse-tête (quebra cabeça).
Casse-tête em francês quer dizer algo trabalhoso, enfim, um quebra-cabeças.
Mas curioso mesmo foi ver que por aqui, cassetete não é cassetete, mas matraque.
