

Paris F.C. é o blog do Portal MTV com posts que contém verdades, mentiras e outras estórias sobre o futebol, o rock'n'roll e os monstros do lago, direto de Paris. Editado por Luisão.
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Lisboa, 22 jan 2010
Para cada necessidade, um meio de transporte adaptado.
Ultimamente, julgava não ter muito a falar. Mas visitar o Brasil após dois anos e meio me fez rever essa certeza. Algumas impressões:
GUARULHOS
Por vinte minutos, o avião andou em círculos pelo céu de São Paulo, aguardando permissão para pousar. Em terra, muita gente, calor, 2 vôos internacionais dividindo a mesma esteira. O aeroporto não tem estrutura pra receber vôos simultâneos de 300, 400 pessoas.
Na saída, nenhuma indicação de como chegar à cidade. O monotrilho ainda é um outdoor na saída. Por conhecer o aeroporto, busco então o serviço "Airport Service", mas imagino como um estrangeiro faria para adivinhar sua existência... chegando ao guichê (do lado externo do aeroporto), os funcionários resolvem um importante problema e nem notam a fila que se forma na entrada. Mas por que pressa? São 9:50h, e o próximo ônibus só sai às 10:40h... peguei um táxi.
TAXISTA
Estamos no cartão postal da cidade: Marginal do Tietê. O taxista conta com detalhes a enchente que cobriu a via 2 dias antes. Apresenta detalhes técnicos sobre a canalização do rio. Critica as obras de expansão desta mesma via:
- segundo os especialistas, depois destas obras, em 5 anos já estará tudo igual.
Ele inspira confiança. Ele conhece a cidade. Ele continua com seu discurso:
- é muito carro. Com os estímulos do governo, está todo mundo comprando carro. Não dá.
Concluiu então com "chave de ouro":
- mas bom mesmo era o Maluf. Se ele tivesse aqui, não faria essa expansãozinha de faixa: faria logo uma freeway!
REPÚBLICA AUTOMOTIVA DO BRASIL I: "LEI SECA"
É bom rever os amigos. Para celebrar, cerveja. Eu bebo, tu bebes, ele bebe. Nós bebemos. E na hora de ir embora, cada um em seu carro:
- Mas e a tal lei?
- Pois é. Exagerada, né? Já virou uma indústria de multas. Mas pior que isso, só os radares!
REPÚBLICA AUTOMOTIVA DO BRASIL II: FAIXA DE PEDESTRE
Estou sobre a faixa de pedestres. Um carro aponta, dá seta para entrar. Eu já estou no meio da rua, ele acelera. Ele quer passar. Dou um pulo para trás. Ele passa.
CULPA DO LULA
O problema do país? A resposta está na ponta das línguas: "culpa do Lula".
Vendo de fora, é engraçada essa repugnância apaixonada estampada nas faces: "aquele ignorante!". Falar mal do Lula é a senha para ganhar a simpatia do grupo. Com a vantagem de não fazer mal como cigarro ou álcool.
E quand même, 80% de aprovação. Personalidade do ano. O Brasil é de fato um país curioso.
É notória e conhecida de longa data a relação comensal entre assessores de imprensa e jornalistas. De um lado, a grande imprensa sedenta por notícias. De outro, empresas com um grande interesse em fornecer a sua versão dos fatos. E assim, entre um almoço ou jantar entre assessores e jornalistas, ocorre esse interessante fenômeno da natureza de importância inestimável para a agricultura jornalística: planta-se uma notícia aqui, outra acolá. Semea-se Verdades, e por fim, todos ficam contentes nesse delicado ecossistema.
Foi publicada na Folha no dia 18 de dezembro uma nota sobre os incidentes no vôo JJ 8096 da TAM, que em 6 de dezembro deveria rumar de São Paulo à Paris. O texto explica a razão do tumulto:
A confusão ocorreu após a aeronave sofrer um problema técnico, quando o avião se preparava para decolar --no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos. Segundo a companhia aérea, após a manutenção, uma passageira decidiu desembarcar, o que desagradou os passageiros, já irritados com o atraso do voo, dando início ao tumulto.
O leitor entende assim que o conflito surgiu de uma altercação opondo passageiros que desejavam desembarcar e os demais que desejavam continuar no vôo, todos já irritados por um mero atraso do vôo. É nesse momento que a Polícia Federal entra em cena, mostrando para os baderneiros com quantos paus se faz uma canoa tupi-guarani e botando novamente o avião nos trilhos da Ordem e do Progresso, tão importantes para o futuro de nossa pujante nação.
Essa versão diverge diametralmente do que expõe um leitor do francês Figaro, passageiro do mesmo vôo:
De 23:30h à 3:30h, nosso avião ficou estacionado na pista do aeroporto de São Paulo. Durante as 3 primeiras horas, nenhuma explicação nos foi fornecida. Enfim, após um longo período de espera, um comunicado lacônico do piloto nos informou primeiro em português depois em inglês de vários problemas técnicos no avião. Mais tarde, preveniram-nos por uma mensagem que o computador de bordo seria trocado, mas em nenhum momento em francês! Por fim, quando o piloto nos anunciou a partida da aeronave em 5 minutos, terminamos por esperar uma hora.
Ele vai mais longe: informa que os presos faziam parte de um grupo que tentava organizar um pedido coletivo (algo bem francês) de troca de aeronave e que não houve pancadaria. Segundo ele, uma das pessoas que foi presa estava no meio dos acontecimentos simplesmente porque era a única intérprete entre o grupo e os tripulantes. Diz ainda que somente no final é que apareceram tripulantes falando francês com fluência, quando no início havia sido informado que nenhum tripulante falava francês (tenha em mente que o francês mediano é tão poliglota quanto a maioria dos brasileiros) ...
A tentação é grande para os ufanistas de plantão, mas não vou comparar a indiferença de tripulantes brasileiros com a truculência de tripulantes de trens ou aviões europeus com passageiros que não falam sua língua-mãe ou o inglês. Mesmo sabendo que o esterco ajuda a plantinha a crescer firme e forte, uma cagada não justifica a outra, certo?
Por fim, ele fala da revolta dos demais passageiros ante a truculência dos policiais brasileiros. E é isso que se ouve no vídeo exposto na Folha:
- Honteux! Honteux! (Vergonhoso! Vergonhoso!)
Afinal, onde está a Verdade nessa história? O bom da liberdade da imprensa e da internet é isso: cada um publica a sua versão. O leitor tira então conclusões que determinarão suas escolhas futuras, como a de sua companhia aérea. E a agricultura jornalística segue o seu caminho de fertilidade e prosperidade.
Um amigo que mora no Japão me falou certa vez da perplexidade dos japoneses japonses quando encontram os descendentes brasileiros que não dominam o idioma: como é que pode um japonês, de olho puxado e tal, que não fala a língua? Como é que pode alguém ter olho puxado e falar tão errado?
- Fale japonês e seja maltratado; fale inglês e seja respeitado - sentenciou.
Coisa semelhante eu vi com meus próprios olhos quando ofereci "queijo" e "vinho" (brasileiros) para um francês aí no Brasil. O cara ficou putinho, riu com desprezo, disse que o vinho era ótimo para "temperar salada" (um bom vinagre). Só faltou tirar a bandeira da mala e cantar allons enfants de la patrie et cetera e tal com mão direita no peito.
Na época, eu não entendi bem essa indignação. Ele tentou explicar: "imagina que você vai para a Europa e chegando lá, encontra alguém cantando e dançando forró em francês. O que você ia sentir?"
Quase 3 anos depois, já de volta a Europa, encontrei com ele mais uma vez, e assim ele pode-me mostrar o outro lado. Dessa vez, quem quase cantou a Marselhesa fui eu: pra começar, um Gewurstraminer, um vinho sim francês, do Vosges, lugar de clima continental - neva em outubro! - entre os departamentos da Alsace e Lorraine, que já foram francês, prusso, francês, alemão e depois francês e que hoje ninguém se pergunta mais o que é porque quase todos falam francês e alemão e as fronteiras já não existem mais.

Depois, entrou triunfal na pança um Pomerol, uma variedade de Bordeaux que faz até o mais ignorante sommelier chorar, de joelhos, dando quinze cabeçadas no chão a quebrar os próprios dentes com alicate e depois sorrir com o sangue escorrendo pela boca; ah, o torpor da alegria, que bom que é.
Para aliviar as dores de tão sublime auto-flagelação, camembert, gruyère, um époisse que se derretia (esse também do Vosges), um queijo de cabra fresco, um Stilton, todos de leite cru (sem pasteurizar), entremeados de baguete e salada. Viva a França, mesmo se depois foi difícil dormir com aquela capa de gordura dentro do bucho.
Mas não estou aqui pra me esnobar perante a sua miséria ufanotropicáliantropofagista olímpica de queijo (?!) provolone, muzzarela, minas, branco - hmmmmmmm - todos devidamente pasteurizados, e de vinhos brasileiros (refiro-me a essa coisa doce que alguns chamam de vinho, e que outros, piores, bebem). Já esnobando, mas só um pouquinho. Eu tenho, você não tem, e pronto. Já parei.
Mas não foi por isso que comecei a escrever esse post. Eu já havia desistido dessa nobre carreira de correspondente internacional, dos jantares com o embaixador em meio a muitas risadas enquanto o gravador grava a entrevista, regadas a champagne que a gente segura com o dedinho mindinho em riste enquanto o indicador da outra mão gira a cereja ao som de Carlinha Sarkozy porque essa semana me encontrei mais uma vez com a pergunta do meu amigo-bróder-camarada francês que ainda ecoa pelos 20 arrondissements dessa cidade-luz:
"imagina encontrar alguém cantando e dançando forró em francês, o que você ia sentir?"
Foi no Concurso Internacional de Forró do Bizzart, antigo Opus Café, aqui em Paris. O vídeo abaixo fala por si só:
http://www.youtube.com/watch?v=LwN5KmMqjC4&NR=1
(o vídeo é do Youtube, mas foi lá onde o encontrei, désolé...)
Reações? Ciumeira danada dos brasileiros, gente dizendo que "não era forró". Gente, mordendo a camisa, tirando a bandeira e cantando chorando o Hino Nacional, carregando retratos do Lula e do Ronaldinho.
Mas quem dança bem, dança até tango argentino em ritmo de forró, até homem com homem, que funciona. E na próxima quarta-feira lá no Quai de Valmy o Rheda e o Vincent têm tudo para faturar o primeiro lugar.
Parabéns para a francesa Marion (professora de forró!), para a turma da banda Jota e Cia, e para a equipe do Bizzart, que por mais um ano organiza esse evento que anima a comunidade brasófila em Paris.
E PRA QUEM ESTIVER POR AQUI
* A final é na próxima quarta-feira, à partir das 21h
* É bom chegar cedo: no ano passado, quem chegou em cima da hora, não entrou
* O endereço:
BIZZART
167 QUAI DE VALMY
75010 PARIS
TEL : 01 40 34 70 00
* O preço: durante a semana é 6 € a entrada, 10 € com feijoada (como é a final, talvez o preço mude. Ligue antes para confirmar!)
Ainda que o seja, o objetivo desse post não é fazer propaganda gratuita a uma empresa privada (até porque ela não atua no Brasil), mas de servir de inspiração às empresas brasileiras.
Vamos falar do mercado de telecom na França, mais especificamente do mercado de acesso residencial a TV, internet e telefonia fixa.
Eu não vou entrar em detalhes de como essa estória começou, mas o início dela você já conhece: "Era uma vez um país que possuía um monopólio estatal sobre a telefonia fixa e internet. Um belo dia, o governo abriu o mercado a outras empresas".
As semelhanças com o Brasil param por aí. Tomo a Free como exemplo, pois foi a pioneira nessas inovações que modelaram o mercado como ele é hoje, oferecendo TV, internet e telefonia fixa num só pacote.
Característica do serviço oferecido hoje pela Free:
- 30 euros/mês (aproximadamente R$ 90/mês)
- internet de pelo menos 2 Mbit/s (se o seu prédio tem cabeamento de fibra ótica, essa taxa sobe a 10 Mbit/s, pelo mesmo preço)
- 150 canais de TV digital no pacote, inclusive canais de HD (alta definição)
- chamadas gratuitas para telefones fixos de 100 destinos internacionais (incluindo Brasil!)
Tudo isso sem a obrigação de contratação de "provedor de acesso".
Algumas outras funcionalidades gratuitas:
- possibilidade de assistir um filme em arquivo digital (divx, xdiv, mp4, etc) apenas conectando uma chave USB ao decodificador da TV
- o decodificador da TV tem um disco de 20 GB, que pode ser configurado como um servidor de arquivos na rede (FTP)
- roteador e spot Wifi embutido no "box"
- rede comunitária FreeWifi: ao aderir a este serviço, seu roteador passa a emitir uma segunda rede aberta wifi, a FreeWifi. Com o seu id e senha,você passa a poder se conectar a qualquer ponto FreeWifi de outros usuários do serviço;
- telefonia voz sobre IP: possibilidade de utilização de um cliente SIP no seu computador ou celular, de modo a realizar chamadas de seu número fixo a partir de seu computador ou celular (com acesso Wifi ou 3G), bastando estar conectado na rede;
- telefonia cifrada: isso não é parte do pacote, mas o serviço acima permite a utilização de softwares para cifrar a sua chamada telefônica, evitando assim, escutas... **
É claro que o serviço não começou com todas estas funcionalidades, mas até hoje, cada inovação é repassada automaticamente ao cliente final, gratuitamente. Um exemplo: quando cheguei aqui no ano passado, o serviço de telefone fixo contava com 50 destinações (números fixos) gratuitas. Um ano depois, esse número subiu a 100...
Justiça seja feita: as demais empresas do mercado hoje oferecem serviços e preços similares, até com funcionalidades adicionais, como telefonia móvel inclusa no pacote. Mas a Free negocia a compra de uma concessão de telefonia móvel, e já faz promessa de entrar com o mesmo impacto nesse mercado, hoje um dos mais caros da Europa*.
Essa postura explica porque a Free, guardadas as devidas proporções, conquistou consumidores febris e militantes no estilo Apple aqui na França.
Chega de propaganda gratuita, que isso já me causa mal-estar. Mas compare com o serviço que você tem à disposição aí no Brasil, o preço que você paga (levando em conta sua renda em reais), e tire suas conclusões.
* O mercado de telefonia móvel francês é assunto suficiente para um post separado (com sorte, eu ainda o escrevo)
** "sigilo na internet" é um assunto bem atual, para mais de um post (idem)
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PARA SABER MAIS
- Free: http://www.free.fr
- SFR: http://www.sfr.fr/
- Orange (France Telecom): http://www.orange.fr/
- Bouygues Telecom: http://www.bouyguestelecom.fr/
