
Paris F.C. é o blog do Portal MTV com posts que contém verdades, mentiras e outras estórias sobre o futebol, o rock'n'roll e os monstros do lago, direto de Paris. Editado por Luisão.
Permita-me agora falar um pouco das Vélibs.
Estação Vélib do Parque Floral
Vélibs são as bicicletas públicas de Paris. O nome vem de duas palavras: vélo (bicicleta) + liberté.
Paris não foi a pioneira em implementar um projeto de bicicletas públicas, mas seu projeto é um sucesso: é impensável hoje imaginar Paris sem as Vélibs: elas se integraram à paisagem e ao imaginário coletivo, tal qual outros símbolos da cidade, como a Torre Eiffel. Pouco mais de 2 anos após a sua implantação, ela é usada ostensivamente por parisienses e turistas, principalmente nesta época do ano em que faz bom tempo e um pouco mais de calor.
Paisagem parisiense: tchutchuca desfila de vélib, para a alegria dos tiosões no café.
Repare também no rapaz de chapéu vendendo muguet
Mas o sucesso das vélibs não advém somente delas: elas fazem parte de um plano mais ambicioso da prefeitura de promoção do uso de meios de transporte eco-sustentáveis na cidade, que contou com a implantação de 400 km de ciclovias dentro da cidade e mais recentemente com a permissão da circulação de bicicletas em duplo sentido nas ruas e expansão da Vélib para os subúrbios vizinhos de Paris.
Bem diferente de São Paulo, que recentemente implantou uma ciclovia que só funciona nos finais-de-semana... mas já é uma evolução. Os parisienses dizem que antes das vélibs não era assim: os motoristas não respeitavam os ciclistas. Hoje a cidade entrou em um ciclo virtuoso em que mais gente descobre a bicicleta através das vélibs, compram suas próprias bicicletas e as incorporam no seu dia-a-dia.
Daqui de Paris, fico na torcida para que a sociedade paulistana e de outras cidades brasileiras entenda que bicicleta é meio de transporte e promova o seu uso todos os dias e não apenas em fim-de-semana.
VÉLIB, MODO DE USAR
A utilização da Vélib é bem simples e quase democrática: digo quase democrática porque para usá-la, a pessoa precisa ao menos ter um cartão de banco com chip, o que já restringe o seu uso. Mas essa é a única restrição, que a torna acessível a turistas, diferentemente de cidades como Barcelona, onde se exige certos documentos e validação antes de permitir o seu acesso, o que já exclui turistas de 3 ou 4 dias de seu público-alvo.
Há 3 modalidades de uso:
- assinatura de um dia: você paga 1 € e pode usar as bicicletas quantas vezes quiser, por até meia-hora. A partir de meia-hora, é cobrado 1 € a mais no cartão. Acima de 1h, mais 2 €. O objetivo é limitar o uso superior a meia-hora. Mas nada impede que você pegue uma, ande até um determinado lugar, devolva, pegue outra e assim em diante...
- assinatura de 7 dias: custa 5 €. O resto é igual à assinatura de um dia;
- assinatura anual: você paga 30 € por ano. Eles cadastram o seu passe eletrônico de metro no sistema e você tem acesso direto às bicicletas apenas validando sua carteira sobre o leitor eletro-magnético. As regras para excesso de uso também são iguais.
Outra coisa: se a bicicleta for extraviada, debitarão 150 € do seu cartão.
No mais, o sistema é bem interessante: há estações espalhadas pela cidade inteira. Nos pontos mais altos, ganha-se 5 minutos de bônus para cada vez que se estacionar uma bicicleta ali. Pelo site, é possível também verificar a disponibilidade de bicicletas em uma determinada estação de vélibs.

E mais uma coisa: as bicicletas ficam disponíveis 24h por dia, o que a torna o meio preferido de transporte na volta das baladas de primavera e verão.
Mas atenção: se você for pego bêbado nas vélibs, receberá uma multa de 90 €, com direito a passar umas 3 horas na delegacia tomando sermão da polícia. E se seu nível de alcoolemia estiver muito alto, prepare-se para bater um papo com um juiz e para ter problemas ao renovar o visto. Desagradável. Então a regra do carro vale também para a bicicleta: se beber, não pedale!
PARA SABER MAIS
http://www.velib.paris.fr/
Embora seja amplamente conhecida, ninguém explica direito essa necessidade humana de migrar. Talvez esteja nos nossos genes, algo que restou no momento em que nos diferenciamos das aves. Ou ainda, de um passado nômade, quando vagávamos pelas planícies e montanhas em busca de alimento: migrar, mover-se era uma questão de vida ou morte.
Deixo ao biólogos a exploração dessa vertente. Fato é que as grandes peregrinações conhece hoje com as facilidades do turismo um revamp: Caminho de Santiago, Caminho do Sol, Hajj, De Lhasa a Katmandu, Caminho da Seda, Jerusalém, Torre Eiffel, Tumba de John Lennon, de Oscar Wilde, de Juscelino Kubistcheck, de Chopin, de Airton Senna, de Borges. De cavalo, à pé, de carro, de ônibus ou de avião, todos querem peregrinar. Peregrinar é diferente de viajar, pois o objetivo é a viagem em si que tem um "que" de privação atingindo o clímax diante do Destino Final, a Grande Redenção. Depois é só tirar fotos e escrever um livro contando as coincidências do caminho e o crescimento espiritual que esta viagem interior proporcionou.
E é assim que um tipo especial de turista se dirige ao Cemitério Père Lachaise (tradução literal: Pai Acadeira) para visitar a tumba do Jim Morrison.
Neste cemitério há outros destinos mais discretos como a tumba de Edith Piaf, Baudelaire, Balzac, Alan Kardec ou menos discretos como a tumba de Oscar Wilde (coberta de beijos e bilhetes de gente do mundo inteiro). A tumba do Jim não foi pensada para receber a o volume de turistas que recebe hoje: fica espremida entre outras tumbas.
Fãs têm por vezes reações impensáveis, e após atos de vandalismo no passado, a administração decidiu proteger a tumba com grade.
Se os peregrinos de Compostela são reconhecidos por suas barbas, conchas e livros do Paulo Coelho, os religiosos que visitam a tumba do Jim também tem hábitos em comum: alguns aproximam-se da tumba de óculos escuros e ficam assim em silêncio o tempo em que se acabe em seus iPods "The end". Os mais afetados até choram (às vezes penso com angústia que estes talvez jamais tenham ouvido a Polonesa no 6 opus 53. Mas proselitismo não é de meu feitio).
Outros preferem o encosto na árvore ao lado para este momento de reflexão. Os mais sociáveis acendem seus petards e os confraternizam com os demais peregrinos após o ritual da foto de todos os ângulos que se achegam para uma baforada ou um gole de cerveja.
PARA SABER MAIS
- Cemitério Père Lachaise: fica no 20o distrito de Paris. Metro linhas 2 ou 3, estação "Père Lachaise"
- Polonesa no 6 opus 53: procure no Youtube por "Polonaise No 6 Opus 53" ao lado de palavras como "Heroique", Horowitz, Rubinstein, Argerich, Arrau.
No elevador do prédio onde moro hoje, um bilhete chama a atenção:
Bom dia a todos,
Eu festejo meus 22 anos neste sábado à noite, há um risco então de fazermos um pouco de barulho, queira nos desculpar antes de antemão.
Desejando em todo caso uma boa noite!
Fulano de Tal (3o andar)
Alguém já foi lá e rabiscou: feliz aniversário!
Detalhes culturais que por vezes passam despercebidos: visto o tamanho, a proximidade dos apartamentos e o baixo isolamento acústicos dos edifícios mais antigos, torna-se imperativo avisar os vizinhos.
E isso é uma regra que ao menos os parisienses respeitam: em todas as festas de apartamento que fui, havia um bilhetinho desses no elevador.
Primeiro de maio na França. Além das tradicionais passeatas do dia, os franceses têm um estranho costume nesta data: comprar Muguet. O comércio informal (por pessoas sem altorização) é tolerado, e assim, em cada esquina, em cada entrada ou saída de metro, lá está alguém vendendo Muguet.
Muguet é uma plantinha que dá uma florzinha insossa. Ela é cultivada intensivamente em Nantes para atender à demanda do 1o de maio. Daí o nome Muguet nantais.
O preço de um vasinho sai entre 1 € e 3,50 €, dependendo dos enfeites qui vont avec.
Olhando os caixotes diante da venda árabe - o único aberto no bairro depois das 21h - ela teve uma ideia:
- e se a gente comesse pasta? Eu tenho um ótimo azeite em casa.
- E o que falta?
- A gente pode levar tomate. Tomate-cereja, que tem mais sabor. Você não acha?
Na panela, água e macarrão No 5. Oito minutos para ficar pronto.
- Você gosta de "al dente"? - diz isso abrindo a geladeira - já sei: vamos misturar com tomates semi-secos. São os melhores que há. Com um pouco de alho... ai, você abre a tampa pra mim? Está dura.
Ela tira um galão grande de plástico do armário. O líquido espesso e brilhante se afina no calor da frigideira. O alho picado já chia. Um pouco de sal grosso ralado. O aroma se apossa da sala.
- Esse aí não é industrial...
- Foi um presente de uma pessoa muito especial.
Ele toma os pratos no armário e a toalha na estante. Arruma a mesa. Ela tira uma foto da porta da geladeira - na verdade, uma fotomontagem de pequenas fotos de Photomaton onde três garotas fazem pose - e se senta à mesa.
- É a do meio. Ela é linda, não é? Uma de minhas melhores amigas à época.
Oito minutos. Macarrão no escorredor. Na frigideira, o alho já dourou, o tomate já se desfez. Escorre então o excesso para outra panela e o macarrão se mistura ao molho.
- Mas sabe, entendo sua amiga. Se...
- Eu não entendo.
Após a janta ela brinca com a vela vermelha. Passa o dedo indicador no meio das chamas:
- você sente o cheiro?
- morango?
- frutas silvestres.
- pode deixar que eu lavo as louças.
- não. Pode deixar.
- se deixar, acumula. Eu faço agora.
À pia, primeiro os copos depois os talheres. Por fim as panelas. Começando pelas grandes. Enquanto isso ela esquenta a água para o chá; revolve a caixa de sachês.
- A gente tinha passado um ótimo fim-de-semana no vilarejo de sua família. Foi muito bom, muito tranquilo. Ela nunca disse nada. Sempre alegre. Quando voltamos, pedi demissão e fui viajar. Três meses... quando voltei, já tinha sido há 2 semanas. Ninguém quis voltar ao assunto. Você gosta de Fenouille?
- Sim, mas chá é a primeira vez. - uma bebericada - e como você encara os fatos?
Ao lado do fogão, limpou meticulosamente os bordos do galão e o levou cuidadosamente para o armário. Tomou então a foto que deixara sobre a mesa e voltou a fixá-la na porta da geladeira. Com a ponta do dedo alisou um dos rostos e sorriu:
- Aqui em casa ela continua viva.