

Pé Na Bota é um blog do Portal MTV que mostra através dos olhos de uma carioca a Itália, uma intrigante e apaixonante Torre de Babel! Editado por Rebecca Nunes, designer que sempre quis ver o mundo, direto de Terni, Itália.
Mangiare, magna’, manciare, mangé, mangià, mandigare…comer! Certamente esse será um tema muito frequente por aqui.
Afinal, estou no lugar que se come melhor ao mundo!
Sou uma apaixonada pela culinária, mas amo mesmo é comer. Principalmente experimentar esse arco-iris de sabores combinados perfeitamente, como uma melodia de Tom Jobim que fazem a alma flutuar.
Na Itália comer é um ritual, acho que pode ser considerada até uma filosofia de vida.
Os pratos são servidos separadamente e tem uma ordem que só existe aqui, eu costumo chamar os 5 mandamentos:
1° Mandamento: Antipasto- entrada
2° Mandamento: Primo Piatto- massa ou risotto
3° Mandamento: Secondo Piatto- carne ou peixe
4° Mandamento: Contorno- salada ou verdura
5° Mandamento: Sobremesa e café(rigorosamente expresso!)
Cada região, ou melhor cada cidade tem a sua especialidade que é rica em todos os sentidos.
A Umbria como todas regiões Italianas é riquissima dessa diversidade, bastam somente alguns quilometros e parece que você está num país diferente. é só notar o modo como as pessoas falam, se comportam, mas principalmente o que elas comem.

Scheggino é um dos pequenos vilarejos Umbros de origem medieval, localizado às margens do rio Nera no vale da Valerina e fica a 30km de Terni.
Os pratos tradicionais vêem de uma cultura agricola- culinária “contadina”-, que tem como ponto forte os chamados pratos de terra.

No inverno uma das particularidades dessa região são as Trufas Pretas(Tartufo Nero)- Tuber Melanosporum, fungo comestível que cresce espontaneamente próximo à raiz de algumas árvores, principalmente o carvalho. Muito raro e prestigiado inclusive no mercato internacional, o que faz 100g dessa maravilha custar em torno a 120€-.
A aparência não é o maximo, mas o sabor é simplismente divino!

Quem passa por aqui não pode deixar de comer o prato tradicional da região.
Numa Trattoria caseira-experimentei Ristorante Del Ponte-, que tem na cozinha uma vovozinha italiana preparando diariamente a pasta feita a mão. Aqui essa delicia tem nome e se chama Tagliatelle al Tartufo Nero.

Para dar ainda mais água na boca aqui a receita:
Tagliatele (massa fresca) com cozimento “al dente”.
Numa panela coloque bastante azeite e 1 dente de alho inteiro. Deixe que o alho seja levemente dourado e desligue o fogo. Retire o alho, acrescente o tartufo ralado, sal e pimento do reino.
Misture e junte ao macarrão.
Buon appetito!!
Depois de refletir em como e sobre o que falar no primeiro Post decidi que o tema justo não seria somente sobre cidades como Roma, Milano, Venezia, Firenze, Capri…e sim o início.
De onde vem aquilo que mais parece um bixo carpinteiro que dá na gente até coceira? Aquilo é uma vontade incontrolável de ver o que tem do outro lado, de como é estar lá, de falar como eles, e será que depois de um tempo se começa a pensar diferente também?!?
Foram essas as minhas motivações para o primeiro passo…resolvi que precisava de férias e escolhi o destino justo pra encontrar todas essas respostas.
Mais precisamente, Milano-Itália, estudar italiano- idioma derivado do dialeto Fiorentino, devido a riqueza literária do período 1.300 de autores como Dante, Petrarca e Boccaccio.
Depois de 2 meses viajando e descobrindo essa cultura que são tantas reunidas numa só era o momento de voltar pra casa, mas no final dessa estrada acabei encontrando uma bifurcação! Simplesmente 1 semana antes de voltar para o Brasil ganhei uma bolsa de estudos para fazer um master no Politecnico de Milano, foi ali que voltei ao Brasil e Pé na Bota…depois de 3 meses estava em Milano de mala e cuia!

Milano é conhecida como a capital da moda e do trabalho, talvez até uma mini Sampa direi.
Defini sempre como Internacional Italian way of life, pois lá se concetram ótimos restaurantes-Cova, Bice, 18/28, Trattoria Madonina, Antica Osteria della Pesa, Pizzeria Piccola Ischia, Corso Como 10, Aimo e Nadia…, é o centro financeiro da Itália, hospeda a Semana da Moda e do Design-Salone del Mobile, entre os dias 14 e 19 de abril de 2010, tem o Duomo (souvenir escolhido para agredir o premier), pelas ruas do centro parece estar numa passarela são vitrines e pessoas “comuns” que desfilam lançando tendência e style –Montenapoleone, Spiga, Manzoni e Venezia: ruas que definem o quadrilátero da Moda.
Foi nessa cidade que eu passei 2 anos e 6 meses da minha vida italiana e mergulhando mais a fundo nessa experiência agora estou em Terni, Umbria -coração verde da Itália.

Daqui para chegar ao trabalho eu não pego o metro lotado ou tenho que enfrentar um trânsito caótico, pela janela do trem vejo paisagens bucólicas e em 1hora chego ao centro de Roma onde pratico Design Grafico.

Vivo diariamente 2 realidades italianas: Terni-cidade medieval das 100 Torres, de São Valentino, tradicionalista, tem a Cascata delle Marmore a mais alta cachoeira da europa a fluxo controlado que foi construida pelos Romanos no ano 54 antes de Cristo, cidade onde cada dia se descobre algo novo- e Roma- cidade de contrastes, lida ao contrário significa amoR e é impossivel não amá-la, é o berço da história da humanidade, abriga o Vaticano e muitas coisas mais.
Certamente essa nova fase de cidades é um prato cheio para saciar minha fome de ver o mundo e aprender com tudo que tem ao meu redor.

Frio, ah o frio. Eu sabia que ele ia chegar... não chega discretamente, e nem faz questão de ser convidado. O frio já esta, e basta. Já começo a sentir dificuldade em manter o bom humor, ja não vejo mais tanta graça nas pessoas. Dizem que junto do frio chega uma depressão, um vontade de não sei bem o que... Dizem.
As notícias do Brasil não param de chegar. A Geisy, é a nova Geni. Aparecendo até nos noticiários italianos... As meninas daqui, no verão, se vestem realmente pouco, é uma pornografia caminhar em certas partes da cidade quando esquenta muito.
Na minha modesta e sincera opnião, aquele vestido realmente é muito curto, e acaba tirando a concentração dos alunos heterossexais do tipo São Jorge, que podem eventualmente ter um lapso erótico durante a aula de turismo na Uniban.
Aliás, como seria uma aula de turismo na Uniban? Precisa de diploma de turismo pra trabalhar? São muitas perguntas e nenhuma resposta. Desejo toda boa sorte do mundo pra Geisy e quiçà ela não se dê conta que essa mídia toda que ela atraiu vale mais do que uma pilha de diplomas de turismo Unibanienses.
Agora também estão falando do apagão no Brasil. Meus amigos da máfia napoletana que assola meu apartamento vem comentar comigo, me perguntam o que aconteceu, se é grave a situação e quais as consequencias sócio-politico-ambientais de tamanha catástrofe... Eu pacientemente respondo que o Brasil tem muitas usinas nucleares escondidas na Amazônia, igualzinho o Iran e que é tudo culpa dos hackers americanos, que invadiram a central de Itaipu. E finalizo dizendo que o grande problema do mundo são os comunistas, que estão em toda a parte, e que deveriam ser exilados em Cuba ou na Coréia do Norte.
A rotina aqui está impressionante. O desgraçado sai do Brasil pensando em mudar alguma coisa e depois de 6 meses está substancialmente trabalhando numa agência e fazendo as mesmas coisas que fazia, só que em outro idioma, e com frio. E com saudades de casa. Qual será a maldita lógica que leva as pessoas a migrarem? A ter vontade de mudar?
E como é possivel estar morando mal, vivendo na improvisação, solidão e saudade, e ao mesmo tempo, se olhar no espelho do banheiro de manhã e se sentir o sujeito mais feliz e sortudo do mundo? Acordar com mau humor e fome, xingar em português, italiano e inglês, entrar no metrô lotado, sentir nojo de um maldito que está espirrando do seu lado e chegar no trabalho como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo?
São muitas perguntas e nenhuma resposta. O rapaz que fica na entrada da estação do metrô distribuindo jornal de manhã, é brasileiro. Eu sempre fiquei ali observando ele fazer o seu melhor, sorrir e dizer as notícias importantes do dia, diante de uma multidão de gente apressada, emburrada e indiferente. Depois de algumas semanas de observação, cheguei ali, peguei um jornalzinho...
-Buongiorno! Oggi c'è il film di Michael Jackson! disse o rapaz sorridente em italiano
-Bom dia Brasil! - respondi, enquanto ja me dirigia a entrada do metrô.
-É brasileiro? - ele respondeu curioso, me olhando no olho.
-Graças a Deus! respondi gritando, ja na metade da escada da entrada da estação.
Fiquei com isso na cabeça. "Graças a Deus, sou brasileiro."
Será que todo esse esforço de pegar a cidadania foi só pra dar valor a uma coisa que sempre fui e sempre tive?
Foto: Kozalik Attila
Melhor pensar um pouco menos, afinal são sempre muitas perguntas. E aparentemente, nenhuma resposta. Pra esses momentos de intensa atividade filosófica abstrata e inútil, inventaram o futebol. E o verdão tá foda, já estava com o campeonato ganho, e deixou o São Paulo encostar. Aguardemos ansiosamente os desdobramentos do campeonato brasileiro de 2009, enquanto a rotina tenta a por a vida nos trilhos novamente, e as perguntas seguem aumentando, sem nenhuma resposta satisfatória no horizonte.
Fragmentos.
Meia noite e quinze.
Um motorino (uma vespa vermelha modelo novo) com duas meninas cruza a Porta Maggiore, em direçao ao bairro boêmio de San Lorenzo. Cabelos cacheados e escuros, olhos verdes. Bota de couro e jeans, além de uma jaqueta branca e as tradicionais luvas pretas. Sempre muito maquiadas, fumando um cigarro e falando no celular (enquanto dirige a vespa). A de trás é loira, magra e alta. Também de bota, e jeans, mas essa veste um casaco de couro muito mais clássico e estiloso. A cena parece saida de uma revista de moda, o chao de paralelepipedos um pouco molhados do sereno refletindo a lua, as paredes grafitadas, as luzes da cidade e as meninas correndo despreocupadamente na vespa vermelha, indo pra baladinha.
Sete da manhã.
Frio de 6 graus, a névoa encobre os prédios não muito altos da Via Prenestina. Por entre os particulares e altissimos pinheiros romanos, passa uma linha de bonde. Tem uns bondes ultramodernos limpos e espaçosos, e tem os velhos "anni settanta" verdes, frios, descomôdos e sujos. Os anni settanta não passam pelo centro histórico, ficam invisíveis aos olhos dos turistas. Na definição do Alessandro, napoletano da mafia do apê : "Un sacco di gente brutta" . Nos bancos gastos e encardidos do bondinho, um filipino, um africano, uma peruana e um chinês. De pé, um italiano jovem de óculos escuros, gel no cabelo, narigão e boina. E nenhum deles será visto pelo tsunami de turistas que vem a Roma todo santo dia.

Quatro da tarde.
Um velho sentado fumando seu cigarro e lendo o jornal no ponto de ônibus na Via Veneto. Um grupo de jovens italianos falando alto e acompanahdos de seus cachorros. Eles tem a sombrancelha desenhada e os cilios feitos, cabeça raspada tipo "maquina 1" e usam brinco. O velho move a cabeça alguns milimetros ao lado, e enquanto assopra a fumaça, torna a cabeça na posiçao original. Ele provavelmente não quer gastar mais do que 5 segundos olhando pra nova geração.
Onze e meia da noite.
No Pigneto, bairro de origem operária, que está se tornando espécie de meca dos alternativos. É também o lugar onde vivo.
Em uma enoteca (especie de boteco onde se servem uns mil tipos diferentes de vinho, e comidinhas como sandubas e porçoes de frios). Tudo muito simples e descontraido. No lugar de mesas, barris. No lugar de gente bonita e elegante, alguns velhos pançudos ouvindo futebol, e jovens mais relaxados, barba por fazer, de bicicleta, roupas confortáveis e cigarros marroquinos suspeitíssimos.
O dono do lugar se chama Tommaso, vive de camisa social e gravata, e é de uma sobriedade que contrasta com o nivel etílico dos frequentadores habituais. Entre velhos e jovens, alguns estrangeiros, a maioria mulheres namoradas de italianos. Tem uma portuguesa, uma angolana, uma brasileira. De homem estrangeiro tem um velhinho negão, que fala um italiano impecável e que está sempre ali, como um patrimônio do lugar. E tem eu que fico meio de canto, copo de vinho na mão e observando a vida passar lentamente na cidade eterna.
Quanto mais longe estou, mais eu vejo São paulo dentro de mim.
Nenhuma novidade, qualquer um que já morou fora sabe disso... Aqui, tão longe, eu vejo toda a grandeza, o caos e a vitalidade da cidade.
A vontade de ser sempre melhor e maior, o inconformismo, o sentimento de ser cosmopolita e vontade de estar sempre à frente do tempo. Aqui na velha Europa, a força de São Paulo chega muito mais forte no meu coração. Os temporais inacreditáveis, (cada puta toró) os problemas, as soluções, a criatividade, o complexo de viralata, o dinheiro, as tentações e os prazeres escondidos.
Os prédios e edifícios impetuosos que surgem semana após semana, a desigualdade brutal que expulsa pobres pra periferia, a paisagem que muda, as árvores que teimam em nos lembrar que o mundo nao é todo de concreto.
Afinal, o mundo é ali mesmo, entre pinheiros e o centro, nos quatro pontos cardeais das linas azul e vermelha do metrô. Enquanto o mundo gira lentamente, São Paulo esta correndo... Enquanto as fontes de Roma despejam água mineral no mármore carrara de 500 anos, nós estamos fazendo viadutos, pontes, túneis, estamos erguendo prédios de luxo no Itaim e predinhos do CDHU na perifa, bem longe da vista de quem se move por detrás dos vidros blindados no Jardim Europa.
Ah, o Jardim Europa... A criatividade dos ladrões brasileiros, versus a seriedade das empresas de segurança israelenses. Toda a tecnologia anti-crime, assinaturas biométricas, cameras, conexão via satélite e blindagem de adamantium anti-fuzil, na portaria do Seu Firmino, que ganha 450 reais por mês e mora no Jardim Irene.
Fora do caos paulistano, a alma fica dividida, meio perdida. Você pode sair da cidade, mas ela nao sai de você.
