

Pé Na Bota é um blog do Portal MTV que fala sobre as aventuras de um descendente de italianos redescobrindo suas origens. Editado por Rafael Chaves, designer que largou tudo em São Paulo, direto de Roma, Itália.
Frio, ah o frio. Eu sabia que ele ia chegar... não chega discretamente, e nem faz questão de ser convidado. O frio já esta, e basta. Já começo a sentir dificuldade em manter o bom humor, ja não vejo mais tanta graça nas pessoas. Dizem que junto do frio chega uma depressão, um vontade de não sei bem o que... Dizem.
As notícias do Brasil não param de chegar. A Geisy, é a nova Geni. Aparecendo até nos noticiários italianos... As meninas daqui, no verão, se vestem realmente pouco, é uma pornografia caminhar em certas partes da cidade quando esquenta muito.
Na minha modesta e sincera opnião, aquele vestido realmente é muito curto, e acaba tirando a concentração dos alunos heterossexais do tipo São Jorge, que podem eventualmente ter um lapso erótico durante a aula de turismo na Uniban.
Aliás, como seria uma aula de turismo na Uniban? Precisa de diploma de turismo pra trabalhar? São muitas perguntas e nenhuma resposta. Desejo toda boa sorte do mundo pra Geisy e quiçà ela não se dê conta que essa mídia toda que ela atraiu vale mais do que uma pilha de diplomas de turismo Unibanienses.
Agora também estão falando do apagão no Brasil. Meus amigos da máfia napoletana que assola meu apartamento vem comentar comigo, me perguntam o que aconteceu, se é grave a situação e quais as consequencias sócio-politico-ambientais de tamanha catástrofe... Eu pacientemente respondo que o Brasil tem muitas usinas nucleares escondidas na Amazônia, igualzinho o Iran e que é tudo culpa dos hackers americanos, que invadiram a central de Itaipu. E finalizo dizendo que o grande problema do mundo são os comunistas, que estão em toda a parte, e que deveriam ser exilados em Cuba ou na Coréia do Norte.
A rotina aqui está impressionante. O desgraçado sai do Brasil pensando em mudar alguma coisa e depois de 6 meses está substancialmente trabalhando numa agência e fazendo as mesmas coisas que fazia, só que em outro idioma, e com frio. E com saudades de casa. Qual será a maldita lógica que leva as pessoas a migrarem? A ter vontade de mudar?
E como é possivel estar morando mal, vivendo na improvisação, solidão e saudade, e ao mesmo tempo, se olhar no espelho do banheiro de manhã e se sentir o sujeito mais feliz e sortudo do mundo? Acordar com mau humor e fome, xingar em português, italiano e inglês, entrar no metrô lotado, sentir nojo de um maldito que está espirrando do seu lado e chegar no trabalho como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo?
São muitas perguntas e nenhuma resposta. O rapaz que fica na entrada da estação do metrô distribuindo jornal de manhã, é brasileiro. Eu sempre fiquei ali observando ele fazer o seu melhor, sorrir e dizer as notícias importantes do dia, diante de uma multidão de gente apressada, emburrada e indiferente. Depois de algumas semanas de observação, cheguei ali, peguei um jornalzinho...
-Buongiorno! Oggi c'è il film di Michael Jackson! disse o rapaz sorridente em italiano
-Bom dia Brasil! - respondi, enquanto ja me dirigia a entrada do metrô.
-É brasileiro? - ele respondeu curioso, me olhando no olho.
-Graças a Deus! respondi gritando, ja na metade da escada da entrada da estação.
Fiquei com isso na cabeça. "Graças a Deus, sou brasileiro."
Será que todo esse esforço de pegar a cidadania foi só pra dar valor a uma coisa que sempre fui e sempre tive?
Foto: Kozalik Attila
Melhor pensar um pouco menos, afinal são sempre muitas perguntas. E aparentemente, nenhuma resposta. Pra esses momentos de intensa atividade filosófica abstrata e inútil, inventaram o futebol. E o verdão tá foda, já estava com o campeonato ganho, e deixou o São Paulo encostar. Aguardemos ansiosamente os desdobramentos do campeonato brasileiro de 2009, enquanto a rotina tenta a por a vida nos trilhos novamente, e as perguntas seguem aumentando, sem nenhuma resposta satisfatória no horizonte.
Fragmentos.
Meia noite e quinze.
Um motorino (uma vespa vermelha modelo novo) com duas meninas cruza a Porta Maggiore, em direçao ao bairro boêmio de San Lorenzo. Cabelos cacheados e escuros, olhos verdes. Bota de couro e jeans, além de uma jaqueta branca e as tradicionais luvas pretas. Sempre muito maquiadas, fumando um cigarro e falando no celular (enquanto dirige a vespa). A de trás é loira, magra e alta. Também de bota, e jeans, mas essa veste um casaco de couro muito mais clássico e estiloso. A cena parece saida de uma revista de moda, o chao de paralelepipedos um pouco molhados do sereno refletindo a lua, as paredes grafitadas, as luzes da cidade e as meninas correndo despreocupadamente na vespa vermelha, indo pra baladinha.
Sete da manhã.
Frio de 6 graus, a névoa encobre os prédios não muito altos da Via Prenestina. Por entre os particulares e altissimos pinheiros romanos, passa uma linha de bonde. Tem uns bondes ultramodernos limpos e espaçosos, e tem os velhos "anni settanta" verdes, frios, descomôdos e sujos. Os anni settanta não passam pelo centro histórico, ficam invisíveis aos olhos dos turistas. Na definição do Alessandro, napoletano da mafia do apê : "Un sacco di gente brutta" . Nos bancos gastos e encardidos do bondinho, um filipino, um africano, uma peruana e um chinês. De pé, um italiano jovem de óculos escuros, gel no cabelo, narigão e boina. E nenhum deles será visto pelo tsunami de turistas que vem a Roma todo santo dia.

Quatro da tarde.
Um velho sentado fumando seu cigarro e lendo o jornal no ponto de ônibus na Via Veneto. Um grupo de jovens italianos falando alto e acompanahdos de seus cachorros. Eles tem a sombrancelha desenhada e os cilios feitos, cabeça raspada tipo "maquina 1" e usam brinco. O velho move a cabeça alguns milimetros ao lado, e enquanto assopra a fumaça, torna a cabeça na posiçao original. Ele provavelmente não quer gastar mais do que 5 segundos olhando pra nova geração.
Onze e meia da noite.
No Pigneto, bairro de origem operária, que está se tornando espécie de meca dos alternativos. É também o lugar onde vivo.
Em uma enoteca (especie de boteco onde se servem uns mil tipos diferentes de vinho, e comidinhas como sandubas e porçoes de frios). Tudo muito simples e descontraido. No lugar de mesas, barris. No lugar de gente bonita e elegante, alguns velhos pançudos ouvindo futebol, e jovens mais relaxados, barba por fazer, de bicicleta, roupas confortáveis e cigarros marroquinos suspeitíssimos.
O dono do lugar se chama Tommaso, vive de camisa social e gravata, e é de uma sobriedade que contrasta com o nivel etílico dos frequentadores habituais. Entre velhos e jovens, alguns estrangeiros, a maioria mulheres namoradas de italianos. Tem uma portuguesa, uma angolana, uma brasileira. De homem estrangeiro tem um velhinho negão, que fala um italiano impecável e que está sempre ali, como um patrimônio do lugar. E tem eu que fico meio de canto, copo de vinho na mão e observando a vida passar lentamente na cidade eterna.
Quanto mais longe estou, mais eu vejo São paulo dentro de mim.
Nenhuma novidade, qualquer um que já morou fora sabe disso... Aqui, tão longe, eu vejo toda a grandeza, o caos e a vitalidade da cidade.
A vontade de ser sempre melhor e maior, o inconformismo, o sentimento de ser cosmopolita e vontade de estar sempre à frente do tempo. Aqui na velha Europa, a força de São Paulo chega muito mais forte no meu coração. Os temporais inacreditáveis, (cada puta toró) os problemas, as soluções, a criatividade, o complexo de viralata, o dinheiro, as tentações e os prazeres escondidos.
Os prédios e edifícios impetuosos que surgem semana após semana, a desigualdade brutal que expulsa pobres pra periferia, a paisagem que muda, as árvores que teimam em nos lembrar que o mundo nao é todo de concreto.
Afinal, o mundo é ali mesmo, entre pinheiros e o centro, nos quatro pontos cardeais das linas azul e vermelha do metrô. Enquanto o mundo gira lentamente, São Paulo esta correndo... Enquanto as fontes de Roma despejam água mineral no mármore carrara de 500 anos, nós estamos fazendo viadutos, pontes, túneis, estamos erguendo prédios de luxo no Itaim e predinhos do CDHU na perifa, bem longe da vista de quem se move por detrás dos vidros blindados no Jardim Europa.
Ah, o Jardim Europa... A criatividade dos ladrões brasileiros, versus a seriedade das empresas de segurança israelenses. Toda a tecnologia anti-crime, assinaturas biométricas, cameras, conexão via satélite e blindagem de adamantium anti-fuzil, na portaria do Seu Firmino, que ganha 450 reais por mês e mora no Jardim Irene.
Fora do caos paulistano, a alma fica dividida, meio perdida. Você pode sair da cidade, mas ela nao sai de você.
Salve, Salve, Salve a todos que não desistiram de ver atualizações aqui no blog!
Sim, já estou prevendo que serei expulso pela pouca atenção que dou a esse meu espaço gentilmente cedido pela MTV, mas enquanto isso, vamos aos fatos:
Agosto, Férias!
Roteiro? Viagem de bike!
Na Croácia? Não!
Na Italia? Não!
Em Mallorca, uma ilha espanhola q fica a uma noite de barco partindo de Barcelona.

E vcs tem planejamento? Conhecem o lugar? Carro de apoio? Plano nutricional especifico? Fazem alongamento e aquecimento antes de pedalar? GPS?
Não!
Viagens de bike ao estilo "se joga muleke".
Quem é fraco se arrebenta. Chegamos lá e vamos indo pra frente, perguntando nas paradas, conhecendo o inusual. A ideia é fugir dos pontos mais turisticos e gastar o mínimo possível. Acampar na praia, no terreno, sempre sem pagar. Comer o menu (famoso PF) paella, bocadillos de Jamón Serrano, fazer compras nos mercados e seguir pedalando. Tomar banho nas duchas das praias e chocar a galera com a bagunça, alegria, discussões, e coragem de se meter nas carreteiras do interior da ilha, rumo as praias mais escondidas. Acho que a palavra é chocar mesmo.

Vimos muita estrutura pra bikes, ciclovias... vimos muitos gringos com bike, tiozinhos de speed e gente que alugava uma magrela pra fazer uma passeio de um dia... Mas bike carregada, com mochila e barraca, e cruzando a ilha toda só nóis. Tem mesmo algo de alienígena em ver uma bike toda cheio de coisas amarradas, com um maluco em cima com chapeu, oculos, bandeirinha, agua, mapa... seja numa cidadezinha do interior, seja numa estrada e mesmo a beira de um super resort.
Resumindo, 8 dias de viagem, 380 kms pedalados (uns 10km empurrados devido aos pneus furados), um belo giro na parte não-montanhosa da ilha. Perna doendo, bunda doendo, cabeça tranquila, 2 kilos mais magro e visual do naufrago. Acampamos 4 noites e dormimos em hosteis baratos quando possivel.

8 dias falando português paulistano com os camaradas. Putamerda meo! Bagulho tava mei zuado, siniiishtro, uma pà de tipo estranho, tudo que mora em barça, os trutas do meu irmão. So eu de Roma. (Vc mora em Roma? O que vc faz lá? Porque escolheu a Italia?) Aproveitei pra esquecer todo italiano que levei meses pra aprender com saudáveis discussões sobre o campeonato brasileiro, a liderança do verdão, a arrancada saopaulina e o primeiro semestre impecável do curintias.
E agora? Agora é tentar manter o espirito de liberdade nômade, meio mendingo favelado de bicicleta, ciganos sem destinos em duas rodas.
Manter na cabeça esse estado de espírito e encarar o resto do ano, trabalhando no escritório, pagando contas e impostos e esperando ansiosamente a próxima oportunidade de desligar o celular, e o computador. Não ler os emails, não atualizar o twitter, o orkut, mandar o facebook e o flickr ao inferno, desencanar até do blog e montar na magrela sem lenço nem documento, dando as costas aos problemas cotidianos numa vibe mezzo easy rider, mezzo hatuna matata.

E ai? Tu tem coragem de gastar suas férias assim?
Acabei de ouvir um romano falar a palavra "caçarola", igualzinho a vovó mafalda fazia.
Cazzarola!
Obviamente, já incorporei ao meu vocabulario.
Nem sei como começar esse post... Talvez eu comece pedindo desculpas pelo abandono, e dizendo que sinto vergonha por tamanho relaxo de minha parte.
Depois de um longo periodo de abandono, o blog começou lentamente a entrar em processo de hibernação.
Digamos que muita coisa aconteceu desde então na minha vida... a principal dessas coisas foi que eu fui contratado por aquela agência em que fiz uma entrevista de emprego... Uma agencia irada, criativa e interessante, cujo unico defeito é ficar longe pracaralho, e me obrigar a pegar um trem ridiculo todo dia (busão, metro, trem, busao) ... Alias, isso nem é defeito, digamos que faz parte da minha experiência, a experiência de lidar com o transporte publico caótico de Roma, a ponto de sentir saudade do metrô de São Paulo.
Saudade, São Paulo.
Naturalmente, larguei o bar. Com um pouco de dor no coração, pois eu realmente me divertia fazendo drinks, e cheguei a ficar amigo do Capo, conhecer alguns clientes pelo nome... Mas a vida é assim, e eu continuo frequentando o Vida do Brasil como cliente. As caipirinhas do brasiliano vão ficar pra sempre na memória alcolica do Pigneto. Ou não, afinal os bebados sempre esquecem. O fato é que eu nao esquecerei dos meus bebuns, que eu embriagava com tanta dedicação.

A agência me ofereceu um contrato de trabalho e uma oportunidade de trabalhar legalmente na minha profissão. O maior empecilho é meu italiano que ainda é meio tosco, apesar de eu poder me comunicar bem, ainda erro tempos verbais e algumas palavras fogem... Praticamente, italiano indigena, um acento ianomami talvez. Escrever emails em italiano é mais dificil que fazer o trampo em si, mas creio que é uma questão de tempo pra parlare bene l'italiano.
Outra novidade é que agora eu sai da fase da economia de guerra. Não que eu esteja nadando em dinheiro, mas ao menos agora ja posso respirar um pouco mais... até comecei a pagar o ônibus, pago 18 euros por mes, (ao inves dos 30 euros normais) pois compro o abonamento de estudantes. (santa cara de pau, batman)

A minha vida começou lentamente a se adapatar a rotina que eu ja conhecia tao bem em São Paulo... Agencia, briefing, prazo, refação... mas tudo com um tempo diferente, um jeito um pouco particular, como tudo aqui na Italia.
Sinto saudades do Brasil praticamente todo dia. Sinto falta da familia, dos amigos, sinto falta de não fazer nada e de ter que fazer tudo pra ontem. Sinto saudades dos lugares, como a Lapa, Pinheiros, Pompéia, Sumaré, Butantã... Sinto falta do centro, da Bela Vista e da Vila Formosa. Sinto que quase tudo me faz falta, menos uma coisa. O antigo Rafael. Aquele que um dia nasceu, morou e amou Sao Paulo não existe mais... Ele virou um imigrante. Tem cidadania, mas se sente mais brasileiro que nunca. Esse novo cara que surgiu está lentamente aprendendo a lidar com uma cultura estranha, e tentando construir uma vida diferente da que um dia já teve. Parece que não, mas a cultura Italiana pode ser sufocante em alguns momentos... Eu acho que o problema é o excesso de influência do Vaticano na cabeça desses pobrezinhos. A seguir, cenas do próximo capítulo:
- A Mafia Napoletana que ocupa o meu apartamento descobriu que no proximo dia 19 é meu aniversário. Resolveram, em assembleia extraordinária, (ou seja, o Capo ordenou) Vamos fazer um churras de comemoraçao. Eu fiquei feliz demais com esses caras, que me conhecem a tao pouco tempo ja se preocuparem comigo a esse ponto. Mafiosos com bom coraçao, vamos fazer um churras no parque e esperando que nao sejamos presos ate o final do dia. Mantenho vocês atualizados, e quem sabe teremos o primeiro blogueiro preso da historia dos blogs da MTV. Um foto da mafia:

- Tenho um irmão que vive em Barcelona, e que menos de um mês atras estava sem trabalho, nem dinheiro nem tempo, pensando em voltar pro Brasil. Assim como eu, ele arranjou um emprego novo e nós estamos pensando em comemorar essa nova fase. Os dois com grana e com uma semana de férias... alguem ai já fez o litoral da Croácia? De bike? Alguma dica?
Um abraço a todos!
