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Direto de Nova York, Ronaldo Lemos trata de tecnologia e suas relações com a vida: cultura, economia, política, sociedade e assim por diante.

Ago31

EXCLUSIVO | Felipe Van Deursen entrevista Ronaldo Lemos

Para escrever o artigo A música nos anos 10, publicado na revista Superinteressante, o jornalista Felipe Van Deursen fez essa entrevista com o Ronaldo Lemos.

 

Mesmo com o comércio legal de música digital, a parcela destinada aos artistas é pequena. Lady Gaga, por exemplo, ganhou menos de US$ 200 quando atingiu 1 milhão de hits no site Spotify. Um estudo diz que é preciso vender 1200 álbuns no iTunes para ganhar somente um salário mínimo americano. Existe alguma mudança à vista? Qual é a tendência? Qual a solução para esse mercado se tornar mais rentável para os artistas? Existe essa preocupação dentro das gravadoras?

Esse é o modelo da indústria tradicional: mesmo vendendo muito, o percentual que é destinado aos artistas é pequeno. Para se ter uma ideia, o valor fica entre zero e 8%, mas a maioria dos casos gira em torno de 1% a 2%. A razão para isso é a necessidade de remunerar todos os intermediários que detêm direitos e compõem a cadeia da música no modelo tradicional. Nesse sentido, uma única faixa precisa dividir os valores muitas vezes entre 5 ou 6 titulares diferentes: a editora, a gravadora, o distribuidor, a plataforma online e assim por diante. Cada um levando um percentual, que compete com o quanto será atribuído ao artista em si. Por essa razão, muitos artistas optaram por romper com o modelo tradicional e passar a exercer maior controle sobre suas obras. Mesmo que vendam menos, o percentual que sobra é significativamente maior. São muitos os casos de artistas, tanto veteranos quanto iniciantes, que seguiram por esse modelo. Dentre eles, grandes artistas como o Radiohead e o Nine Inch Nails, ou artistas de pequeno e médio porte, como a Amanda Palmer, o Metric e o Saul Williams.  

 

Na sua opinião, que artistas sabem tirar proveito da atual situação da música para não só serem reconhecidos como também ganhar dinheiro? É possível comparar (em cifras, vendas de álbuns, físicos ou digitais, público de show), os artistas que fazem sucesso hoje com os da era pré-internet? Por quê?

O mais interessante do mercado musical de hoje é o surgimento de uma "classe média" de artistas, que é auto-sustentável e abraçou de forma inovadora a tecnologia para se viabilizar. São artistas que apostam fortemente no Twitter, Facebook, nos cadastros de e-mail, redes sociais, tudo para construir uma relação direta com os fãs. Há muitos exemplos interessantes. A Amanda Palmer (ex-vocalista da banda Dresden Dolls) usa o Twitter para vender seus novos lançamentos. Um EP digital com cinco músicas lançado no ano passado, por exemplo, em que o próprio consumidor escolhia o quanto pagar, tendo um preço mínimo 84 centavos de dólar. Em um mês ela faturou 100 mil dólares, contando para isso apenas com os contatos estabelecidos diretamente com seus fãs. Outro exemplo é a banda Metric, que segue na mesma linha. Eles dão suas músicas de graça na internet, em troca do cadastro dos seus fãs. A estimativa da banda é que cada e-mail de um fã que eles conseguem se converte em 3 dólares de receita anual. É claro que não tem mágica. Para construir uma base de fãs cada um desses artistas teve de trabalhar por anos. Mas a partir daí, ganham grande independência, inclusive da necessidade de aparecer em veículos da mídia tradicional.

O modelo de negócio (podemos chamar assim?) do Calypso, do tecnobrega e de tantos outros estilos periféricos de música mundo afora, sobre o qual você falou no TED SP, ainda é válido? Como ele está? Qual a perspectiva para ele no futuro?

O modelo de bandas como a Calypso ou de artistas do tecnobrega é ainda muito importante. Dá para dizer que esse é o modelo de negócios da música mais comum no mundo todo. Ele não é uma peculiaridade do Brasil. O kuduro em Angola, o bubblin no Suriname, os Sonidos Musicales no Mexico, a Cumbia Villera na Argentina, o Shaghann Pop e o Kwaito na Africa do Sul, todos são baseados no mesmo modelo. Trata-se de um modelo surgido na basea da pirâmide social, tanto de países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Ele parte do princípio de que a música é feita para circular. E a partir dessa circulação os negócios são gerados. E para isso, vale tudo: parcerias com os camelos, lan-houses, uso de celulares com Bluetooth para distribuir a música, sites de compartilhamento, MSN, redes sociais e assim por diante. Estudamos várias cenas musicais baseadas nesse modelo em várias partes do mundo e os resultados econômicos são positivos e surpreendentes. É claro que esse modelo enfrenta vários desafios, como a informalidade e a instabilidade que vem junto com ela. Mas é, claramente, um caminho que traz inovação, que incorporou a tecnologia de forma muita rápida e favorável.

 

Os hábitos no Brasil são diferentes, certo? O comércio legal de música online engatinha, enquanto praticamente todo mundo baixa música e filme como se não houvesse amanhã. Por quê? Questão de comportamento? “Malandragem?” Falta de policiamento? A propósito, existem pesquisas sérias a respeito desse padrão de consumo/comportamento no Brasil?

Esse é um tema do qual participei por 3 anos de uma pesquisa internacional que acaba de ser publicada. A Reuters chamou a pesquisa de "O melhor relatório sobre Pirataria de Música da História". Ele pode ser encontrado em www.piracy.ssrc.org. Nessa pesquisa, constatamos que a questão da pirataria nos países em desenvolvimento é relacionada a um problema econômico: os preços ofertados nos diferentes países são incompatíveis com os níveis de renda local. Por exemplo, uma única música em formato digital no Brasil custa em média R$2,20. É um preço maior do que o praticado os EUA (cerca de US$0,99). Com uma grande diferença: a renda do brasileiro é quatro vezes menor do que a do americano. Logo, ajustando o poder de compra local, o preço é absurdo (veja abaixo uma tabela que faz parte do estudo, mostrando o quanto custa o CD do Coldplay em cada país, com o ajuste do preço feito de acordo com o poder de compra). Logo, o problema não é de polícia: é um problema econômico. A esse respeito, o Brasil é um dos países que mais combate a pirataria no mundo. A cada ano são batidos recordes de apreensões e de repressão. O investimento público nessa área no país é exemplar. Foi criado até mesmo o CNPC, Conselho Nacional de Combate à Pirataria, ao nível do Governo Federal. Nenhum outro país do mundo tem essa estrutura e esse nível de investimento. A questão é que mesmo investindo-se todos esses recursos, a pirataria continua. Enquanto o problema enconômico continuar, não adianta investir em repressão. O problema da pirataria será resolvido no campo econômico, ajustando-se os preços ao poder de compra local, e não no campo da repressão.

 

 

Aliás, sobre números e pesquisas. Em um artigo na Trip, você disse que dados assim a respeito de pirataria são sempre duvidosos. Mantém a opinião? Não existem pesquisas sérias? E o que acha das citadas acima?

Os números que são divulgados pela indústria sobre pirataria precisam de análise muito cuidadosa. A pesquisa internacional que mencionei, realizada em diversos países, aponta esse problema. Ela mostra que há cifras inflacionadas e até números que não existem. Por exemplo, há anos é divulgada a informação de que o Brasil perde 2 milhões de empregos por ano por pirataria. O número é creditado à Unicamp. Só que, procurando na universidade, a pesquisa não existe. A própria MPAA, que é a associação da indústria do cinema nos EUA, passou por vários problemas por conta de informações erradas divulgadas. Por exemplo, teve de se retratar quando disse que 44% dos prejuízos da pirataria eram de responsabilidade dos estudantes. O número certo seria 15%, um erro grosseiro. A mesma MPAA também foi questionada pelo Tribunal de Contas norte-americano devido a imprecisão dos números que divulga. Logo, é preciso enorme cuidado ao analisar os números divulgados pela indústria. O problema é que eles são usados para pedir mais repressão ao governo. Em países como o Brasil, em que o sistema criminal já é sobrecarregado e os investimentos na área já são exageradamente altos, isso acaba sendo uma política equivocada. Muito melhor seria se a MPAA e outros representantes da indústria trabalhassem para adatar seus regimes de preço à realidade econômica local, inclusive abraçando mecanismos de distribuição digitais. Daí sim a pirataria diminuiria de verdade. 

 

Medidas como o Compartilhamento Legal podem dar certo no Brasil? Qual sua opinião?

O projeto Compartilhamento Legal é muito interessante. Ele é baseado em estudos econômicos sérios que apontam que o um modelo viável do ponto de vista econômico para a distribuição seria a cobrança de uma pequena taxa, de 3 reais por exemplo, junto aos provedores de acesso. Esse valor seria recolhido e então distribuído aos artistas. A partir daí seria criada uma licença universal que permitiria o download ilimitado de músicas. Esse modelo está sendo debatido em vários países, do Canadá à Alemanha. Acho uma solução muito interessante. Seria uma forma de remunerar os artistas ao mesmo tempo em que resolve a questão do ponto de vista da legalidade de conduta do usuário.

 

O Cory Doctorow, do Boing Boing, escreveu há um ano no Guardian que o streaming não vai acabar com o download, que uma coisa não anula a outra e que a indústria não deveria se preocupar com essa forma talvez menos danosa de download, que ela deveria encará-lo como um “rádio 2.0”, que serve para divulgar a música e fazer com que as pessoas conheçam mais e comprem mais. Qual sua opinião a respeito? Vimos que streaming é hábito crescente, especialmente em sites de vídeo, mas você também acha que é uma natureza diferente de consumo?

Conheço muito o Cory e gosto das opiniões dele de modo geral. Nesse caso, concordo que o streaming atende a uma modalidade de consumo específica: o acesso imediato e efêmero à música. O download atende a outras necessidades, de coleção e portabilidade total da música. E é claro que há serviços que unem as duas coisas, como o Rdio, que permite o download para um dispositivos específico (celular ou computador), enquanto a mensalidade do serviço estiver sendo paga. Se a mensalidade para de ser paga, o acesso é suspenso. Mas acho que o streaming é um modelo transitório. Ele é o melhor que a indústria conseguiu organizar na atuação situação de direitos. Por exemplo, nenhum dos grandes serviços de streaming funciona no Brasil. A razão para isso é a dificuldade imensa de se licenciar os conteúdos para serem oferecidos no país. O streaming tem a vantagem de aproximar o modelo de distribuição da música daquele do Compartilhamento Legal, mas não resolve o problema e tem deficiências que dificilmente vão ser superadas.

 

Por falar em “ver música”, a MTV Brasil, sua nova casa, agora tem na programação o Não tem Clipe mas é Legal. Pelo que percebi, é o jeito MTV de mostrar essa tendência, apontada pela Nielsen, de ver música no YouTube – mesmo que naquele jeito simplório somente com a capa do álbum rolando no vídeo. Você acha que é por aí? Os clipes (ou somente o vídeo da música, sem clipe, como no programa novo) podem apontar uma nova era na música digital? 

Acho que o objetivo da MTV é um pouco diferente. Ele tem mais a ver com a nessidade de "filtragem", de "curadoria". Vivemos em um mundo que tem informações demais e isso vale também para a música. Há tantos artistas, músicos e cenas novas, que é difícil acompanhar. Com isso surge a necessidade de serviços e sites que fazem o filtro, que selecionam o que é legal conhecer e acompanhar. O Não Tem Clipe segue nessa linha. Mostra o que é interessante em um oceano de informações musicais. Por essa mesma razão cresce a importância de sites como Pitchfork Music, que fazem a mesma coisa: apontam o que é legal de ser seguido. O papel do curador e do filtro é cada vez mais importante.

 

Apple, Google e Amazon estão entrando em uma nova briga na música digital, tudo com base no armazenamento em nuvem. O que você acha disso? Haverá alguma mudança significativa para o usuário? E para o artista? 

O armazenamento na nuvem só faz sentido para países que resolveram o problema da infraestrutura de acesso à internet. Para ter acesso à música que é armazenada remotamente você precisa de uma conexão excelente e barata. Não é o caso do Brasil e da maioria dos países em desenvolvimento. O objetivo do armazenamento na nuvem, por exemplo, é permitir que o usuário possa acessar qualquer música a qualquer momento, por exemplo, no seu celular. No Brasil, se algumas centenas de milhares de pessoas começarem a usar o serviço intensivamente já seria o suficiente para gerar um enorme engarrafamento nas redes de acesso à internet pelo celular no país. O modelo é interessante e promissor. Mas ele demanda uma universalização da infraestrutura e uma qualidade de acesso que ainda estamos longe de ter.

 

Medidas como a three strike law, implementadas na França e na Irlanda (outros países a usam?), que prometem banir da internet a pessoa que infringir a lei 3 vezes, têm efeito? O que você acha?

Os primeiros estudos sobre a lei francesa estão começando a sair agora. E seu impacto sobre aumentar a aquisição legal de música tem sido pífio. Além disso, são leis muito fáceis de serem burladas e seu efeito prático para quem quer ter acesso ilegal à música é irrelevante. O problema dessas leis é que elas afetam gravemente direitos fundamentais, como a privacidade, o devido processo legal e outras garantias constitucionais. E nesse sentido são medidas extremadas e preocupantes. Muito mais eficaz seria a promoção de modelos econômicos que enxerguem a tecnologia como aliada e não como inimiga.

 

Houve alguma conclusão, algum caminho a ser seguido, uma tendência apontada para os próximos anos na Rethink Music? Qual foi sua impressão geral do encontro?

O encontro foi inédito. Pela primeira vez em anos reuniram-se na mesma sala usuários da internet, executivos de gravadores, artistas, agentes, sociedades arrecadadoras, empresários e assim por diante. Todos têm o mesmo diagnóstico: a música nunca esteve tão bem. Nunca houve tantos artistas, tanta música sendo produzida e ouvida. No entanto, o negócio da música enfrenta desafios. As receitas com a venda música gravada estão diminuindo. Ao mesmo tempo, outros modelos de negócio estão surgindo, mas não existe ainda um único caminho. Hoje os modelos de negócio são múltiplos e há muitas oportunidades. Mas não existe fórmula. O que funciona para o heavy metal muitas vezes não funciona para o sertanejo. Cada tipo de artista e gênero musical possuem peculiaridades econômicas. O segredo do sucesso é entender essa características específicas e construir relações diretas com os fãs.

 

Esse otimismo no Rethink Music foi uma novidade? Antes o clima era mais cinzento, digamos assim? Ou já é uma coisa de uns anos pra cá?

Não acho que o otimismo da conferência tenha sido novidade. A novidade foi o encontro de partes tão diferentes e abrangentes amplas da cadeia produtiva da música, que não tinham se encontrado antes. Acho também que o otimismo não é uma unanimidade na conferência. O otimismo era típico dos novos artistas jovens. Para as gravadoras, por exemplo, não havia tanto otimismo assim. Claramente havia uma divisão: a indústria tradicional está preocupada, mas em paralelo a ela surge uma nova indústria, mais leve e flexível, que está otimista. E o mesmo vale para os artistas que decidiram tomar a gestão das suas carrerias nas próprias mãos, estabelecendo novos modelos de parceria. Dá trabalho, mas a percepção é de que vale a pena.