
Eu conheci o som de Rafael Castro quando o MySpace era o melhor canal de música da rede, mas como o tempo virtual é mais rápido que a realidade, o Myspace deixou de ser o lugar certo para conhecer novos artistas. Mas Rafael Castro não ficou preso no site e muito menos num estilo musical.
A jóia acabou de lançar 'Lembra?' seu oitavo disco, e primeiro que chega em forma de CD. Todos os outros foram lançados virtualmente, e se você não conhece esse cara, minha jóia, te digo uma frase de Gilberto Gil: "Procure saber"!
Rafael Castro gravou 'Lembra?' sozinho, tocando todos os instrumentos, ainda produziu e mixou essa bolacha que tem uma pegada muito particular. Ouvindo o disco, eu fui guiado para várias referências... Tropicália, Jovem Guarda, funk 70 e muito experimentalismo. Mas não dá pra dizer que Rafael Castro apenas mistura tudo isso. Ele faz mais, e cria uma identidade própria que despeja em nossos ouvidos o que há de mais interessante nessa safra da música brasileira.
Enquanto você lê a entrevista que eu fiz com ele, vai baixando o disco que vale muito a pena: http://rafaelcastro.com.br/
China: Com tanta tecnologia à disposição para se gravar um disco, você resolveu registrar tudo de forma analógica, usando apenas 4 canais, assim como os Beatles gravavam seus discos mais importantes. Qual a maior dificuldade que você encontrou para gravar a bolacha nesse esquema?
Rafel Castro: Cara, dificuldade mesmo, não houve muitas. Eu curto muito esse negócio de gravar usando só a mesa pra fazer a pré, ficar fazendo experiência, inventando microfonação que não existe, fazendo gambiarra e tudo mais. Às vezes gasta-se um tempo a mais nessa por ter que refazer coisa que não dá pra acertar na mixagem, mas acho que essa coisa meio "experimental" em se comparando com os métodos mais tradicionais que rolam hoje em em dia, dão um colorido massa pra sonoridade, traz um quê orgânico jóia. Parece que soa diferente das outras coisas e isso aí me agrada um bocado.
Você produziu, mixou e tocou todos os instrumentos no disco. Queria saber como foi esse processo. Foi difícil tomar todas as decisões do que ia entrar e do que ficaria de fora no disco?
Eu acho que nos últimos anos eu fui aprendendo a me "cortar" mais. No começo era arranjo pra tudo quanto é lado, não formatava muita coisa e fazia pouca edição. Daí, aos poucos, eu fui aprimorando essa coisa de ir limpando a canção e deixando só o que fosse mais importante.
No 'Lembra?' eu consegui fazer isso mais acertadamente, até mesmo quanto ao repertório do disco, que inicialmente ia ser um disco triplo virtual, com umas 30 canções. Foi com a idéia de fazer o CD físico que eu cortei geral e selecionei essas 14 que ficaram. Isso também foi um acerto, já que disco triplo ia ser pentelhação demais até pro fã mais dedicado.
Te acho um compositor muito interessante e percebo que você sempre tenta fugir do lugar comum. Como nasce a música de Rafael Castro? tem um método específico?
A música nasce direto no meu estúdio caseiro. Fico gravando umas bases e já escrevendo a letra. Cueca, cigarro, às vezes uma biritinha, tudo muito livre e sem pressa de finalizar. As letras eu escrevo no computador, onde é fácil substituir as coisas. Na maioria das canções eu mais apago do que escrevo, sai uns cinco versos pra ficar um, e acho que dessa insatisfação constante vem a fuga do lugar comum. Se parece alguma coisa, deleta!
O que você acha dessa nova safra da música brasileira?
Acho foda! É nêgo bom pra tudo quanto é lado e a diversidade é imensa. Quase não tem gente fazendo um som que se pareça com o do outro. As ondas de cada um são bem particulares e isso é ótimo. Parece que no passado tinha muito aquele negócio de "movimento" e aquela coisa de gravadora também, daí era tudo muito pasteurizado.
Uma infinidade de bandas parecidíssimas entre si na jovem guarda, depois aquela conceitualidade repetitiva da Tropicália, daí aquele monte de banda copy and paste de rock progressivo insuportáveis... Hoje o pessoal não tem tanto template nem rabo preso e eu acho isso do caralho.