Alec Empire, do Atari Teenage Riot: "Temos muito a dizer"
O Atari Teenage Riot versão 2012 chegou no estúdio do produtor Arthur Joly, na Zona Sul de São Paulo, numa tarde de quarta-feira, e imediatamente começou a apertar os infinitos botões dos sintetizadores do lugar.
Foi difícil tirar os caras do transe, mas consegui. Durante quase meia-hora, Alec Empire falou da volta do Atari Teenage Riot, explicando sobre o fim da banda lá em 1999, sobre todas as coincidências que cercaram o retorno e sobre como o retorno do ATR não é igual ao retorno de tantas bandas que estão fazendo isso hoje. Antes de ler, aperte o play:
Gaía: Por que voltar com o ATR?
Alec Empire: A resposta é longa, você está com tempo? (risos). Basicamente o que aconteceu foi que em 2009 Hanin Elias, que cantou em nossos discos mais antigos, me contactou via Facebook e perguntou se eu gostaria de fazer um show novamente. Agora, é importante saber a história de porquê nós não tocávamos há tanto tempo [NE: o ATR foi formado em 1992, parou oficialmente em 1999, voltou à ativa em 2010]. Foi basicamente porque, bom, nos anos 90 houve muitos episódios de Hanin abandonando a banda, muito caos, Carl Crack [integrante original do ATR junto com Elias e Empire, que foi encontrado morto em seu apartamento em Berlim em 2001] estava doente, problemas com drogas, esse tipo de coisa. E houve um show em particular, depois de muitos meses de tour onde todos nós estávamos esgotados, praticamente caídos. Foi no Brixton Academy, em 1999. Há inclusive uma filmagem desse show, Hanin simplesmente sai do palco durante a passagem de som e, como você pode imaginar, esse era um show bastante importante. Depois disso, nós não nos falamos muito mais. Nós achamos que foi muito injusto com a banda.
ATR com Hanin Elias, Berlim, 1999
Então basicamente havia um clima muito ruim e nós achamos que era hora de dar um tempo, até porque estávamos muito cansados após uma tour tão longa e a parte realmente triste é que Carl Crack morreu mais ou menos um ano depois. Depois disso, nós realmente não sentimos vontade de voltar.
Mas eu gosto de dar um final positivo para as coisas, então, quando ela falou comigo depois de tantos anos, eu pensei "bom, por que não, uma vez que as coisas acabaram de forma tão estúpida e negativa, quando haviam começado com uma intenção tão positiva". Então decidimos fazer um show em Londres. Eu estava trabalhando e tocando bastante com meu projeto Alec Empire Band, com Nic Endo [colaboradora de Empire e atual vocalista do ATR] e vários músicos, num esquema completamente diferente do ATR, então, pra mim, a banda parecia uma coisa realmente do passado. Muitos dos fãs hoje nem conhecem ou se lembram do ATR, a banda ficou como uma coisa obscura.
Eu não achava que um retorno estava em vista, com novo disco e anos de excursão. Achava que era apenas um show. Mas então várias coincidências começaram a acontecer. Pra começar, Hanin percebeu que não ia conseguir cantar. Isso depois do show já estar anunciado e com todos os ingressos vendidos. Ela percebeu que depois de ficar sem cantar por quase dez anos, ela não conseguiria gritar durante um show inteiro. Mas para mim e para a Nic ficou na verdade mais fácil, é mais simples fazer um show do ATR com todo esse equipamento, do que lidar com todos os músicos e instrumentos da Alec Empire Band. Então encaramos como uma coisa divertida. E também, toda vez que Hanin não podia cantar por algum motivo com o ATR nos anos 90, era Nic quem fazia os vocais. Mas a idéia era que Hanin não se sentisse tão pressionada. Eu disse que, em primeiro lugar, Nic estaria lá para fazer alguns dos gritos, e de qualquer forma existem muitas gravações do ATR que poderiam ser usadas, especialmente do primeiro e do segundo disco, que são ótimas canções em que Hanin não grita tanto. E ela tem uma boa voz quando não grita também. Mas quando faltava vinte minutos para a hora do show e Hanin realmente não apareceu, eu percebi que estava na mesma situação de dez anos antes.
Mas ao invés de ver isso como algo negativo, nós pensamos "ok, vamos lá, vamos tocar". E quando Nic subiu no palco, eu acho que o que foi bom foi que estavam esperando para ver se seria como antes e perceberam que não era uma reencenação. Há um novo MC, [CX KiDTRONiK] , que apareceu quase que por acidente - cerca de um ano antes, Nic e eu estávamos gravando com ele e quando ele soube do show, pediu para fazer, sei lá, uma música. Eu fui muito cético sobre isso, pensei que se ele quisesse substituir o Carl Crack de alguma forma a coisa ia dar errado, não funciona assim. Sabe, quando um integrante morre e a banda tenta substituir, os fãs nunca aceitam direito. Mas ele disse "olha, eu concordo, mas eu vou escrever minhas próprias letras e eu não quero copiar o que o outro cara fez, eu quero fazer meu próprio lance".
Foi aí que ficou interessante, porque eu e Nic vimos que ao invés de nós cantarmos as partes de Carl ou, pior, deixá-las em branco, era uma chance de confrontar as pessoas com algo novo, porque ele falar ia sobre acontecimentos de hoje, sobre a América, sobre racismo. Então pensamos: por que não dar às canções um novo significado, no contexto dos nossos tempos? Assim, o projeto de apenas um show ficou realmente interessante e nós nos sentimos pronto para o confronto, que se os fãs não gostassem, pelo menos nós não estávamos tentando reviver o passado, mas sim fazer algo que parecia certo para nós. E quando Hanin não apareceu e Nic cantou todo o show, as pessoas meio que ficaram surpresas com a energia nova, com o frescor do que estava acontecendo ali. Foi algo novo. E muitos dos críticos musicais da Inglaterra reagiram muito bem, o show foi muito elogiado. Houve até quem dissesse que o show tem mais energia agora do que lá atrás, nos anos 90, mas eu acho que são coisas realmente bem diferentes.
Outra coisa importante é que o público hoje é outro. E isso é algo que eu não estava esperando, não estava esperando nem um pouco. Eu não tinha isso no meu radar, todos esses fãs de Crystal Castles, Pendulum, Bloody Beetroots... eu estava trabalhando com coisas totalmente diferentes, não sabia que existia essa sonoridade hoje, essa cena. A coisa toda se tornou bem interessante, desafiadora, divertida e nós fomos acrescentando alguns shows.
Durante esse show no Japão, que aconteceu em um grande festival, o [DJ, produtor e dono da gravadora Dim Mak) Steve Aoki disse "ok, se vocês acabarem gravando um disco, posso lançar pela Dim Mak?". Nós passamos uns dias fazendo piada sobre isso, mas em algum momento eu achei era uma ótima oportunidade - tudo isso que têm acontecido com o Anonymous, Wikileaks, os protestos. Nós podemos falar sobre isso, há muito a ser dito. Nós realmente poderíamos fazer um novo disco, faz sentido. E continuamos acrescentando mais shows à agenda - eu pensei que mais uns três meses depois do lançamento do disco, não mais que isso. Mas ainda estamos aqui. E não é como todas as outras bandas que estão voltando e tocando as mesmas músicas. Nosso show atual é bem diferente.
O ATR está em São Paulo encerrando uma rápida tour pela América do Sul. O show acontece hoje, no Cine Jóia, centro da cidade, e pintou por iniciativa de um fã, o publicitário Bruno Tozzini, que é também autor das fotos dessa matéria. Tozzini ajudou a espalhar os termos "digital hardcore" e "breakcore" no Brasil no começo dos anos 2000 ao comandar uma festa chamada TEMP. Quando soube do retorno do grupo aos palcos, entrou em contato com Empire, que rapidamente mostrou interesse. Centenas de fãs ajudaram a viabilizar o evento, via crowdfunding - e vão ver o resultado hoje. É importante lembrar que há poucos ingressos disponíveis.
Alec Empire deixou bem claro que não está nem aí pra saudosismo, mas não custa nada lembrar: o show do ATR em São Paulo em 1998 foi histórico.
Atari Teenage Riot em São Paulo
Cine Joia (Praça Carlos Gomes, 82, Centro)
Sexta-feira, 15 de junho de 2012
Horário de abertura da casa: 21h
Horário previsto do show: 23h
Valores dos ingressos e mais informações aqui

