Este blog irresponsável é mantido pela roteirista Juliana Frank, atualmente assoberbada com um vasto projeto literário para a MTV e com o longa "Pornopopéia" (adaptação da obra de Reinaldo Moraes). Publicou este ano seu primeiro livro, "A Quenga de Plástico" [7 Letras]. Aguarde a colaboração de outros amantes de Cortázar e de escritores novíssimos e contemporâneos. Sugestão maravilhosa ou algum texto que não seja primevo ou rabiscado? Mande para correiodajou@gmail.com

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Jan11

58-131-58-131-58-131-(…)

Postado Ana Paula Anderson //

Latino-americanos andando a pé à noite com fome e livros grifados comprados em sebos discutindo, bebendo e enlouquecendo, é disso que se trata? No Brasil eles são tão diferentes, a língua, a extensão das terras, as taxas de analfabetismo, essas bibliotecas anêmicas que fecham cedo demais, o Orkut. Onde eles estão, agora que você terminou de ler Rayuela de madrugada, sozinho ou sozinha? Você passou pela doce urgência de se arrastar de maneira não-euclidiana pelo tapete de um restaurante metido a besta atrás de um torrão de açúcar apenas para senti-lo derreter em suas mãos, percebeu que além da física e da metafísica há a patafísica estudando o visível pelas exceções e não pelas leis, esperou por uma cena de sexo com essa Maga que fica se fazendo de sonsa querendo "aprender" até ser salva pela distração (quantas vezes a vontade de mandá-la calar a boca?) e ela veio com violência e contou em detalhes como foi estuprada porque não existem ideias gerais, as velas derreteram, as sombras cresceram, você baixou o Jazzuela e ouviu It don't mean a thing if it ain't got that swing (já pensou se a SOPA pega e se espalha pelo mundo, que estrago), se encharcou de chuva com uma velha solitária e aquela noite arrastada do capítulo 28 em que o bebê estava com febre foi subindo devagar pela sua espinha enquanto se formava gelada a imagem cinzenta do bebê morto, os que iam percebendo não comentavam, continuavam falando besteiras com nervosismo e mesmo você demorou a perceber mas o cheiro contaminou o ambiente enquanto a mãe servia café e procurava por uma colher limpa, pobrezinha, porra. E até ali era só a metade. Você ainda viajaria de volta a Buenos Aires sem ter encontrado o que foi buscar em Paris e pra disfarçar, como qualquer gaúcho, ficaria machão, discutindo com o melhor amigo e beijando a mulher dele, aquela menina que põe uma tábua entre duas janelas, entre dois homens, para atravessá-la e bem no meio tem uma insolação enquanto eles competem, pulando de teoria em teoria, abstrações, mandrágoras, Morelli, Ferlinghetti, Bataille, Artaud, Gombrowicz, etimologias, toda a consciência atrás de nós que herdamos até que as enfermeiras começassem a chegar, essas enfermeiras modernas fazem mal à saúde. E no entanto você jogou o tabuleiro inteirinho. Do 73 ao 1 ao 2 ao 116 ao 3 ao 84 e assim por diante até chegar no 131 - 58 - 131 - 58 - 131 - 58 - 131, um loop vital entre o mal espiritual e a doença e acabou, você está sozinho, o que fazer agora? Bem, agora você vai andar a pé pelos piores bairros às piores horas, depois volta e faz um café com leite e começa a ler Os Detetives Selvagens e se masturba com poemas sobre vampiros e tudo vai melhorar, antes de piorar, e isso não vai ter fim, “a América Latina foi o manicômio da Europa, assim como os EUA foram sua fábrica. A fábrica está agora em poder dos capatazes, e loucos fugidos são sua mão de obra. O manicômio, há mais de 60 anos, está queimando em seu próprio óleo”, disse Roberto Bolaño enquanto o óleo já ia respingado geral e adivinha como vai continuar essa história, ou melhor, quem...?
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Ana Paula Anderson
publica no blog jupit3rsaturn0.wordpress.com
Imagem gentilmente cedida por quandocanta

Jan09

Convite ao Jogo II

Postado Gustavo Lacava //

Se você já começou a ler O Jogo da Amarelinha, deve ter percebido que Cortázar coloca ali um sem número de referências a escritores, poetas, músicos, pintores, atores, etc. Sobre essa técnica, Davi Arrigucci (no livro “O escorpião encalacrado”) comenta que ela tem como objetivo multiplicar as perspectivas da compreensão da obra, “tornando-a uma rede inesgotável de relações”.

Ora, você deve ter lido o texto anterior, da Ana Paula Anderson, em que as imagens do cenário francês onde se passam partes do livro foram mostradas. Ao voltar para o texto, com aquelas imagens na cabeça – e na tela de seu computador –, ele se enriquece: é possível ver Maga correndo por aquelas ruas, visualizar Horácio e seus famosos cigarros Gauloises amparando Mme. Threpat por aquelas calçadas.

E mais, num outro texto, Juliana Frank citou o gosto do autor argentino pelo jazz. O ritmo essencialmente improvisado incrementa as cenas do Clube da Serpente, trazendo a trama pra perto do leitor – fazendo-o participar dela. A dica ficou: Jazzuela ponto rar!

Mas como fazer se não dominamos todas as referências do erudito Cortázar? Tá aqui outro passo que trará essas intertextualidades que compõem e fundamentam as regras do Jogo. O trecho a seguir é do capítulo 56, que começa dando uma dica dessa colagem de elementos exteriores ao texto, ao citar o hábito de Horácio “de juntar fios coloridos e metê-los entre as páginas dos livros, de fabricar todo tipo de figuras com essas coisas e com cola”. Nesse capítulo, Horácio prepara uma armadilha – um jogo – para Traveler e o aguarda no parapeito da janela do hospício, com um abismo aos seus pés. (Aos desavisados, Horácio vê em Talita a sua antiga amada Maga).

Bom, é ler o texto, clicar nos links e ver as clássicas imagens de cantoras de ópera, atrizes e bailarinas que vêm à cabeça do herói Horácio Oliveira, enquanto vê Talita acenar-lhe:

“Maga levantara o braço direito para chamar a atenção de Oliveira, como se isso fosse necessário, e estava lhe pedindo que chamasse Traveler à janela. Oliveira explicou-lhe da maneira mais clara que isso era impossível, porque a zona da janela correspondia exclusivamente à defesa, mas que talvez pudesse organizar uma trégua. Acrescentou que o gesto de chamá-lo, levantando um braço, fizera com que pensasse em atrizes do passado e, especialmente, em cantoras de ópera como Emmy Destynn, Melba, Marjorie Lawrence, Muzio, Bori, e por que não Theda Bara e Nita Naldi, continuando a soltar nomes com enorme prazer, enquanto Talita baixava o braço e, depois, voltava a levantá-lo, suplicando, Eleonora Duse, naturalmente, Vilma Banky, exatamente Garbo, mas é claro, e uma foto de Sarah Bernhardt que ele, quando criança, havia colado num caderno, e Karsavina, a Boronova, as mulheres, esses gestos eternos, essa perpetuação do destino, embora, neste caso, não fosse possível aceder ao amável pedido.”

Espero que essas imagens tenham complementado o clima que permeava o momento de Horácio no livro e te instigado ainda mais a desbravar O Jogo da Amarelinha.

C ya!

Jan02

XEQUE PASTOR

Postado Juliana Frank //


Recebi este texto em 2006 – não me lembro exatamente se foi isso. Apenas me recordo do impacto que causou e relendo, hoje, tenho mais certeza de sua força. A autora, se lida com a devida atenção, pode ser tida por genial, para poucos, ou uma doente da imaginação,  para muitos. O texto está guardado comigo nos mesmos impressos em que me foram entregues. Tem me valido até hoje como uma ótima companhia nos momentos em que tudo o que leio me parece igual, reprodução ou mera cópia. A escritora deste jogo me entregou o texto antes de me apresentar o Rayuela. Disse-me que era um jogo de xadrez com febre. Sim, foi ela a responsável por dias e noites de puro enlevo.  O texto deve ser lido na ordem que se queira, linhas pares ou linhas ímpares ou na íntegra (a leitura do texto integral exige a sublimação da pontuação e, em algumas passagens, como ela me explicou na época, a repontuação).  Ela se chame Daniela Nunes, tem 35 anos, é uma heremita urbanóide em tempo integral, e destruidora de bússolas nas horas vagas. Tem em si sujeito-remoto multiplicidades de eus desencontrados, todos os seus ânimos apontam para o anonimato. Recomendo a leitura para pátios de hospício, para um domingo com mais desencanto, para piscinas aos sábados e gim, carrosséis de cavalinhos capengas e vermelhões, no lugar da leitura entediante de jornais, ou essas festas de gentes maravilhosas e desinteressadas – onde por certo ela não estará.

(...) 

- É postulável - respondeu Oliveira - A partida infinita...

- Ganha aquele que conquista o centro. É do centro que se dominam todas as possibilidades e, então, não faz sentido que o adversário insista em continuar jogando. Mas o centro poderia encontrar-se numa casa lateral, ou mesmo fora do tabuleiro. 

(O Jogo de Amarelinha, J. Cortázar, ed. Civ. Brasileira, Trad. Fernando de Castro Ferro, pg. 514)


XEQUE PASTOR
 
É sempre assim, meu amigo. Uma coisa e/ou outra, e/ou todas e/ou o contrário
Eu quero mais.
disso tudo e nada.
Quero o pó da casa, o resto do pão. Quero o taco a lajota e
Como falávamos a anos atrás, sobre aquela idéia do poliedro e
a Avenida Principal, e uma maçã.
de lâminas.
O pó da casa e os pentelhos que você esqueceu no tapete, eu quero
E possibilidades elásticas, enquanto sua mãe
cada joguete macabro e tolo. Meu deus, cada linha
errava as horas.
de expressão máxima da tua repulsa,
Que se a vida fosse uma partida de xadrez, seria
da tua pretensa opressão.
tudo tão mais fácil,
Quero fósforo e cupim, um palito mordido, uma acne, pus.
mas estamos mais perto agora
Quero as três da manhã,
do pôquer.
e um cigarro,
E não há mesa nem jogo, mas encho teu copo
que o silêncio é de cristal.
e te dou
Cada fagulha de minha agonia.
um cigarro,
Que é esta noite, perto
que amanhã vamos todos perder,
da vindoura, quem ganha, o amanhã ou
espero.
a má sorte?
Eu quero agora
A morte
uma massagem.
é um indulto
Não sou eu indulgente,
que vou deixar
nem à favor da eutanásia.
para o outro.
A unidade, este escapismo,
A existência bêbada de nós,
sim,
não,
sim.
não,
Teremos.
Não.
Teremos
Não teremos.
tempo, tempo,
Tinjo de porra, com a sua porra,
tanto faz.
a porra de outro.
Já te falei de uma esquina
Precisa-se viver muito
onde parte de mim foi matada,
para conhecer a lama que
nunca voltarei para buscar.
se/te produz.
Porra,
Porra?, eu quis dizer merda,
Eugênio!,
matéria gasta.
que Niétotchka o escambau!,
Eu quero
o caralho à quatro, pede mais uma
epifania, o ponto de fuga,
que essa nossa gosma de inseto
o embrião de todas as possibilidades
precisa circular.
verdemorto, nativesgo, eu quero
E quero a Conta,
Para colar na parede do banheiro,
façamos uma visita
no hall de entrada de uma casa de boas moças,
ali na Augusta
filhas de mães igualmente boas, é sério.
tenho amigos por lá.
Eu quero o efeito-fantasma,
Que maçada, Eugênio!
Hipersaturado. Atira, vamos!
que bichos somos!, que bichos somos!
Treme mais que a lua do Pinheiros, esta foto.
As antenas primeiro!
-eu-tam-bém-
No extremo-limite, podemos ter
Uma clarabóia no fundo dele, bem no fundo
mais, suportar mais!
há, e eu quero nem mais
Que pulsão ecumênica é esta que
nem menos. Podia ter fechado a porta – meu gato –
num prazer indizível, nos mastiga o olho? Cheers, dá uma taça que não tenha
e eu não precisava sequer levantar.
um fundo de veneno, e eu quebro
Insularidades,
inteira, no meio-fio.
meu amor.
Fala comigo, você está bem?
Tão inconciliáveis, tão lacerados, vamos longe
Eu só quero o meu bueiro confortável de onde eu possa
nos deixar assim, como um soluço, à serviço de
assistir você passando por cima de
nada. Que ontem? Espasmos!, não tem ontem para
mim.
quê?! É preciso que nada se guarde, para que nada se
sh! Sssssiu, que imagético, sssiu, não fala comigo, não me
perca. Vamos, estamos malditamente cansados.
olha assim,
Toda partida é um indulto,
meu amigo, com esse olhar de
Vamos, meu amor, que a vida é feita de
água parada e
olhar para a frente. E tira daqui
eu não posso mais, não
Tuas metamúsicas, palhetas e me-ta-bo-ba-gens, e leva também
agüento mais!
isso que diz que viu – que foi – mas não viu. Que foi?!
Vamos dar uma
Apagou teu cigarro, doce? A
volta, não
(deus, suas mãos são lindas!)
pensa que vou
Volta.
completa pelo centro antigo, estamos tão longe.
Não me vem com essa!, avança
Vou para o alto do muro, em meu caminho
indeciso. Meu deus, como somos
sem volta
voláteis, de um ponto
de um estado
para outro.
para outro.
Como somos!
A premissa das verdades é nuclear, Eugênio. Vou para o alto do muro, de onde se vê
Acende-te cigarro,
melhor. Mas por enquanto, fiquemos aqui
termina-te vinho,
mais esta noite,
Fica.
mais hoje
Eu te amo.
por enquanto,
Eu te amo.
por agora,
Eu te amo.
Eu-tam-bém.

 

 

Dez19

Aquela japonesinha que vi na Augusta,

Postado Ana Paula Anderson //

tatuada, de shortinho e bota, com amigos que provavelmente têm apelidos como o Formiga, o Coringa, o Cabeça, o Gorda, a Monstra, o Dentes, a Fer e a Aurora e todos andam muito a pé, a noite inteira, sempre um pouco bêbados, sérios e famintos, carregando livros comprados em sebos cheios de grifos e anotações nas bordas,

"mais uma vez, mais uma vez… não é tão terrível, todos os jovens são assim, não podemos pedir milagres… as ilusões, como sempre, acreditar que as aladas palavras, os livros que se emprestam com tanto fervor, com parágrafos sublinhados, com explicações…"

…isso o Cortázar pôs em Los Premios, mas estamos aqui para tratar do Rayuela e de sua conexão extática com a rua Augusta e o jazz e a invenção do Romantismo, além das trufas. Porque uma das amigas desta japonesinha deve fazer trufas de chocolate para vender no Cursinho, certamente, trufas de prestígio, amarula, brigadeiro, cereja e tradicional e à noite, enquanto derrete o chocolate e mexe o recheio… não, essa não é a amiga que ouve jazz, essa ouve Gal, Tim Maia, pernambucanos diversos e essa, como os demais, estudou em escola estadual e olha agora, a correria. Aqueles professores amarrotados, descabelados, enlouquecendo aos poucos, rebentando o fiapo de garganta que lhes restava, acumulando poeira na história da humanidade enquanto estrelas a 46 bilhões de anos-luz continuam visíveis. Em casos assim, algo como o Rayuela, que nada tem de obscuro, só chega às suas mãos por meio de intricados caminhos que podem envolver desde entrevistas de cantores pop à MTV a cronistas de jornal ou um grupo de teatro que resolve empreender algum tipo de adaptação, e claro, internet e amizade. Suponhamos que três dos amigos da japonesinha, por exemplo, o Formiga, a Monstra e o Gorda, estejam sempre lendo e discutindo, sempre disputando, atrás de um estilo (e com fome). Que fazem com o Rayuela na mão, em São Paulo, no calor rebatido…? A Monstra provavelmente de calcinha, camiseta e pés sujos sobre a cama, suando em cima de um laptop ultrapassado com o Rayuela do lado, uma edição de 1970 da Civilização Brasileira, obviamente comprado em sebo, com acento diferencial em jôgo, êste, vêzes, sôbre, silhuêta, surprêsa, tôdas, bôbo etc, a Monstra pesquisa e faz listas e tem vertigens ao calcular quanto ainda falta. Se Oliveira"era classe média, era portenho, era colégio nacional e essas coisas não têm cura", ela, classe média, colégio estadual, com essas taxas de analfabetismo!… e sempre atrasada, sempre correndo para pôr em dia, alcançar… quem? Não tem cura. Entre pesquisas e listas e olheiras obstinadas, a Monstra baixa PDFs e pelo Google Street View cruza a rue de Seine, por onde Horácio caminhou pensando se encontraria a Maga,

e anda pela Pont des Arts, onde ele imaginou a silhueta dela debruçada sobre o parapeito, olhando a água, 

e as escadas da Pont des Arts, por onde ele subiu, 



e o boulevard de Sébastopol, onde ela poderia estar, comendo salsicha quente,



e o Parc Montsouris, onde Horácio e Maga mataram um guarda-chuva, 
 


e a Place de La Concorde, onde Maga encontrou o guarda-chuva, 



e a rue de Verneiul, onde, numa pequena livraria, um velho decrépito faz milhares de fichas e sabe tudo o que se pode saber sobre historiografia,



e o Pont au Change, 

 

e a rue du Cherche-Midi, 

 

pois a Monstra quer ver que coisa é Paris e também descobre que existe uma compilação das músicas que aparecem em Rayuela, as músicas que eles ouvem e discutem durante as reuniões do Clube da Serpente, de modo que ela pode ler, ver Paris e escutar Coleman Hawkins, Lionel Hampton, Bessie Smith conforme são citados, ATENÇÃO, o álbum se chama Jazzuela e adicionando a ele um .zip ou .rar, bem, você sabe,

 

I'm Coming Virginia fez Oliveira pensar em Bix e Eddie Lang numa disputa de guitarras contra cornetas, de gim contra a má sorte, o jazz.

E Jazz Me Blues leva um a refletir sobre a influência da técnica na arte porque estes tipos, que gravavam antes do long-play, "tinham menos de três minutos para tocar. Agora, aparece um pássaro como Stan Getz e fica vinte e cinco minutos diante do microfone, soltando-se à vontade, dando o melhor que tem. O pobre Bix tinha de trabalhar duro e, quando começava a esquentar, o disco acabava. Como deviam ficar furiosos quando gravavam discos!", ao que outro responde que nem tanto, é como fazer sonetos ao invés de odes. E isto. E mais isto.

E "todavia, aquilo tudo, o canto de Bessie, o arrulho de Coleman Hawkins, não seria tudo mera ilusão, ou talvez algo ainda pior, a ilusão de outras ilusões, uma corrente vertiginosa para trás, para um macaco olhando-se na água no primeiro dia do mundo?"

“Esta música [o jazz] une mais as pessoas que o esperanto, a UNESCO ou as companhias de aviação.” (Cortázar) 

...e assim por diante e a lista aumentando, Lautréamont, Lévi-Strauss, que gosto tem o mate, Santo Agostinho, Mauriac, que fizeram os mouros, como ser estrangulada durante o amor, onde caem as folhas de Yggdrasil, Jarry e a patafísica e um revólver e uma bicicleta e absinto, clima luteciano quer dizer clima enlameado, o gótico, o socialismo, as tensões políticas, Rocamadour é um lugar e também é o amante das rochas, veja agora o apelo de uma autora de mais de 500 verbetes da Wikipédia, NÃO, divago... para ser direta, a japonesinha que vi na Augusta e os amigos dela... você não poderia ser um deles? Percebe, então, de que se trata...? 


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Ana Paula Anderson cursou Letras na USP e foi redatora do Promo da MTV Brasil. Publica no blog http://mn3m0syn3.wordpress.com 

Dez15

Convite ao jogo

Postado Gustavo Lacava //

 



É certo que o romance da modernidade não tem mais razões pra representar um povo, uma nação heróica, tal como faziam as epopéias clássicas (lembramos imediatamente da Ilíada, de Homero). Dado o panorama crítico mundial, uma saga que tratasse do Brasil – e não só de nós – resultaria, no máximo, numa comédia non-sense.

Então, qual é o alvo das tramas surgidas na modernidade? Segundo Lukács, um filósofo e teórico húngaro (agora não nos interessam tanto as referências), o romance moderno é “a narrativa de uma busca degradada de valores autênticos, empreendida por um herói problemático, num mundo também degradado”.

O Jogo da Amarelinha é assim – tematiza o homem contemporâneo, sua relação com o mundo em que vive e as problemáticas situações que enfrenta nessa realidade que o cerca. Esse herói moderno é um sujeito em construção, problemático, sempre em amadurecimento – um homem inquieto.

Diante disso, ao deparar-se logo nas primeiras páginas de Rayuela com um “tabuleiro de direção” (você sabe, né, que o livro pode ser lido de diversas formas?), Cortázar convida o leitor a deixar sua posição de espectador e participar ativamente do Jogo da Amarelinha.

Nós, leitores, nos vemos com um pé na terra, no começo da busca pelo céu. E, como não há certeza nenhuma nesse caminho, acabamos por nos tornar o sujeito inacabado de que falávamos anteriormente: a busca do herói é a nossa busca ao abrir a obra daquele autor tão fanático pelos improvisos do jazz.
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Gustavo Lacava é de Sorocaba (SP), professor de Filosofia.
Leu Cortázar na faculdade de Letras - UNESP (Assis) - e tentou entender esse caleidoscópio contido no Jogo da Amarelinha.
Também escreve poemas nas margens de papéis importantes.

 

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