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Latino-americanos andando a pé à noite com fome e livros grifados comprados em sebos discutindo, bebendo e enlouquecendo, é disso que se trata? No Brasil eles são tão diferentes, a língua, a extensão das terras, as taxas de analfabetismo, essas bibliotecas anêmicas que fecham cedo demais, o Orkut. Onde eles estão, agora que você terminou de ler Rayuela de madrugada, sozinho ou sozinha? Você passou pela doce urgência de se arrastar de maneira não-euclidiana pelo tapete de um restaurante metido a besta atrás de um torrão de açúcar apenas para senti-lo derreter em suas mãos, percebeu que além da física e da metafísica há a patafísica estudando o visível pelas exceções e não pelas leis, esperou por uma cena de sexo com essa Maga que fica se fazendo de sonsa querendo "aprender" até ser salva pela distração (quantas vezes a vontade de mandá-la calar a boca?) e ela veio com violência e contou em detalhes como foi estuprada porque não existem ideias gerais, as velas derreteram, as sombras cresceram, você baixou o Jazzuela e ouviu It don't mean a thing if it ain't got that swing (já pensou se a SOPA pega e se espalha pelo mundo, que estrago), se encharcou de chuva com uma velha solitária e aquela noite arrastada do capítulo 28 em que o bebê estava com febre foi subindo devagar pela sua espinha enquanto se formava gelada a imagem cinzenta do bebê morto, os que iam percebendo não comentavam, continuavam falando besteiras com nervosismo e mesmo você demorou a perceber mas o cheiro contaminou o ambiente enquanto a mãe servia café e procurava por uma colher limpa, pobrezinha, porra. E até ali era só a metade. Você ainda viajaria de volta a Buenos Aires sem ter encontrado o que foi buscar em Paris e pra disfarçar, como qualquer gaúcho, ficaria machão, discutindo com o melhor amigo e beijando a mulher dele, aquela menina que põe uma tábua entre duas janelas, entre dois homens, para atravessá-la e bem no meio tem uma insolação enquanto eles competem, pulando de teoria em teoria, abstrações, mandrágoras, Morelli, Ferlinghetti, Bataille, Artaud, Gombrowicz, etimologias, toda a consciência atrás de nós que herdamos até que as enfermeiras começassem a chegar, essas enfermeiras modernas fazem mal à saúde. E no entanto você jogou o tabuleiro inteirinho. Do 73 ao 1 ao 2 ao 116 ao 3 ao 84 e assim por diante até chegar no 131 - 58 - 131 - 58 - 131 - 58 - 131, um loop vital entre o mal espiritual e a doença e acabou, você está sozinho, o que fazer agora? Bem, agora você vai andar a pé pelos piores bairros às piores horas, depois volta e faz um café com leite e começa a ler Os Detetives Selvagens e se masturba com poemas sobre vampiros e tudo vai melhorar, antes de piorar, e isso não vai ter fim, “a América Latina foi o manicômio da Europa, assim como os EUA foram sua fábrica. A fábrica está agora em poder dos capatazes, e loucos fugidos são sua mão de obra. O manicômio, há mais de 60 anos, está queimando em seu próprio óleo”, disse Roberto Bolaño enquanto o óleo já ia respingado geral e adivinha como vai continuar essa história, ou melhor, quem...?
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Ana Paula Anderson publica no blog jupit3rsaturn0.wordpress.com
Imagem gentilmente cedida por quandocanta










