

No coração da Selva Amazônica, Respire Fundo é o blog de Denis Wilson, médico que derrama em texto tudo o que vê, pensa, sente e percebe.
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Ando pensando em demasia acerca de uma nova configuração de turismo nos novos tempos ( ou velhos tempos, quem sabe... ). E como se dá este processo aqui na selva (digamos Amazônia, já que a floresta equatorial se vai além muito mais do que nosso limite territorial estabelecido em fronteiras). Sempre achei que nós, seres humanos, não devemos entrar no vício de nos considerarmos unicamente pertencente á uma nacionalidade, mas sim cidadões do mundo. Lógico que acho importantíssimo a nacionalidade, o amor á pátria, mas acredito que não devemos nos limitarmos somente á este tipo de pensamento. O mundo em que, no clichê ou não, devemos cuidar é nossa casa eterna. Mas vamos lá...Sempre detestei pacotes feito por agências de turismo, visitas agendadas e todo este turismo empacotado em dias e horários, algo já muito típico por aqui e imagino em centenas de outros lugares no mundo. Mas até que ponto este turismo de massa, não desgasta, e estraga a paz das culturas? Indo mais adiante e pensando na pior causa, o estrago que este turismo pretensioso que pouco permite ao viajante sentir o lugar, na pior causa, pela pressa de cumprir todo o trajeto. Acredito que todos nós, seres humanos, devemos ter os mesmos direitos de conhecer outros mundos, mas até que ponto se articula estas intervenções? Podemos exigir algo mais racional por parte dos responsáveis por estes tipos de visitas? É saudável, mesmo? Realizar "turismo de massa" ( me atrevendo a usar esta palavra tão arriscada ), permite ao visitante ter uma noção de outras realidades inerentes aquele lugar em específico? Como, por exemplo, falta de saneamento básico, pobreza, etc. A impressão é que não. E nestes caso, a miséria pode passar, sim, facilmente despercebida. Já visitei lugares aqui, na Amazônia, em que tive o desprazer de ter encontros com "sacolas plásticas" deixadas por turistas. Algo quase doentio, este ato, na minha opinião. Mas enfim, desabafos hão de exisitir...Até que ponto o que pode ser um encontro não seria uma intervenção, no mínimo, infeliz e malograda. Nestas horas o bom senso é algo muito imperceptível, penso. Agora eu mudo. Fotografar povos exóticos muito carentes significa mostrar ao mundo que há ainda muita pobreza desconhecida pela grande maioria que estes povos ainda estão vivendo? Ou seria mais uma oportunidade de exercitar seus pobres egos fotográficos? Eu penso em tudo isto, e vivo tudo isto. Confesso que algumas fotografia que fiz na Amazônia, me deixaram bastante mal e pensativo enquanto voltava para meu lar, a ponto de nao querer publica-las. Qual o meu direito de expor as pessoas caso não use este direito para um "bem" direcionado e justificado publicamente. Um "bem" que trouxesse resultado para estas "comunidades" que tanto precisam. A miséria vende? Acredito, de qualquer forma, que se fosse por excesso de informação divulgada sobre a pobreza no mundo, a África estaria um pouco melhor ou ainda o Haiti poderia não ser lembrado somente em épocas de fúrias ambientais, pela impressa mundial. A fome move o mundo, move todos. E querer estabelecer regras de bom-senso acerca do uso das misérias e riquezas do mundo parece por demais ingênuo e romântico em um mundo que nunca parará de se mover em fagocitoses intensas, creio.
"Nosso amor vai nos levar pra lá
eu vou te amar pra sempre"
"Chega de comer o pão que o outro amassou"
Falar do norte, do calor do norte, sem falar sobre música classificada como "brega" pode vir a tornar-se redundante. Estava eu hospedado á trabalho em um barco durante 3 dias, onde tais lindas musiquinhas entraram como osmose no meu lindo cérebro. E não é que pensei e cheguei até a registrar naquele momento o bom humor que aquelas músicas me proipiciavam. "Tem filosofia nisto", cheguei a escrever em um rabisco. Engraçado como as culturas encontram meios de se expressar por artes que lhe são atalhos e ofertadas pelos seus universos tão próprios, redundância? Poderia ter existido mil possibilidades de não ser aquilo o produto que representasse aquelas pessoas, mas acabou sendo aquilo. Confuso? Eu chego a ficar assustado como hoje a música que está tocando pelo barzinho da minha esquina é o mesmo "hit" do "mercado do peixe", de Salvador, por exemplo. Para aqueles que nunca visitaram o "mercado do peixe"em Salvador mesmo que antropologicamente, digamos assim numa linguagem mais genérica, fica aqui a dica. De preferência pela alta madrugada soteropolitana pela orla dos velhos tempos do Rio vermelho. Bem, acho que acabei de entrar sem querer em outro assunto. Mas música brega , não querendo desmerecer o termo, nem desrespeitando, pois acredito que tudo sejam formas de manifestações em arte, sinto que acabou se tornando como uma linguagem universal no Brasil. Uma billboard fantasmagórica, que vai deixando todos os grupos super bem informados sobre o último top ten nacional. Moro em frente ao bar mais conhecido de música "popular" de Tabatinga (leia-se Alto do Solimões), chama-se "Kuxixo", um lugar sobre o qual, com certeza, será assunto da minha volta de viagem aos meus amigos. Um lugar digamos assim inesquecível, que já foi capaz de tirar muito (mas muito apesar dos esforços que conto abaixo) do meu sono pelas madrugadas com agudos vorazes das cantoras super-profissionais amazonenses. É mais ou menos assim, em um improvisado palco baixo de madeira com uma iluminação típica ficam 3 dançarinas semi-nuas, lindas, dançando freneticamente para os homens de plantões. Com os movimentos mais loucos que já presenciei em minha vida, é algo inédito. O lugar começa a funcionar na quinta-feira lotando de pessoas amontoadas em pé e algumas em cadeiras de plásticos, obstruindo toda a rua entre viaturas da polícia fazendo a segurança, e dezenas de motoboys que aproveitam o final do expediente para assistirem o show de camarote sentados em seus veículos. Para os desavisados, em Tabatinga há a maior frota de motos já vista por esta pessoa em sua existência, deu para ter uma idéia? (A primeira impressão assim que pisei na cidade é que estava em um planeta onde todos habitantes habitavam em motos). Aos poucos (eu e o kuxixo) iamos fazendo competições de som, funcionava mais ou menos assim: eu colocava um Tom Waits (em um dia) em alto volume para disfarçar o som lá fora, ou qualquer outro som capaz provocar desconcentração do som produzido pelo kuxixo. Acabou que fui me acostumando á ponto de esquecer completamente da badalação do lado de fora, na rua, ufa, tinha quase a convicção de ter superado, pensei hoje. Acabou que agorinha acabei de ligar para o "190", isto mesmo, polícia. Porque devido ás festas de fim de ano, eles resolveram aumentar o som durante todo o dia, acreditem. Enfim, como costumo pensar, estou fazendo um curso de música popular "brega" (no bom sentido,por favor) na "Amazônia urbana" em que moro há cerca de 09 meses. A escolha de morar em frente á este lugar estratégico, no final foi minha, mesmo só sabendo da existência do "Kuxixo", horas depois de ter fechado o contrato, vacilo não? Coisas da vida, a gente nem sempre escolhe tudo, ás vezes. E confesso que ao longo destes 09 meses acabei absorvendo versos de músicas e confesso, vou levar comigo de aprendizado. A gente tem que aprenser alguma coisa sempre, né mesmo? Talvez eu sinta falta do kuxixo um dia, da inocência das suas letras, e dos casos super dramáticos de amor que deram errados nas músicas. Uma esquizofrênia quase que hebefrência. Díficil classificar, não? Rotular mais ainda. Hoje tem Kuxixo. Seus últimos dias, já que soube que a casa super badalada vai se mudar. Prometo um dia tentar citar a "skandalos dance", outra casa super badalada, que meus amigos amam.


O nome disso é "sumaúma" , a maior árvore da Amazônia, tanto em altura, como em comprimento.

Vocês podem me achar um pouco delirante, mas nada disto. Mas algo me intriga na minha pobre cabeça em cabeceira. Junte todas as músicas que rondam pela madrugada minha mente, digo, todas as músicas sobre o contexto "rios". Adicione á isto, mais, o fato de desconfiar á cada dia de trabalho médico que nosso organismo funciona sob um conjunto bem-elaborado de ramificações de veias, arteríolas, artérias, bem nào pretendo dialogar sobre anatomia exatamente. Aonde eu quero chegar? As nossas veias seriam como os afluentes de rios indo desaguar no mar do nosso coração. Escrevo sobre a famliaridade de trânsito de criações similares nas naturezas. Junte á isto, as seivas brutas e elaboradas que percorrem os vasos de plantas em suas folhas distraídas e excitadas pelo vento. Entào pode ficar fácil, se nào for díficil perceber que os rios sào as veias da terra. O nosso planeta, um organismo. Repleto de rios, suas veias, oceanos salgados. Desaguando no mar, no átrio da imensidão. Perto do coração selvagem.
"I Know, I know the sun is hot
Mosquitoes come to suck your blood
Leave you there all alone
Just skin and bone
When you walk among the trees
Listening to the leaves
The further I go the less I know
The less I know"
Mosquito song - Queens of stone ages
É impossível pensar em Amazônia, sem pensar, é claro, nos mosquitos. E todo mundo brasileiro bem sabe a quantidade numerosa imensurável destes bichinhos por metro quadrado da região. Junte a isto o calor equatorial da região e pronto, tenha uma boa paciência, se o seu objetivo é efetuar tarefas. Eu confesso, aqui, que nem sempre os repelentes funcionam, e nem sempre as redes de selva isolam destas temíveis espécies hematófagas. Só para se ter uma idéia, e uma das notícias que mais me chamou a atençào ao estuda sobre a região, é que 80% da "biomassa faunística" (digamos assim) amazônica é constituída por insetos. Curiosos, não? Se voce não estiver resididindo em uma cidade de médio porte do Amazonas, ainda é possível ter um ar-condicionado em sua residência ou ventilador (o que eu acho, de certa forma, uma grande contradição, mas vamos lá - coisas da Amazônia urbana). E isto dá papo e bom pano paras mangas, no jargão, para discutirmos outro assunto que para mim mexe muito comigo - a urbanização da Amazônia. Sinto uma onda de urbanizaçào crescente na região, coisa que não imaginava antes de vir para cá. Lan houses em cidadezinhas na beira do rio, tv á cabos, ar-condicionado em escalas crescentes na maiorias das casas, e por aí vaí em outras peculariedades capazes de destruir qualquer conceito. Com os GPS então, entrar na mata se tornou um outro conceito, á depender da sua utilização. O mundo está ficando velho? Ou seriamos nós? Como escrevi anteriormente um assunto muito rico e que tentarei desenvolver mais adiante.
