

Solamente Vago é o blog de Wagner Figueira. Com uma mochila nas costas, ele está de rolê pela América Latina. Sem rumo certo nem data para voltar.
Esses últimos tempos eu ando tendo contatos com muitos tipos de pessoas de todos os lugares do mundo, como era de se esperar já que estou trabalhando atrás de um balcao de bar dentro de um albergue no centro de Cusco no Peru. Todo mundo dá pelo menos uma passada por aqui para tomar uma cerveja e trocar algumas palavras. Às vezes eu fico só de espreita tentando pescar algumas conversas pro meu repertório, mas geralmente os bate papos de mochileiros acontecem aqui mesmo, do meu lado, no próprio balcao, por isso eu acabo fazendo parte da maior parte deles. É nessa hora que falar um pouco de ingês se faz extremamente necessário. Latinos que conseguem se virar com inglês nao sao muitos, mais brasileiros e chilenos mesmo, mas isso é uma vantagem das grandes se você precisa de um emprego enquanto viaja. Whatever...
Quando o passageiro pede a sua primeira bebida para mim é que eu já me toco de onde que ele é. Brasileiros sao "level EASY" de serem notados, afinal o portunhol está presente a todo momento, mesmo para aqueles que fizeram anos de curso de castellano. Argentinos usam sempre o bom e velho espanhol com o "s" que soa como um "r", Chilenos com suas milhoes de gírias e uma necessidade interminável de falar mais rápido que tudo, Uruguaios quase inexistentes, colombianos falando pra dentro mas em compensaçao muito tranquilos e como eles mesmo dizem "taciturnos". E os gringos nao precisam nem falar, é só olhar pra cara deles e ouvir que idioma estao usando antes de chegarem até o balcão. Com o tempo você vai acostumando com a cara dos Yankees chatos, dos ingleses e australianos beberroes, dos israelitas que lembram muito brasileiros mas tem um poder de barganha do inferno, dos alemaes claros e exigentes quando se trata de cerveja, dos italianos loucos, franceses que falam com bico... ishhh... a historia vai longe.
Mas o que eu ia falar nao era nem sobre esse tipo de qualificaçao fisiológica, comportamental ou sei lá o que. A real é que na essência existem dois tipos de pessoas muito aparentes agora pra mim: aqueles que largam tudo em seu país e resolvem embarcar numa aventura para conhecer novas culturas, novos lugares e novas pessoas, tudo isso de uma forma totalmente pessoal e imersiva, e aquele outro tipo que trabalha o ano inteiro (as vezes até mais que um ano) para tirar férias e gastar todas as suas economias em uma viagem cheia de tours, pacotes turísticos e presentinhos para a família.
Aqui nesse albergue se vê de tudo um pouco; nao é como no outro, menor e mais barato, em que todas as pessoas estavam ali com um espírito de aventura e milhoes de historias dentro da mochila pra contar. Aqui ainda se vê muita gente que tem como primeiras preocupaçoes a praticidade, comodismo e segurança. Muita gente que já vem de avião até Lima e de Lima até Cusco pensando em comprar um pacote turístico para Machu Picchu que inclua todas as refeiçoes, noites dormidas e outras facilidades por no mínimo 100 Dólares. Um dinheiro que eu, pessoalmente, ainda nao senti o peso na mao. Nao que eu tenha alguma coisa contra esse tipo de pessoa, afinal tenho muitos amigos e conhecidos que sao assim. E também não vejo (de forma alguma) isso como um critério para rejeiçao, pelo contrário, acho até engraçado quando converso com esse pessoal e eles se impressionam quando digo que já peguei carona, fui pra Machu Picchu com 20 soles no bolso e dormi na bolívia em um hedredon duro extendido no chão. Não que eu seja "O aventureiro", "O sr. dos perrengues" e nem nada do tipo, mas eu ao menos tento me enquadrar um pouco no primeiro tipo de pessoa que descrevi. Creio que a viagem se torna muito mais emocionante e gratificante quando você consegue superar os seus limites, fazer coisas e passar por situaçoes que você nunca imaginou... tudo isso faz parte do espírito de viajante.
Quando você está no seu país vivendo a tal da rotina, é como se você estivesse usando um cabresto que te impede de olhar pros lados e até pra dentro. Sua vida é acordar naquele determinado horário, se preparar para o trabalho, correr, pegar trânsito, chegar, tomar café, mofar na frente da telinha, almoçar rápido, voltar e ir pra casa cansado para assistir o jornal nacional, jantar um sanduíche e dormir sem ter feito uma coisa pequena se quer para você mesmo e quanto menos para o mundo. A gente se esquece de olhar para o ambiente a nossa volta, afinal, é tudo igual mesmo, você já conhece. Muitas vezes até esquecemos e nao sabemos reconhecer alguém que esteja querendo demonstrar um sentimento, um gesto... E é tudo muito diferente quando você esta viajando: todo dia é um ambiente novo, nenhum detalhe passa em branco, você se apaixona pelos lugares, se apaixona por pessoas, começa a reparar cada pequena característica, personalidade, mesmo quando passa pouco tempo em cada lugar ou com cada indivíduo... é tudo intenso, é tudo tao mágico, isso porque você nao deixou ser engolido pela maldita rotina.
E o que você precisa para sair daí? O que você precisa para viver uma vida mais plena e rica de espírito?
A primeira coisa é se tocar que o seu mundinho nao pode se limitar ao trabalho, faculdade, amizades de final de semana e festas da firma. A segunda é aprender a abrir mao dos seus luxos desnecessários, do seu plano de construir uma casa, ter um carro e um emprego de sucesso... e bla, bla, bla...
Nos últimos tempos tenho percebido que o dinheiro nao é nada se você aprende a viver com o mínimo. Claro que ele te ajuda a fazer muita coisa. E é claro que nao é nenhum pouco mau ter uma reserva que te de a segurança de poder voltar para casa. Mas se você ganha as manhas de se virar e fazer o que pode com pouco, a história das suas reservas financeiras vira só um conto de fadas. Às vezes você até esquece que tem um cartao de crédito e débito... só passando isso para saber.
Eu sei que nao é fácil largar o conforto do lar e muito menos abrir mao daquela promoção que voce estava esperando depois de anos trabalhando. Sei porque nao foi fácil pra mim; eu estava indo para o quarto ano do curso de Publicidade e Propaganda da Cásper Líbero na Paulicéia Desvairada. Tinha um emprego estável com benefícios bem atraentes e um salário rasoavelmente alto para a minha idade (20). Tinha muitos amigos (que ainda tenho) que se juntavam todo dia pra uma festinha de república (Quarta maluca em especial). Sem contar os romances hiper saudáveis, um carro para usar no final de semana na pacata e linda Atibaia (interior de Sao Paulo), cama confortável, colo de mae e pai, almoços e jantas em bons restaurantes, chuveiro de água quente, máquina de lavar... A lista das coisas que eu deixei no Brasil nao é das mais curtas. E não, eu nao vou deixar tudo tudo tudo para sempre. Mas eu sei que muita coisa vai mudar depois desse tempo de viagem (se é que um dia ele acaba), mas enfim... Todo mundo precisa de um tempo da rotina, um tempo desses conceitos que a sociedade prega tao duramente... essa idéia de que para voce ser uma pessoa de sucesso você tem que fazer uma boa faculdade, ter um bom emprego, saber economizar uma grana para casar, ter filhos, pagar boas escolas para eles, ter um carro do ano, uma casa confortável e poder viajar para Europa para passar suas duas semanas de férias.
A minha faculdade agora é a da vida, o meu emprego é qualquer um que apareça (de pedreiro a empreendedor), as minhas economias se limitam a alimentação e higiene, o meu filho é o meu caderno para quem eu conto todas as minhas histórias antes de dormir, a escola que eu pago pra ele é a minha caneta que vira e mexe some, o meu carro é o primeiro que me oferecer carona ou o ônibus mais barato, a minha casa fica no chao pra onde o vento me arrastar e as minhas férias e viagens duram o tempo que eu achar que for o bastante. Se eu estou feliz e me considero uma pessoa de sucesso por isso?! Modéstia a parte, posso dizer "sim"!
Viaje! Só isso que eu digo. Nao espere suas férias e muito menos a sua aposentadoria. Nao existe chance de você se arrepender. E o aprendizado é garantido.
Para começar basta a vontade e a coragem dentro da mochila!
E eu termino esse post com um trecho de Amyr Klink que trombei esses dias no profile de um acompanhante desse blog (Gustavo) que me deixou um scrap me parabenizando pelos posts a alguns dias atrás (valeu rapaz!).
"Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink

de cara limpa, um mes antes de comecar a viagem

Atibaia querida que deixei

O abraco de despedida de pai e mae
Quando a historia comecou de verdade. Saindo de Buenos Aires, me despedindo do grande amigo Queiroz, o ultimo que vi dos roles passados
Hoje aqui no bar




















